segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Memória no fundo do poço

Era sabido que naquela encosta existia um poço. Em tempos   tinha saciado a sede a toda a gente das aldeias mais próximas,  a todas as plantas e animais, a todas as terras. Era um poço feliz. Feliz mas não estimado. Ao longo dos anos foi ficando sem motivo para o visitarem, afinal de contas era apenas um buraco fundo, escavado na terra, mas vivia feliz por ter sido útil na vida de todos. Os dias, as noites e os anos deixaram de ter conta nos tijolos que forravam as suas paredes e o poço foi deixando de ser desejado. Já ninguém tinha sede da sua água. Já ninguém se aproximava. Agora, em vez de um fundo perto da superfície, só existia uma superfície profunda forrada de pó e coberta de terra. Não existiam animais, plantas ou pessoas por perto que se interessassem por aquele buraco seco. Mas o poço continuava a viver feliz porque, em tempos, tinha sido útil na vida de todos. Vivia de memórias - eram elas que escoravam as suas paredes - e do único som que conseguia chegar ao seu fundo, o do amolador que de vez em quando ali passava. Certa noite, este aproximou-se do poço na esperança de ver reflectida a sua imagem na água. Estava cansado. Tinha abandonado a sua vida quando ainda era jovem e agora somente a sua flauta lhe construía a memória. A sua melodia era a sua memória. Abeirou-se da muralha do poço, espreitou para o fundo e viu a sua imagem reflectida no pó e na terra. Sim, era exactamente assim a sua vida... abandonada e seca como aquele pó. Nesse instante, e para espanto do homem, as paredes de tijolo fizeram ecoar as melodias da sua flauta. O poço, ao longo dos anos e em segredo, tinha guardado todas as memórias do amolador. Ao ouvi-las, o homem forçou o seu rosto a sorrir e a olhar novamente lá para o fundo. Viu que onde até há pouco existia pó e terra, agora avistava um bonito jardim. As suas memórias haviam sido semeadas pelo poço e agora germinavam no fundo dele e nas suas paredes. O amolador, a sorrir, continuou a sua viagem. O poço, até então abandonado, passou a ser conhecido como o mais belo dos jardins, semeado de memórias. 


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