terça-feira, 14 de junho de 2016

Vivemos encerrados dentro de um corpo #Santa Casa da Misericórdia de Tomar



Vivemos encerrados dentro de um corpo. Um espaço com o qual habitamos, e do qual amamos umas partes e odiamos outras tantas. A anca bem torneada, o nariz mal acabado. O calcanhar pontiagudo, o ombro bem desenhado. Habitamos nele. E como em todas as nossas casas temos de lhe fazer "manutenções" periódicas. Começamos a ir ao ginásio, passamos a comer de forma mais saudável, deixamos de fumar, fazemos caminhadas. Fazemos tudo e alcançamos o objectivo principal: ter a nossa casa como sempre desejámos. 
No entanto nunca nos preparamos para, um dia, desabitar esta casa, nunca nos preparamos para ser vizinhos do andar ao lado. Temos certo, desde o dia em que a começámos a habitar, que aquele será sempre o nosso ninho. Nunca pensamos desabitá-lo.

Ela habitou o seu corpo durante quarenta e um anos. Nunca cuidou dele de forma exemplar, é um facto. Mas cuidou, ao seu jeito e à sua maneira. Umas vezes pintava o cabelo, outras vezes as unhas. Uma altura colocou uma banda gástrica para combater a obesidade. Habitou o seu corpo durante quarenta e um anos. E de um momento para o outro, viu-se  com ordem de despejo daquela casa. Dois bombistas suicidas arrombaram-lhe a porta de entrada, invadiram a sua casa e fizeram-se explodir. Desde então vive fora de sua casa, a olha-la todos os dias e a lembrar-se como era a sua vida antes do rebentamento das duas bombas.  

Há três semanas conseguiu que uma equipa se ocupasse da limpeza da sua casa. Finalmente alguém voltou a cuidar do seu corpo. Sozinha ainda não o consegue fazer, no entanto aceita que lho façam. Tocam-lhe, escutam-na, falam-lhe, acariciam-na, tratam da sua casa com cuidado. E isto é uma boa parte da cura, da limpeza.

Os seus olhos voltaram a brilhar, a sua língua voltou a humedecer os lábios, a mão direita a mexer ligeiramente e a boca já mexe dizendo algumas palavras. Transmite mau estar quando lhe dói o corpo. Nomeia as pessoas e diz que gosto delas. Continua a viver fora do seu corpo, mas encerrada nele. Certo é que já vai fazendo umas visitas periódicas à sua casa, pé ante pé. Devagarinho, mas vai.

Tenho cada vez mais a certeza de que o toque e a palavra, embrulhados em amor, são a melhor forma de cuidarmos.


...

não podia deixar de tornar público que a equipa a que me refiro é a do equipamento de Unidade de Cuidados Continuados, da Santa Casa da Misericórdia de Tomar. A paciente sofreu do rebentamento de dois aneurismas no zona do cérebro. Desde esse dia (Novembro 2015) até ter dado entrada neste equipamento, em Tomar, nunca tínhamos tido  este acompanhamento (excepto com as equipas extraordinárias da Unidade Neurocirurgia do Hospital de São José). O registo de melhorias tem sido incrível e tudo porque existe cuidado e amor. Temos a certeza. 
É uma equipa extraordinária. Todos fazem parte da equipa, desde a entrada até ao sótão. É um exemplo que deve ser público e aclamado. Já agradecemos e continuaremos a agradecer. 








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