quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Ocupar em vez de Pré-ocupar

A propósito do meu momento Sabura de ontem, onde se partilhavam experiências, vontades e se falava das mudanças que a Escola tinha sofrido... 

A Maria do Céu era uma mulher possante. Dava-nos aulas, das 9h às 15.30h, na sala 3 da escola nº 25 de Lisboa. Éramos mais de vinte. Uma das minhas maiores recordações do período da escola primária (actual 1º ciclo) era o espírito de grupo que existia e que a Maria do Céu conseguia incutir. Lembro-me de memórias de afectos e não de métodos. O "Página a página" era o nosso manual de língua portuguesa e lá estava (tal como hoje) a ordem pela qual devíamos aprender as letras. A ordem pela qual devíamos começar a perceber o mundo. Nunca fomos senhores de escolher ou descobrir a nossa ordem ou nossos interesses, mas a Mª do Céu fez tudo de forma tão amorosa que o prazer presente naquela sala enchia balões de ar quente. Lembro-me também de sermos um orgulho para ela, excepto o Bruno que levava reguadas todo o santo dia (nós achavamos normal porque ele era sem dúvida muito mal comportado e desobediente...). Todos líamos muito bem, contávamos na sequência certa, pintávamos como artistas e no recreio éramos a organização em bloco - os meninos saíam a correr para apanhar o lugar no baloiço que depois, gentilmente, cediam às meninas... eles a seguir levavam tareia e nós fazíamos as devidas queixas aos auxiliares... tudo funcionava bem e em equilíbrio! E tenho a certeza de que assim acontecia porque a Maria do Céu era uma mulher que nos amava e que tinha descoberto em nós uma fonte de inspiração. Devia/deve ser uma mulher encantada com alma de poeta. Encerou-nos o caminho com amor e isso foi a melhor forma de irmos andando nos corredores do aprender escolástico. Depois de cada escorregadela sabíamos que a Maria do Céu estava ali para nos levantar e levar a nossa mão ao corrimão. Ela ensinou-me a ler com o "pa, pe, pi, po, pu" mas com muito amor. Ou seja, sem muita descoberta, sentido crítico mas a olhar-nos com muito respeito e carinho. Não sou apologista do "pa, pe, pi, po, pu" existem tantas outras coisas a fazer com a leitura e a escrita, e que nos lançarão para o prazer, para a descoberta, para um olhar crítico, para a construção de sentidos... mas sei que o fundamental, é o respeito e o amor que temos uns pelos outros. Como dizia o Sebastião da Gama:

“Não sou, junto de vós, mais que um camarada um bocadinho mais velho. Sei coisas que vocês não sabem, do mesmo modo que vocês sabem coisas que eu não sei ou já esqueci. Estou aqui para ensinar umas e aprender outras. Ensinar, não. Falar delas. Aqui e no pátio e na rua e no vapor e no combóio e no jardim e onde quer que nos encontremos."


   
e ainda acrescentava este professor "O que eu quero é que vivam felizes" . O seu "Diário" é uma bíblia para todos os educadores, que deve ser lida várias vezes à vida! Uma espécie de Siddhartha ou de Principezinho! Um Sebastião ou uma Mª do Céu que nos leve a ocupar o nosso tempo com muito amor. 

Pré-ocupamo-nos com tanta coisa que deixamos de nos Ocupar... “Pré-ocupamo-nos” demasiado com os resultados esperados, e deixamos de nos “Ocupar” com a construção do caminho ao longo da vida. “Pré-ocupamo-nos” com a regra e deixamos de nos “Ocupar” com a excepção. “Pré-ocupamo-nos” com um decreto, e deixamos de nos “Ocupar” com as pessoas que estão à nossa frente, e para quem somos um farol. “Pré-ocupamo-nos” com o quanto, e deixamos de nos “Ocupar” com o como. “Pré-ocupamo-nos” com o Todo, e deixamos de nos “Ocupar” com o pormenor. “Pré-ocupamo-nos” com o material, e deixamos de nos “Ocupar” com o Ser. E de tal forma nos esquecemos de Ser, que hoje em dia é urgente Humanizar a escola, dar-lhe vida, dar-lhe o verdadeiro sentido de Ser.

Venham mais momentos sabura e em nostalgia, S.


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