segunda-feira, 13 de julho de 2015

Há uma geração de gente que não foi amada, foi criada

Há uma geração de gente mal amada e mal amanhada. 

Há uma geração de gente mal cozida no colo dos seus pais, e mal cosida com as linhas que unem e tecem o amor. 

Há uma geração de gente que não foi amada, foi criada. Há uma geração que não sabe amar, sabe criar. 

Há uma geração de gente que sofreu muito por conseguir e que faz sofrer para conseguirem.

Há uma geração de gente que não recebeu colo, e por isso não o sabe dar.

Há uma geração de gente que não ouviu, e por isso não sabe dizer.

Há uma geração de gente que não falou, e por isso não sabe falar.

Há uma geração de gente que tem sede de poder, e por isso só bebe dessas fontes.

Há uma geração de gente que não gosta de si mesma, e por isso não consegue gostar de mais ninguém.

Há uma geração de gente que sempre precisou de alguém, e por isso pensa que todos precisam dela.

Há uma geração de gente que nunca olhou para si mesma, e por isso é incapaz de olhar para os outros.

Há uma geração de gente que foi tão mal amada, que nunca chegou a viver na vida. Apenas sobreviveu. 

Há uma geração que não foi amada, foi criada e sobreviveu. Sobreviveu à fome, à emigração, à falta de habilitações, à falta de cuidados de saúde, à revolução, à explosão do mercado e às crises financeiras. Sobreviveu à partida para a guerra, sobreviveu à incerteza do regresso. Sobreviveu ao abandono da terra, e à incerteza da cidade.

Há uma geração de gente que sempre sobreviveu e que espera que os mais novos sobrevivam também, porque para eles, viver é um luxo que não está ao alcance de todos. 

Há outra geração de gente que anda à procura deste colo que não existiu, das palavras que não ouviu, dos abraços que não recebeu. Há uma geração de gente que é valente e encontra, perdido no meio do tempo da sua vida, como é amar-se, amar e ser amado...







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