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Para 2017

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2016 quebrou muito... quebrou laços de amor, laços de amizade, laços de confiança e ilusão. Que 2017 seja o ano de reconstrução, aproveitando todos os cacos e regenerando o Jardim de cada um.

Quando quebramos ou partimos nunca mais voltamos a ser como antes. A partir dali transportaremos para sempre uma cicatriz. Não há nada a fazer a não ser acolher essa cicatriz e tratar dela. Colocar o melhor creme hidratante e em abundância fará com que ela deixe de ser um problema ainda maior.
É o que acontece quando nos machucam ou partem, quer por dentro quer por fora. Quando morre algum amor, alguma confiança, algum laço. Não voltamos ao mesmo e para sempre fica uma cicatriz, um risquinho na pele, uma marca na memória da pele.
Todas as teorias dizem que as cicatrizes nos deixam mais forte, que depois retomamos à vida com mais força, mais verticalidade.
Experiência aqui e ali dizem que sim. Abre ferida, faz hemorragia, estanca-se a ferida, inicia o processo de cicatrização e depois, o risquinho da…

Recomeça...

"Recomeça… Se puderes, Sem angústia e sem pressa. E os passos que deres, Nesse caminho duro Do futuro, Dá-os em liberdade. Enquanto não alcances Não descanses. De nenhum fruto queiras só metade. E, nunca saciado, Vai colhendo Ilusões sucessivas no pomar E vendo Acordado, O logro da aventura. És homem, não te esqueças! Só é tua a loucura Onde, com lucidez, te reconheças." Miguel Torga, Diário XIII


Há palavras que tocam numa boca e se transformam em armas nucleares.

Há palavras que tocam numa boca e se transformam em armas nucleares. Palavras que seguem disparadas e quando tocam a pele do outro desarmam-no. Palavras que nos deixam perdidos do centro. 

Queria dizer-te todas as palavras que guardo mas que, na realidade, são tuas. Queria dar-tas mas de cada vez que lhes pego, perco-me. Perco-me até na minha caligrafia, ao ponto dela mudar, de se estar a fechar e a arredondar.

Há palavras que nos moem a cabeça "quero falar contigo". Há palavras que nos pisam a memória "porquê?". Há palavras que nos alucinam o pensamento "amor". Há palavras que nos rasgam o peito "in-di-fe-ren-ça". Há palavras que param o tempo "escuta". Há palavras que fazem levitar "a-cre-dit-to". Há palavras que inundam mais que tsunami "nós". 

Há palavras que não nos saem da boca e ficam a calar todos os minutos passados, pensados. Minutos prensados entre palavras. Palavras amassadas pelo Tempo, e esticadas pela sa…

Roubei-te um beijo...

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As memórias constroem-se, constroem-nos
As saudades constroem-se, desconstroem-nos 

Limpam-se com o tempo.
Demoram tempo.

Vagueiam por entre ventos quentes, 
por cima de nuvens, 
raspam-se entre as rochas, 
colam-se ao rótulo de uma garrafa, 
a infinitos grãos de areia fina

Escondem-se num frasco de perfume, 
estendem-se na folha de um caderno
embrulham-se num cachecol
esgueiram-se por entre frascos de especiarias
enchem o peito num por de sol
enrolam-se num abraço grande e apertado

e não abalam 

teimam em ficar
a aparecer quando menos se espera. 

Deixam de ser convidadas mas mesmo assim conseguem ser ouvidas. 

Passam a ser um "número não identificado" que ignoramos mas que, mais cedo ou mais tarde, acabamos sempre por atender...





Hoje é dia de encontro e desencontro

Hoje é dia de encontro e desencontro

Faz hoje 44 anos que nasceu o meu irmão. Faz hoje um ano que tive um início de desencontro. Datas coincidente que se marcam no calendário. Umas vividas, outras desaparecidas, outras que dão jeito, outras que queremos apagar.

O dia de hoje é mais feliz do que infeliz. Tive a sorte de ter tido um irmão e de estar com ele vinte e quatro anos da minha vida. 
Faremos uma festa com 44 velas. 
Parabéns ao meu irmão que viveu vinte e sete anos. Parabéns aos meus pais. Parabéns à minha memória que eu não me atraiçoou totalmente na minha história de irmã.

Os ponteiros do relógio

Os ponteiros marcavam o presente mas os meus olhos apontavam para o passado. O tempo apontava-me para o passado. 
Um dia sentei-me no presente, baixei os braços e tirei-o do pulso. 
O passado ficaria para trás, o presente ganharia uma companheira. Deixaria de haver horas, minutos, segundos e dias de calendário do passado.
Senti-me aliviada. Deixaria de viajar ao passado de cada vez que tentara situar-me no presente. 
Deixei o relógio de ponteiros num saco que armazena alguns objectos antigos, coisas do passado. Ali juntar-se-ia a um lugar, num tempo, onde não se volta. 
Segui caminho. Era tempo de atar o passado e de me soltar no presente.
Passaram exactamente quinze minutos (neste lugar) quando me apareceu (neste tempo) um relógio sem ponteiros. Um relógio que não me deu horas de passado, nem presente. Estava em branco. Fiquei feliz. Nada é por acaso. Um relógio sem tempo, sem ponteiros. Levei-o ao relojoeiro para que o analisasse. Voltaria a marcar algum tempo para além do que marcou há v…

e de repente sentes que bates de chapa no mundo ...

e de repente sentes que bates de chapa no mundo
que ficas com o peito a arder,
que nada consegue sarar aquela dor.
mas apesar disso mandas-te novamente ao charco
e mais uma vez bates de chapa no mundo
e mais uma 
mais uma e mais uma 
até doer tanto o peito que de seguida vais ao charco mas de braços enrolados, a proteger a tua vida.
no tempo seguinte mergulhas enrolado sobre ti mesmo, 
em bomba, querendo provocar ondas mas protegendo-te de todos os impactos.

a dor no peito demora a passar, o vermelhão também, 
às vezes não passa e deixas mesmo de mergulhar de braços abertos.
importa que vás conseguindo chegar-te perto do charco, que te consigas ver reflectido e que te permitas entrar nele...