quarta-feira, 19 de julho de 2017

Dona Menisca Interna


A história é a seguinte: "Dona Menisca Interna" referiu dor ás "Interlinhas internas" aquando da rotação com o pé porque, para espanto de todos, seu marido "Dom Menisco" foi comprimido, entre o mar e a terra, ou seja, entre o fémur e a tíbia. Um acto irrepreensível que levou à paragem do reino para um período de reflexão sobre futuros cenários, planos e estratégias a adoptar. 
Como auxílio, "Dona Menisca Interna" contratou para o seu gabinete uma guarda-costas, a "Sra. Pata de Ganso". As duas passeavam-se sem dar conta uma da outra, como é da função de alguém que guarda as costas ao outro... até "Sra. Pata de Ganso" meter a pata na poça e "Dona Menisca Interna" amarrá-la a correntes. Ora, a "Sra. Pata do Ganso" não gostou daquela atitude e a partir de então não fez outra coisa se não grasnar. Dia e noite não fecha o bico. "Dom Menisco" prontamente correu em salvação da "Sra.Pata do Ganso" e gerou-se a confusão. A ordem veio de rompante, "Dom Menisco" ficaria igualmente preso. Para sua proteção, "Dona Menisca Interna" solicitou exames McMurray e Apley a todo o seu reino e a resposta foi positiva. Temos indicadores de que há estragos no reino, embora reduzidos. Não será necessário activar uma operação cirúrgica mas será necessária uma reforma estrutural. Contrariando outras governações, esta reforma terá de ser longa no tempo e muito cuidadosa, evitando futuros desacatos com "Dom Menisco". 
Não contente com a situação, e porque a poça da Pata ainda por lá continuava, "Dona Menisca Interna" fez um Manguito Rotador aos que de mais assistiam àquele episódio e desapareceu com a sua aia "Sra. Tendinite Subescapular". Os dias passaram, os meses também e, fartos daquela confusão, "Dona Menisca Interna" e "Dom Menisco", conversam entre si e renovam os votos da sua união, em concordância com um estilo de vida mais sereno. A eles juntaram-se a "Sra. Tendinite Subescapular" que aguarda a saída em liberdade condicional de "Sra. Pata de Ganso" para celebrarem a sua união de facto.

Resta-me agora encontrar quem ponha ordem no reino e lhe faça a devida reforma.

E bendito e louvado, o resultado da Ressonância Magnética está dado. 

(o ilustrador da história mostrou-me esta manhã as ilustrações finais, em reunião no Hospital Garcia de Orta. Deixo-as convosco...)





terça-feira, 18 de julho de 2017

É a guerra que sustenta a paz


Mandela 

É difícil perceber, mais difícil ainda a actualidade do tema. O Homem, um suposto Ser que há muito diz viver na paz mas permanente com a certeza da vitória na guerra. Afinal é a guerra que sustenta a paz. A garantia de uma, permite a criação da outra. Antigamente pela conquista de terra, hoje pelos povos que fogem dela. Antigamente pela cor de pele, hoje em dia, igual. A Natureza transforma-se, o Homem quieto ali fica, dando voltas e parando no mesmo lugar.

Madiba

Ubuntu i am because we are







segunda-feira, 17 de julho de 2017

Inshallah, Sting



Quantos Inshallah serão necessários? Tantos quantos o tamanho da nossa esperança. O tamanho da vontade e do acreditar que é proporcional ao da esperança. 
Move-nos? É suficiente? 

Tantos Inshallah temos... refugiados, paz, amor, compaixão, aceitação, vida, saúde, força, sonho. Não será suficiente gritar Inshallah até porque esse grito muitas vezes se perde entre vozes mais altas, desesperadas. Há dias em que gritas, gritas, gritas com esperança que te oiçam, que te acompanhem, te aconcheguem. Gritas, muito, até perceberes que só tu podes fazer por acontecer. Só tu sabes a medida da tua vontade, do teu acreditar, da tua esperança.




