quarta-feira, 24 de abril de 2013

Os sintomas da alergia aos Manuais

Abriu a época aos manuais! Muito encontro, muitas tardes de apresentações, muitas capinhas e esferográficas, muitas soluções maravilhosas, muitos euros gastos em quilos de papel. Muita parra e pouca uva, é isto.
A indústria do manual na área da educação é qualquer coisa chocante. Para quem não está dentro desta área pode fazer a comparação com a indústria farmacêutica. O interesse comercial, a quantidade de produtos e a agressividade da indústria do manual são uma realidade em Portugal que dá dinheiro a muita gente, mas que também retira muito dinheiro a gente que já tem pouco. Mesmo que estes tenham subsídios para livros, parece-me chocante o dinheiro que é investido. É chocante, por norma, a qualidade destes, o sentido estético e qualidade científica. Escapam um ou outro manual, uma ou outra colecção, que têm bons textos literários, autores portugueses consagrados, textos completos e não adulterados, boas ilustrações. É chocante os professores continuarem a adoptá-los, como recurso fundamental das suas aulas. É chocante os manuais, quando existem, não poderem ser partilhados e passados de ano para ano (nestes últimos anos têm sido criados Bancos de Manuais Escolares, com a finalidade das pessoas poderem trocar, doar, etc. uma excelente ideia). É chocante muitos profissionais de educação continuarem a adoptá-los sem olhar aos recursos financeiros da sua população. É chocante a quantidade de livros de apoio para cada manual. É chocante o preço deles. Seria bom... que o dinheiro de cada conjunto de manuais  financiado pelo estado (pensando para já, e só, no 1º ciclo) fosse utilizado, por exemplo, para pagar mais psicólogos nas escolas, para proporcionar equipas multidisciplinares qualificadíssimas; para manterem os professores com os seus alunos; para equipar as escolas com bons materiais de plástica e brinquedos; para comprar camas confortáveis para os jardins de infância; para terem os melhores equipamentos nos recreios; para comprarem papel higiénico; para construírem um forno e as crianças poderem aprender a fazer pão; para retirarem o tartan, escavarem uns buracos e plantarem umas árvores; para manterem as Actividades Extra-Curriculares (a propósito leiam o Daniel Oliveira, jornalista do Expresso, aqui, falando acerca deste assunto) ... ou seja, muito dinheiro que as famílias são forçadas, obrigadas a pagar por muita parra e quase nenhuma uva. Com o dinheiro da educação e da saúde não se mexe, pena que sejamos só nós a sabê-lo. É o corte dos pilares. A casa bonita no telhado e os alicerces a cair. Sou mesmo contra esta Cratice actual. Tenho pena que o meu filho vá sofrer com as manias deste Senhor Bafio. É mau e grave o que se está a passar na educação em Portugal. É o regresso à escola centenária, com o crucifixo pendurado na parede, o estrado, as orelhas de burro, a aritmética decorada, a gramática na ponta da língua... tudo decorado, e nada sabido. Mas é isso que eles pretendem: a construção de uma sociedade pouco pensante, pouco criativa, pouco inteligente, que não questione, nem opine. Que oiça, não estranhe e entranhe.  Mas, como nós somos positivos, ainda acreditamos que cada um de nós - seres conscientes e saudáveis - iremos construir um mundo melhor. Por isso, e como opção ao manual de Língua Portuguesa de 1º ano, deixo a sugestão deste excelente exemplar (um objecto de design, com todas as letrinhas do alfabeto e com o qual se gastaria apenas 14€ por sala) e mais... a sugestão de que o caminho da leitura e da escrita seja iniciado com os textos dos melhores autores: os nossos textos diários (e complementados com os dos bons autores de Língua Portuguesa)... 
(Não me alongo mais. Este tema dá-me volta à figadeira, e às entranhas...)

p.s - O livro está esgotado nas bancas de venda comerciais (fnac. bertrand, etc.). Têm de procurar nas boas livrarias. É também possível encomendá-lo na net ...porque raio deixou de estar à venda? Estranho...


(de Marion Bataille, Ed. Corraini)




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