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Queria enganar o meu espelho, queria esconder-me dele e nele continuar a ver-me, aliás, espreitar-me.

Não quero ser somente mais um visitante deste tempo. Nunca pensei que estaria mais de oitenta, e sempre pensei que não desaparecia nova. E neste tempo já fui transparente, opaca, brilhante, baça, viva, morta. É assim que se vive com o nosso reflexo. Cheia de tonalidades. Sempre em espelho. 
Muitas vezes achava que o que estava à minha frente era muito maior, mais brilhante, mais transparente. E o meu reflexo, no espelho, ia ficando cada vez mais pequeno à medida que achava isto. Às vezes achava que o meu reflexo era tão alto, inteligente, amoroso quanto o que eu via à minha frente. E eu e o meu reflexo ficávamos a olhar-nos horas a fio, sem perder um pestanejo. Ficávamos no "achismo". Eu achava uma coisa, ele achava outra.
Não menos raras eram as vezes em que eu tentava enganar o meu reflexo. Tinha sempre esperança que me acontecesse o que a Suzy Lee tão bem descreveu no seu livro "Mirror". 
Queria enganar o meu espelho, queria esconder-me dele e nele continuar a ver-…

E a história? Presa, cheia de medo de se mostrar. Parecia que ía ao dentista.

Hoje foi dia nervos à flor da pele... acordo com despertador, enfrentar ventania e chuva, começar a Encontar histórias bem cedo. 
O corpo não queria obedecer à história, queria virar-se mais para os cabelos enleados e molhados.  O saco queria obedecer à chuva e rasgar-se como um rio, tal como o trânsito... um ribeiro imenso e nós dentro da Nau. E a história? Presa, cheia de medo de se mostrar. Parecia que ía ao dentista. Preferia tudo, a estar ali. 
Mas teve de estar. Foi literalmente empurrada para a frente e obrigada a passear na boca de cena, durante uns bons trinta minutos. De vez em quando olhava para trás, assustada, e pedia-me conselhos para continuar. De outras vezes conseguia abrir um leve sorriso. Outras porém, ficava estática, só a olhar quem a olhava e escutava os seus passos.
As nossas histórias, são nossas. Não é possível dar-lhes a volta. Não há modificações, alterações ou edições. São assim, com aquelas palavras escolhidas pela Vida. E, do meu lado, elas não gostam de se mo…

Ser mãe é...

Desde há sete anos para cá que o dia da Mãe é celebrado no misto entre Filha e Mãe.
Há trinta e nove anos que sou filha. Há sete que sou mãe.
Em nenhum dos papeis me deram manual, mas o certo é que, para mim, o papel de Mãe sempre assumiu maior responsabilidade do que o de filha. Lembro-me, em cada desavença com os meus pais, de lhes dizer (a maior das vezes, de pensar, para não levar uma achega no pêlo) que eu não tinha pedido para nascer. E se calhar por isso, o peso da responsabilidade enquanto filha sempre foi nulo. Eu sempre estive cá de borla! Nunca exige estar, por isso, aguentem-se! Não tenho de fazer feliz quem escolheu por mim (achava eu que eram eles que escolhiam)... 
Já o papel de Mãe foi opção minha e, por essa razão, a responsabilidade é aceite na totalidade. 
Mas haverá mesmo tão grande distância entre um e outro? 
Seremos mesmo tão diferentes filhos e pais? Acredito que em algumas coisas sim. Sou alguém que, contrariamente aos meus progenitores, tem tempo de vida para si. …

no dia do sorriso

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Não tendo sido um dia maioritariamente cheio de sorrisos, não há como não mostrar e querer provocar o nosso.
Eu e ele nem sempre fomos amigos. Nem sempre tivemos uma boa relação. Só de há uns anos a esta parte é que ele se quis dar a conhecer a mim e ao mundo. De um dia para o outro passou a ser uma referência para mim e para os outros. E uma referência boa. Para mim e para os outros. 
De repente fazemos histórias e somos bem recebidos. Ele não é seca, nem amarelo, é cheio (apesar de uma falha ou outra!) e faz questão de estar "à janela". 
Apareceu-me na cara quando me encontrei e de mim passei a cuidar.
Alguém já o tinha marcado há muitos anos atrás. Uma queda, um antibiótico...
Alguém reparou que ele deixa marca. Que está marcado. "A menina da maninha no dente", foi assim que me baptizou e é assim que me continua a nomear. O António Torrado. 
Alguns reparam neste detalhe, outros no geral. 
A realidade é que, desde que me encontrei, que ele me é uma marca, literalmente. …

sincrotação, desesão, deusconstrução, grimor, sorrionde

Ontem, à hora certa, recebi uma mensagem, com as palavras certas.
Tive tempo para pensar nelas. Tive tempo para pensar como gostaria de me encaixar nelas. 
Será que todas as palavras já foram, mesmo, inventadas? Mesmo?
Quando se mistura a palavra "sincronismo" com a palavra "inquietação"... é "sincrotação"?
Quando se mistura a palavra "desejo" com a palavra "ilusão" ... é "desesão" ou "decepção"?
Quando se mistura a palavra "construção" com a palavra "adeus" ... é "deusconstrução"?
Quando se mistura a palavra "lágrima" com a palavra "amor" ... é "grimor"?
Quando se mistura a palavra "sorriso" com a palavra "esconde"... é "sorrionde"?
Quando se mistura a palavra "vida" com a palavra "pleno" ? ... é uma vaidade? ou falsa verdade? 
Ontem, à hora certa, recebi uma mensagem, com as palavras certas. Sofri de sincrotação na…

entre a ilusão e a realidade...

Criamos a ilusão. Iludimo-nos. 
A ilusão não acontece na realidade. A realidade fica diferente do que imaginámos. 
A realidade fica defraudada. A realidade passa a ser mentira. 
A ilusão é mentira. A verdade é realidade.
A realidade é presente. A ilusão é futuro.
Realidade é real. Ilusão é invenção.

Quanto pesa a realidade? Quando nos eleva uma invenção?

Quanto vale o agora? Quanto custa o sonhado?

Quando aceitar o que existe? Quando parar de sonhar?

Tem limite, um e outro? 

Pesam? Elevam?
Valem? Custam?
Aceito? Ou paro?



la poesia non è fuori, è dentro...

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Dois mundos opostos, duas cidades opostas, duas escolas opostas, duas turmas opostas, dezenas de alunos, supostamente, opostos. A oposição cola-se à condição financeira e social. Uns ao abandono, outros muito protegidos. À partida o resultado desta observação seria fácil: pessoas em oposto.

Mas, o que alegra o coração e dá esperança para continuar a acreditar, é ver que, as pessoas destes dois opostos, são igualmente Pessoas. Não umas pessoas quaisquer, Pessoas que se interessam por si, pelo colega, pelo adulto. Pessoas que pensam em si, no colega e no adulto. Pessoas que têm em comum o respeito por si e pelo outro. 

Tudo isto observado durante uns minutos de aula de língua portuguesa (num mundo) e de formação cívica (no outro mundo).

O que as uniu? Os sentimentos traduzidos em palavras. Num grupo ouvia-se "A Lágrima de preta" no outro grupo ouvia-se falar de medos e de sonhos. 

E eu lembrei-me desta frase, dita pelo Roberto Benigni, retirada do filme "O tigre e a neve"…