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Enfermeiro Fernando, UCI Neurocirurgia, HSJ

... da visita médica de hoje...


O Milagre não aconteceu, pelo menos para a minha prima, mas para mim bateu à porta uma espécie de Ser Extra esta Terra. Para alguns seria uma anjo, para outros uma benção, para mim um Ser de outro mundo que não o nosso.
Ao iniciar a visita diária, nos Cuidados Intensivos da Neurocirurgia do Hospital de São José, fomos barradas à entrada por estarem em procedimentos clínicos com ela. Aguardámos uma hora. Entrei e o enfermeiro ainda terminava os procedimentos. Quando terminou, lavou as mãos e dirigiu-se à porta, antes de ele sair aproveitar para saber a quem me dirigir para saber informações clínicas do estado de saúde da 5. O enfermeiro disponibilizou-se na medida do que sabia. Um homem da minha altura, cerca de cinquenta anos, bem constituído fisicamente. Nunca o tinha visto. Já passámos por vários mas aquele nunca tinha visto.
Aproximou-se de mim e junto à cama 5 estivemos a falar acerca da evolução do estado de saúde. Regra geral, todas as pessoas que te…

A Morte Madrinha

Desde o dia cinco de novembro que anseio conhecer Aquele médico... O médico que engane a morte daquela paciente, a minha prima.  No dia cinco de novembro soube da notícia, dois aneurismas rebentaram. Nesse dia esta história voltou ao meu corpo. Quis reconstruí-la mas várias histórias me apareciam pelo meio. Falei com quem a sabia e me indicou o caminho até ela. Na minha de Literatura para Crianças e Jovens quis contá-la, mas a mente e o corpo estavam tão desnorteados que apenas consegui lê-la às minhas alunas. Assumi que a iria ler e não contar, como devia acontecer, porque precisava que rapidamente ela saísse de mim. Assim fiz. Li às minhas alunas o conto tradicional da Morte Madrinha, uma recolha dos irmãos Grimm. E passaram mais duas aulas e ela voltou a ser a minha oferta para o momento da "Leitura gratuita". Ela estava, e continua a estar, tão presente em mim que não valia a pena "tocar" em mais nenhuma. As histórias só podem acontecer desta forma, com verdade. …

Frase Sabura

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A morte vive grávida de Tempo

Sinto-a a pairar e a querer ficar.
Imagino-a a aguardar pacientemente,
sentada num banco, de costas curvadas, pé assente na trave do banco, mãos a segurar o queixo
Imagino-a de rosto sofrido
e pele enrugada pelo excesso de vida que tem, 
olhar sereno.
Por vezes de passo indeciso, outras tão decidido quanto o seu ser.
Imagino-a em longas conversas
tentando seduzir quem lhe resiste...
quem caminhou todo o Tempo sem nunca dela se lembrar
quem fez da vida o seu maior Presente.
A morte vive grávida de Tempo 
todos os dias gera novos filhos.
Nenhum deles o deseja ser
mas todos somos filhos dela também
Vivemos em caminho, nunca esperando.
A morte nunca caminhou na passadeira vermelha,
ao contrário de nós que pudemos avistar tanta paisagem
fazer tanta paragem e viver cada minuto...
como se ele 
fosse esse último.

Como explicarias ao teu filho se fosses tu o refugiado?

Daquelas horríveis imagens do nosso século
já pensaram que
não fizeram mal a ninguém e têm de deixar tudo o que conquistaram em toda a vida e, fugir ... pensem em tudo o que têm neste exacto momento e imaginem-se sem ele
não fizeram mal a ninguém e têm de fugir de tudo ... pensem em como se sentem quando são vítimas de alguma injustiça que naturalmente vos revolta, agora imaginem-se com esta injustiça às costas 
não fizeram mal a ninguém e arriscam-se a morrer na fuga. Arriscam a sua vida e a dos que amam ... pensem no que fariam, no pânico que vos assolaria, na forma como o fariam, na forma como protegeriam os vossos filhos, na ausência de um colete salva vidas, ou da escolha entre uma vida ou outra... 
Em pleno século XXI não há grandes vantagens, para a humanidade, em aqui ter chegado, sobretudo no que toca ao humanismo com que nos relacionamos.
Daquelas horríveis imagens do nosso século, penso 
E se fosse eu a ter de fugir? E se eu tivesse de tomar a decisão de colocar a vida do meu filh…

Regressar de férias é-me tão mau quanto o tempo da sua espera...

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Regressar de férias é-me tão mau quanto o tempo da sua espera...
Antes de sair ando cansada, exausta, com dores de corpo, a contar dias e horas para partir. Quero abandonar tudo o que não é verdadeiramente meu. Saio e depois ali fico, durante dias a fazer unicamente e verdadeiramente o que é meu. A cuidar dos meus quereres, das minhas necessidades, das minhas relações pessoais. Ali fico para o que me é Amor. E este é o tempo onde reuno o melhor da minha vida, não ter obrigação em relação ao que não me é nada, ou que pouco me é. Ali fico com Tempo, 80% para mim e 20% para logística. E sou feliz, muito feliz nessa minha gestão. Haja muito ou pouco dinheiro certo é que nada consegue pagar-me a "não obrigação exterior".
Obrigo-me unicamente a inventar locais de férias para estar e a logística que isso requer. O resto é Tempo útil para mim e para as minhas relações.
E isto faz-me sempre pensar que devo andar trocada nas voltas da vida. Vinte e dois úteis assim, contrariamente às res…

... quando a morte bater na porta ao lado da vossa

... e quando ela bater na porta ao lado da vossa nao digam a quem ficou que é preciso ter força  nao digam para ter coragem nao digam que foi o melhor nao digam que a vida continua nao digam que chegou a hora de apoiar quem fica nao digam nada ou digam, mas sem abrir a boca, abram antes os braços abram um sorriso abram o ceu negro e sejam luz e calor, nao digam pêsames digam que estão triste pela perda nao digam os meus sentimentos, digam que estão ali por amor ou nao digam nada,  porque quem fica deixa de ter coragem deixa de ter força deixa de querer vencer deixa de acreditar deixa de estar deixa de perceber deixa de existir no todo que foi até então e tem direito a não comer naquele dia a não falar a não atender a não esperar a não sorrir a não estar a não aceitar a não querer, porque quem fica, fica sem parte e parte para lugar nenhum, fica com vazio e esvazia-se de tudo, quando a morte bater na porta ao lado da vossa encham-se somente de força para um abraço de coragem para um silêncio pacificador e de amor para contin…