quarta-feira, 10 de junho de 2015

A Moral da História ... "Era Uma vez um dia normal de Escola"


A expressão "moral da história" sempre me fez comichão nos intestinos...

é daquelas expressões que, ao que me consta na memória da pele, deve ter sido bastante pronunciada perto de mim. Sinto que a mesma me tenha sido dita, por diversas vezes, por gente adulta e com um ar severo. 

Cresci a frequentar a religião católica, faltando-me apenas dois sacramentos no passaporte cristão. Cresci com assiduidade na disciplina de "religião e moral" e, nela, com excelentes professores. Cresci a ouvir um dos melhores mensageiros da igreja, o Padre Janela, que me marcou um dia ao dizer, perante a sua audiência dominical, que não voltaria a desfazer a sua barba enquanto não conseguisse o seu objectivo... cresci eu com ele, e as suas barbas nele. Era um homem de palavra e de acção. Cresci no movimento escutista. Cresci sem grandes desvios na vida. Mas tenho cá para mim que, dentro deste conjunto, o meu crescimento tenha sido marcado pela carga negativa dada à palavra "moral".


Não sendo eu o Padre Janela, sou um bocadinho mensageira das histórias que me vão chegando e ficando. Parte do meu lado profissional contempla a narração de histórias. E se há coisa que me tira do sério é quando alguém, ao final do conto, me pergunta: "e qual é a moral da história?!" Irrita-me as vilosidades intestinais e, por norma, atiro a pergunta para outra pessoa até respirar fundo e devolver a resposta em pergunta "que parte da história se colou ao vosso pensamento?!" E é esta resposta que quero ouvir.

Hoje, ajudando o meu Guerreiro na realização de um trabalho da escola, veio a pergunta "Moral da história?" E, como seria de esperar, senti ainda mais a irritação nas vilosidades. 

- O que é a moral? perguntou
- Que mensagem da história te ficou no pensamento? perguntei

Com a palavra a matutar na cabeça decidi "Wikipedar" a palavra Moral e  


"A palavra Moral deriva do latim mores, "relativo aos costumes". Seria importante referir, ainda, quanto à etimologia da palavra "moral", que esta se originou a partir do intento dos romanos traduzirem a palavra grega êthica.
E assim, a palavra moral não traduz por completo, a palavra grega originária. É que êthica possuía, para os gregos, dois sentidos complementares: o primeiro derivava de êthos e significava, numa palavra, a interioridade do ato humano, ou seja, aquilo que gera uma ação genuinamente humana e que brota a partir de dentro do sujeito moral, ou seja, êthos remete-nos para o âmago do agir, para a intenção. Por outro lado, êthica significava também éthos, remetendo-nos para a questão dos hábitos, costumes, usos e regras, o que se materializa na assimilação social dos valores.1
A tradução latina do termo êthica para mores "esqueceu" o sentido de êthos (a dimensão pessoal do ato humano), privilegiando o sentido comunitário da atitude valorativa. Dessa tradução incompleta resulta a confusão que muitos, hoje, fazem entre os termos ética e moral."


Remetendo para a sua origem e acolhendo as palavras "costume, intenção, hábito, regra" compreende-se o porquê de tanta Moral. Transmissão de regras e valores. Até aqui tudo bem. Mas a necessidade constante da exposição da Moral da história assassina o que de bonito ela tem. O invisível, aquilo que cada um precisa de retirar dela, naquele momento em que escuta. Cada escuta permite uma tatuagem na memória da nossa pele, e se não há uma pele igual à outra, como queremos que as tatuagens sejam iguais?

A Moral, a intenção, a interioridade daquela história está lá, e no caso das histórias, é muito mais rico quando a deixamos coberta com fios de seda. Fios esses que, no tempo certo, serão puxados até à pele e onde, cada um à sua maneira, desenhará uma tatuagem na sua memória. 

Moral desta história para mim: cada vez tenho mais a certeza que não quero desventrar a intenção de uma história. Que nos faz falta oferecer histórias. Que nos falta ouvir histórias sem que nos peçam alguma coisa em troca. Que não consigo gostar/ouvir/ler as Fábulas de La Fontaine.

A mensagem que ficou para o meu Guerreiro, hoje, no dia em que pensou na "moral da história", faz sentido para ele. E no dia de hoje, em que eu já senti saudades de alguns dos meus alunos, o que eu agarrei daquela história foi tão diferente do que ele agarrou e do que eu própria já agarrei dela... 

Ele: "A vida pode mudar a qualquer momento" 

Eu: "Somos todos Seres Extra-Ordinários"

A história: "Era uma vez um dia normal de escola" (AQUI)



terça-feira, 9 de junho de 2015

Os mês meninos d'oiro, ou, do dia do Planeta do Amor



Depois de um ano lectivo, a começar de forma muito dorida e a manter-se com muitas pedras no caminho... o final quase à vista.

Para quem é professor o ano passa a ser o lectivo, e não o civil. Regemo-nos de Setembro a Junho com os nossos alunos. O Julho serve para avaliar, reflectir, repensar, reorganizar... tudo no final das forças.

Hoje, com muito orgulho, uma das minhas turmas apresentou o trabalho de final de ano. A meio do segundo período começámos a construir uma história, e foi essa mesma que apresentámos hoje. Não tenho jeito para encenação ou figurinos, nem tenho jeito para "crianças-marioneta" em palco. As minhas produções são sempre a apresentação de uma história. A deste ano foi especial. Uma turma com 2º e 3º ano, alguns repetentes, e muitos que foram desistindo a meio. 

