quinta-feira, 12 de junho de 2014

Nas noites de Santo António há uma jura eterna...

Passei por ela e chorava. Voltei a passar e continuava a chorar, desta vez agarrada à luz do ecrã do telefone. Pensei que uma noite como aquela era para ser vivida com felicidade e trocar juras de amor eterno, mas não. Aquela mulher ali estava sentada no passeio, e a viver um pesadelo do tamanho de uma sentença de morte. Várias pessoas se aproximavam e ela chorava, limpava as lágrimas, agradecia a atenção mas não deixava ficar ninguém ao seu lado. 
Eu conseguia vê-la, ao longe, por entre as minhas festas e alegrias. Naquela noite, tudo era o contrário daquele Presente vivido por aquela mulher. Os meus movimentos eram largos, os dela eram curtos e repetitivos. As maçãs do meu rosto doíam de tanto riso, as dela ficaram planas. A minha voz rasgava quadras ao santo padroeiro, a dela unia a dor e o desespero. As minhas mãos erguiam-se em brindes, as dela curvavam-se para pedir perdão em formato SMS. Passaram horas até ela largar o passeio e ir embora. Levantei-me e fui ter com ela. Ofereci-lhe uma cerveja. Olhei-a e vi os seus pés sujos, muito sujos, sinal de que não esteve ali parada todo o tempo. O cabelo cheirava a tabaco e a sardinha. As mãos tremiam. Os olhos estavam sozinhos. Lembro-me de lhe ter dito qualquer coisa vaga, uma frase feita inspiradora e generalista. E de lhe ter dito, pensando tratar-se de um "descaso" amoroso que nada, nem ninguém justificava aquele tão grande sofrimento. Ela apenas me disse que em muitas décadas de vida, tinha sido a primeira vez que tinha suplicado, implorado, "pedinchado" O Amor.
Enfiou-se no carro e desapareceu. Desapareceu ela mas, a sua imagem ficou-me para as noites de Santo António. A sua imagem fez uma jura eterna comigo.

Eu, a partir daquela noite, a noite que antecede o dia da morte do António, peço-lhe sempre que me conceda um milagre... que todos os dias restaure o meu amor próprio, porque esse sim, é uma jura que nasceu e morrerá comigo.

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