quarta-feira, 7 de março de 2018

Voltar onde já fomos felizes


Ensinam-nos a não voltar a um lugar onde fomos felizes. Assim fazemos, assim nos protegemos.

Voltar a um lugar que nos acolheu a felicidade só deve acontecer se a mesma permanecer em nós. Devia ser isso que nos queriam ensinar, em vez de somente não voltarmos onde fomos felizes.

Voltar a um qualquer espaço onde fomos felizes é uma viagem plena de consciência. 

Voltar a um lugar de vida, de escrita, de brincadeira, de férias, de trabalho, de sentimentos... é sempre uma viagem como bilhete de ida e volta. Uma vaigem sem escalas e de permanência curta, nada permanente.

Já foi muito feliz neste espaço de escrita, o Beijo Sabura. Depois, invasões após invasões, ataques após ataques, fui-lhe fechando a porta. Foi deixando de estar acessível as escritas que aqui eram tornadas públicas. A porta fechou-se para que ninguém pudesse "invadi-lo".

Passou o tempo, e apesar de não ter cuidado deste espaço, o meu jardim, as ervas daninhas foram crescendo de forma a proteger o interior do mesmo. Ontem voltei a olhar para ele, o meu jardim. Continua intacto, a crescer e com ele a sua história para contar.

Aqui me reli e foi assustador, encantador, revoltoso, angustiante, feliz. Todos os dias escrevemos a nossa história e há dias que desconfiamos que, de tão bem ou mal escrita que ficou, seria impossível sermos nós a viver e escrevermo-nos.

Voltamos sempre aos lugares que construímos em verdade. Esses nunca deixam de nos dar colo, nem desaparecem. São o porto de abrigo da jornada. A escrita é-me um porto de abrigo, tal como o mar, a família, o amor, a amizade, o sol... e no meio de tanta tempestade sabe voltar onde já fui feliz. 


 (Adriana Calcanhoto, Esquadros)

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