Hoje eram somente oito no palco. Mas com todo o trabalho feito. Elas, zangadas porque não estavam pintadas, arranjadas, trajadas... eles, (dois) nervosos. A história chama-se "O Planeta do Amor". Começámos com brainstorming, passámos por vários rascunhos, imposições, cedências, mapas, nomes, poderes, mas uma coisa era certa: o título. E é tão bom ver um título destes numa escola de contexto TEIP. E não, não estou a ser poética. Estou a ser tão verdadeira como a carne é para osso. 

Basicamente, Zérbio Verpito* é o herói da nossa história e busca uma fórmula para encontrar a paz no mundo. E encontrou. Passou pelos vários países onde se encontrava a sua família** e a todos perguntava a solução. E todos*** sabiam exactamente o que fazer:

" ... - Sim, eu ajudo na paz! – disse a mãe C.
- Eu também ajudo na paz! – disse a prima D.. E por fim o amigo D. disse:
- Eu ajudo no amor!
Zérbio ficou feliz e disse que assim iam ajudar de certeza. Para isso tinham de ter o poder mágico da amizade. Esse poder estava guardado numa pedra do vulcão da ilha do Fogo. Se cada um tivesse um pedaço desta pedra em casa, todos os habitantes das ilhas ficariam amigos e acabar-se-ia a guerra. Os três habitantes das ilhas começaram a distribuir as pedras vulcânicas por todos os cabo verdianos."

Zérbio a seguir voou até Angola onde encontrou a sua tia I.. Pediu-lhe um conselho para acabar com a guerra e esta disse-lhe:
- Sobrinho, dou-te um conselho. Também já tive guerra onde eu morava e pela minha parte eu dei esse conselho: o Presidente vai mandar uma carta para todas as casas, para toda a gente se reunir num local sagrado. No Embondeiro que está no quintal do senhor Santos, no Zango 4. Depois lá, vão beber uma poção mágica feita do fruto do Embondeiro, que a todos vai dar o Amor e a Paz."

"Zérbio ficou feliz e voou até à Guiné, terra das grandes florestas. Lá encontrou a sua irmã, V..
- V., preciso da tua ajuda para encontrar a paz no Mundo, podes ajudar-me? disse Zérbio. A Vininha respondeu-lhe:
- Sim, eu tenho uma solução. Se eu ensinar os outros a trabalhar, toda a gente vai ter comida e dinheiro, e assim viver em paz."

" Zérbio continuou a viajar. O nosso herói foi ter com o seu pai C. e explicou o que se estava a passar. O pai acalmou-o e disse ter a solução para o seu problema.
- Filho, eu acho que o ideal é nós sermos amigos dos angolanos e dos chineses porque eles agora estão cheios de dinheiro e esquecem-se que o importante na vida é o amor! - disse o pai de Zérbio."

"De seguida, ele foi ter com a sua amiga K.. Ela era professora em Inglaterra e disse a Zérbio:
- Eu sou professora e a melhor maneira de fazer a paz no mundo é ensinar os meus alunos a serem bons. Depois eles ensinam a família e os amigos a serem bons também. E assim todo o país fica em paz.”

"Zérbo ficou contente com as decisões e voou até junto da sua avó C. que estava no Brasil. Quando lá chegou estava toda a família daquele país, reunida num jardim, em Guarulhos. Todos deram a sua ideia:
- Vamos lançar uma música de capoeira para todo o mundo e esperar que esta guerra acabe, estando toda a gente a dançar!"

"Zérbio chamou para junto de si, em Portugal, toda a família. Só faltava falar com a sua tia S.. Esta disse-lhe:
- Para haver paz no mundo Zérbio, é preciso que todos sejam amigos, e que os que fizeram maldades peçam desculpa aos outros.”

"Todos juntos foram até Aveiro ter com os seus amigos N. M. e V.**** . Só com todos eles juntos é que o poder da amizade funcionava. Fizeram uma roda à volta da casa do Noé, deram as mãos e gritaram bem alto:
 “PLANETA DO AMOR, ACABA COM A NOSSA DOR!”
Vitória, vitória acabou a guerra da nossa história!"

E entrou a música e a dança de capoeira ... e eles que se "coreografaram" sozinhos, sem qualquer ajuda minha 

   
O mais curioso foi que a história foi terminada no dia em que os nossos corações deram uma volta de 180º na escola. O mais curioso foi ver o empenho de alguns alunos mais negligentes. Um empenho impressionante. E não, nem sempre, mesmo fazendo o que é do seu interesse, eles se empenham. 

Estou para perceber a que se deveu, será que foi a mensagem? A construção de tudo? À idade em que estão? À nossa relação (eram poucos e por isso quase tratados como tratamos a família, numa espécie de aposta visceral)? Só sei que não foi graças à mega produção cénica, nem de figurinos ou som. 

Sim, muito orgulho, em acabar o final do ano assim... a guardar as pedras na margem do rio para com elas construir o castelo (F.Pessoa). Hoje o nosso planeta ficou certamente mais quente e aconchegado.


* nome inventado com a selecção, ao acaso, de peças do Scrable
** países de origem dos alunos ou família (Cabo Verde, Guiné, Angola, Inglaterra, Portugal, Brasil)
*** alunos e posteriormente personagens
**** alunos que abandonaram a turma durante o ano lectivo