quarta-feira, 20 de março de 2013

A Felicidade, as Histórias e a Prima da Vera


O meu primeiro livro de terror era desta colecção
mas tinha como título" Rita e o Miguel"

E dentro da escala de serviço do dia 20 de março temos programado comemorar todos as festas que nele cabem! O dia internacional da felicidade, o equinócio da primavera e o dia mundial da narração oral. Pegamos nestes ingredientes, misturamos tudo dentro de um tacho de barro e levamos ao lume. Não são necessários mais temperos do que aqueles que já vêm nos pacotes e o resultado é sempre uma iguaria de vida. Sai sempre bem esta mistura...é um bocadinho como o bolo de iogurte das mães.
Juntar felicidade, histórias e sol recorda-me os meus avós, o Mário e a sua 'Telvininha. Inconscientemente, foram eles os responsáveis por eu gostar tanto de ouvir histórias, e de partilhar aquelas que se colam à minha pele e querem sair pela minha boca. De cada vez que nos aproximávamos da lareira do Mário Abóbora e da 'Telvina, lá estavam, ele e ela, contando as suas histórias de vida. Que delícia. Eram verdadeiras viagens que despertavam (e despertam) todos os sentidos. Eram histórias que vinham acompanhadas de um pão com manteiga e refresco de café. Também traziam a companhia de lágrimas que salgavam a vida, e de sonhos que adocicavam as noites em que a comida teimava em não chegar. Estas histórias eram iluminadas com um candeeiro de petróleo e dormiam em colchões de camisas de milho. Eram histórias que não tinham a Branca de Neve, nem o Peter Pan ou mesmo a Cinderela. Tinham gente real, cheiros comuns, vidas construídas com o peso das suas histórias às costas.
E os livros? Nem vê-los. Em minha casa nunca existiu o hábito de livros. Aliás, relacionado com livros existiam  alguns excelentes hábitos, nomeadamente... acolher com simpatia o senhor do Círculo de Leitores que, de porta em porta, tentava vender as suas edições. Lembro-me que se pagava daí a uns tempos, e que os livros chegavam embrulhados em plástico. Lembro-me de achar extraordinário o seu catálogo. Era uma delícia folhear tantas páginas com tantas fotografias de livros. Por norma, a minha mãe investia em colecções ou enciclopédia e eu e o meu irmão devorávamos toda a informação de animais. A minha mãe dizia que estava a fazer um investimento na nossa educação. Para além do Círculo de Leitores, o outro grande investimento que ela fez (e outros milhares) foi lembrar-me de escrever cartas à família. Ela própria tinha esta rotina e levava-nos ao rubro na felicidade, de cada vez que o carteiro se fazia anunciar! E eu gostava muito de escrever cartas, de emendar os erros com flores, de ir aos CTT colocar a carta e de esperar o regresso da resposta! ... e ainda hoje gosto de receber cartas e de as escrever. Havia ainda outro hábito para além dos meus avós contarem histórias, do Círculo de Leitores e das cartas... este era um hábito penoso para a criançada. Por altura do Natal, as diferentes gerações de miúdos, iam de porta em porta receber os presentes dos vizinhos. Lembro-me de um andar que era o horror, uma seca. Era o nono andar. Era ali que ela e ele moravam. Ela tinha um nome que todos nós já tínhamos ouvido na escola "Matilde Rosa Araújo", e ele "Jorge Araújo". Mas, nem um, nem outro eram Os Tais Famosos. Ela trabalhava na Caminho, ele não sabíamos (soubemos mais tarde que também estava ligado aos livros). E era lá que a desilusão começava, no nono andar. Enquanto que a felicidade reinava em todos os outros andares, naquele o desalento era de tamanho gigante. Já sabíamos, por experiência de todos os outros anos, que era ali que a prenda não tinha pinga de piada. Todos nós saímos de lá com um livrinho da Caminho na mão, por norma da Alice Vieira, e com os cantos da boca virados para baixo (por falar nela...hoje também é dia de aniversário da Alice! Parabéns!). Foi esta Matilde Rosa Araújo que me ofereceu o primeiro livro de terror, da  Verbo (a concorrência dava pesadelos, claro!), com o título "A Rita e o Miguel" (à partida bastante inofensivo). Tive carregadas de pesadelos com ele. O que é certo é que me lembro de, aos poucos e poucos, ir pegando nestes livros, de os ir lendo, relendo (sem obrigação nenhuma, só com prazer) e de me construir no meio das palavras. Foi no meio de todos estes acasos que me construí nas histórias. Ao escrever estas linhas, fui  lembrando-me de tantas outras histórias. Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto. O nosso ponto. E para que contamos tantas histórias? Para mudar o mundo. Ou será que é para o mundo não nos mudar a nós?! (um dia trago-vos esta história).
... curulim, curulado, está este conto contado...

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