terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Desejos de Natal: Bolhas de alegria e não de sangue

Dia 5 de Novembro, cerca das quatro da manhã, Tomar. A Verónica acorda com uma violenta dor de cabeça na zona da nuca. Pede ajuda desesperadamente à mãe, não consegue falar com tanta dor, tenta dirigir-se à rua para apanhar ar mas não consegue. Apenas consegue agarrar-se à nuca, esbracejar e fechar os olhos. Os bombeiros são chamados ao local. Enganam-se na morada, mas chegam. Os sinais vitais estão bem, nomeadamente tensão arterial. Diagnóstico possível, um acidente vascular cerebral. Entrada no Hospital de Tomar (hospital que não tem especialidade de neurocirurgia ou cardiologia), a Verónica fica inconsciente. De ambulância é transferida para o Hospital de Abrantes (hospital que não tem especialidade de neurocirurgia ou cardiologia), é examinada por uma equipa médica e lá sofre o segundo avc. Em Abrantes dizem-nos que a Verónica sofreu o rebentamento de um segundo aneurisma. Rebentamento de dois aneurismas. Dizem-nos que vai ser transferida para o Hospital de São José, de helicóptero e que terá uma equipa médica à sua espera. Há nevoeiro, afinal irá de ambulância, cerca de duas horas de caminho.  
Entra nas urgências do Hospital de São José no dia 5 de Novembro, às 12h. Urgências. Exames. É internada na Unidade de Cuidados Intensivos do Serviço de Neurocirurgia. Conseguimos falar com a médica de serviço que nos diz que o caso é grave, que a Verónica vai ser intervencionada pelo melhor especialista daquela unidade, Doutor Victor Gonçalves. A Verónia é operada dia 6 de Novembro (sexta-feira), às 10h. Diagnóstico: muito reservado, uma hemorragia muito grande, coma induzido. Seria tempo de esperar que ela estabilizasse, saísse do coma e ver o resultado. Esperámos. Sondas, tractotomia, infecção urinária, pneumonia. Todos os dias esperámos, todas as horas. 
Próximo passo: a Verónica sair de perigo de vida.
A Verónica é trazida do coma para a vida mas parte dela ficou perdida no caminho. O nível de consciência é quase zero. A reacção visível é abrir os olhos, mexer o globo ocular e com isso dar sinais de que ouve. 

Implorámos a São José para que não fizessem a transferência para o Hospital de Abrantes, porque a família tem conhecimento do mau funcionamento do hospital. Nada a fazer, segue para lá. Início de Dezembro. Dia 1.

Entrada nas Urgências do Hospital de Abrantes. A Verónica aguarda mais de cinco horas para ser levada para a enfermaria. Internada em Medicina Interna. A única noticia é dizer que a doente se mantém como veio de São José. Black out. A partir daí acabaram as informações clínicas verdadeiras e rigorosas que fomos recebendo em São José, acabou o investimento na Verónica e na sua família. 

A Veronica está em estado vegetativo. Demorou 31 horas a ser operada. Nada a fazer, o pior aconteceu. Tudo resto são detalhes para a Vida da Verónica.

A mãe da Verónica não perdeu uma filha, eu não perdi uma irmã, o filho não perdeu uma mãe, ninguém perdeu a Verónica. Perdemos todos uma parte de nós.

Perdemos todos quando nos fazem perceber da fragilidade que é a nossa vida, materializada no nosso corpo. 

Este Natal seremos ainda menos e com menos alegria. Felizes pelos que restam. Felizes pela pureza das crianças. Pai Natal, traz-nos apenas Paz e uma "gotinha de água" para podermos continuar.

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