quarta-feira, 1 de junho de 2016

O normal Dia dos Irmãos ... ou talvez não.



Dizem que aos 31 dias do mês de maio é o dia dos irmãos...

Dia daqueles que tantas vezes dizemos que deviam desaparecer de uma vez por todas! Chatos, carrapatos, mal formados, dependentes de nós, parecem sarna e que causam comichões agudas. 

Como é possível que exista alguém, que ouviu a mesma voz de mãe e de pai, e exista no mundo, da maneira como eles existem?

Não há viagem que não seja um martírio, que eles não ocupem a maior parte do lugar ou que não exijam parar três vezes. Nosso Senhor deu-lhes a inteligência do mesmo tamanho que a bexiga...

Não há festa de aniversário, nossa, onde eles não estejam. Pior... que não exijam a presença dos seus amigos para não ficarem tristes... triste fico eu com a vista que tenho, no início de mais um ano de vida.

Não há saída noturna, festiva e feliz, que eles não queiram colar a asa à nossa boleia.

Não há uma conversa em família que eles consigam SÓ escutar e não opinar, estipular, enganar, denegrir, mal dizer, alcovitar...

Não existe nenhum momento em que eles não tentem pesquisar, decifrar, meter-o-nariz nas nossas vidas.

São os nossos estimado-adoráveis-pseudointeligentes irmãos. Para agravar mais o caso, para onde quer que nos viremos ouvimos "Tudo bem, brother?!", "Oi, bro!" . Já chega, não?! Há limites para a conexão e aceitação, certo? Não viemos obrigados a nada nesta vida, muito menos ao martírio de um irmão. Para além de que nem ninguém nos garante que a linha de montagem daquele ser tenha sido a mesma que a minha. Às vezes conseguimos sair da fábrica com algumas semelhanças, mas sabemos que cada peça é única! Valha-nos Santo DNA.

São os nossos "Brother's". É a nossa vida. E como se isso não bastasse ainda alguém da Rádio Comercial ou da Agenda dos Educadores se lembrou do Dia dos Irmãos! Até quando, oh Jasus?!


Até ao dia... em que tudo isto deixou de ser. Até ao dia em que deixou de o ser nos meus 24 anos de vida.

Durante 24 anos da minha vida sempre existiu esta "festa" dedicada à nossa irmandade. Alguma tareia, queixinhas à mãe, sustos, ódio de estimação, irritação com os tiques, manias, crenças, protecção excessiva à irmã. O normal. Até ao dia em que deixou de o ser. 

De um segundo para o outro toda a normalidade passou a ser uma anormal hipótese de boa memória. O normal passou a ser a anormalidade de uma morte precoce. O normal passou a ser o silêncio ensurdecedor perante a ausência da chatice, dos gritos, das discussões e opiniões. O normal passou a ser um emaranhado de tons da sua voz a circularem pela minha memória. O normal passou a ser eu querer rever as suas feições, as mais ínfimas e já não ser capaz de o fazer sozinha. 

Até ao dia em que deixou de ser um irmão e passou a ser um esforço estóico de memória. 

Tive e terei sempre um irmão. Fui e serei sempre uma irmã. 

(na realidade já não me lembro como é que se está com um irmão, como é que se fala, o que se conta, o que se partilha, como se cumprimenta, como se abraça, como se planeia em família com o irmão, como se conta com a sua protecção, como se acalma os pais, como se festejam as vitórias e como se acolhem os desgostos  como é ter sobrinhos do meu irmão, como é ter uma cunhada, como é confiar segredos, como é estar com alguém com quem nos zangamos e fazemos as pazes sem perceber, como é estar com alguém que esteve dentro da mesma barriga que nós. A única amiga que a Morte tem é a vida, e a sua inimiga de estimação é a memória)










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