Sleeping child, on my shoulder
Those around us, curse the sea
Anxious mother turning fearful
Who can blame her, blaming me?
Inshallah, Inshallah
If it be your will, it shall come to pass
Inshallah, Inshallah
If it be your will
As the wind blows, growing colder
Against the sad boats, as we flee
Anxious eyes, search in darkness
With the rising of the sea
Inshallah, Inshallah
If it be your will, it shall come to pass
Inshallah, Inshallah
If it be your will
Sea of worries, sea of fears
In our country, only tears
In our future there's no past
If it be your will, it shall come to pass
Inshallah, Inshallah
If it be your will, it shall come to pass
Inshallah, Inshallah
If it be your will

(Gordon Sumner)

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Quando o Senhor Veneno se instalou em Casa


Após o início do quarto ciclo vieram as primeiras Boas notícias. Senhor Veneno está a dar cabo de Senhor Bicho. O Proprietário da Casa ficou feliz apesar de saber que o seu amigo Senhor Veneno está a dar cabo de muito mais coisas na sua Casa. 

Há dias em que ele não consegue andar, há dias inchados, há dias cambaleantes, há dias zonzos, dias revoltados, dias de caroços no pescoço. Os melhores dias foram exactamente os que antecederam a ida ao médico em que nada se sabia e se vivia feliz, sem restrição alguma. 

Senhor Bicho é rastejante e silencioso, mestre na arte do disfarce. Terá tido treinos nas forças militares especiais para se manter camuflado tanto tempo, sem pedir água, pão ou analgésicos.

Proprietário pronto para desistir, soube dos resultados e decidiu continuar a cuidar da sua Casa.

Os melhores dias, por estranho que pareça, são aqueles em que o Senhor Veneno entra pela porta principal da casa e vai direto aos corredores sanguíneos. É de tal forma poderoso que qualquer descuido na recepção dele, por parte do Proprietário da Casa pode levar a um incêndio pelos corredores por onde passa. Vale o carinho e atenção de quem transporta e trata ambos: Senhor Veneno e Proprietário da Casa. 

terça-feira, 11 de julho de 2017

Na cicatriz que te fica na pele e na memória dela


Na cicatriz que te fica na pele e na memória dela


A cicatriz que fica que te lembra daquilo e daquel'outro

A cicatriz que nos leva de volta àquilo e àquel'outro

pudéssemos virá-la do avesso e ver o que verdadeiramente a provocou

e a mantém ali... parada e estática

A cicatriz que nos leva a viver sempre naquele tempo

sentindo o que provocou o corte

foi aventura? Foi inconsciência ou consciência? Foi descuido? Foi alegre? 

Ficas com uma bela mansão naquele desenho

há dias em que voltas a cair naquele recorte

há outros dias em que nela te refugias e levantas os pés do chão só de a contemplar.

Na cicatriz que te desenha a pele, fica a esperança de não a esticares demasiado, a memória




segunda-feira, 10 de julho de 2017

Carlão... eu vou Viver para Sempre


interrogações, interrogações 
exclamações
e intenções pouco explicitas 

sinais de pontuação são interrogação à tradução




quarta-feira, 14 de junho de 2017

Escola Sem Muros...



Final de ano... avaliação ... planificação do próximo. Esperança, muita.

Ter a certeza de estar no caminho certo. A fazer desta escola uma verdadeira escola porque tem os melhores estudantes. 

Muito, muito trabalho, muita discussão embrulhada em loucura e assente em pilares fortes. Passos pequenos mas grandes conquistas. Mais um ano a derrubar muros da escola.

Uma Escola Sem Muros que permite que os seus alunos vejam mais além, que tenham medo de cair do muro que ainda existe e saibam gritar por ajuda. Uma Escola Sem Muros que constrói cidadãos que recebem todos, que todos aceita e em conjunto trabalham, cada um a seu ritmo. 
Uma escola em que o professor é um entre Todos; que sabe umas coisas que os outros Todos não sabem e que escuta o que Todos os Outros têm para dizer e manifestar. É uma escola onde cada um é respeitado por inteiro, que ajuda cidadãos a agirem de forma democrática e em permanente descoberta. É uma escola que faz parte da Vida, com qualidade de vida. 
Uma escola onde professores estão conscientes de que trabalham num lugar de constante surpresa, porque lá habitam seres curiosos que todos os dias formulam perguntas e não se contentam somente com uma resposta. Conscientes de que se isto não acontece, não estão numa Escola.
Conscientes de que trabalham num lugar onde não há uma assistência, mas onde todos participam, cooperam, organizam, debatem e são autores. Conscientes de que se isto não acontece, não estão numa Escola.

Conscientes de que, quer eles quer os seus alunos são investigadores de primeira linha. Conscientes de que se isto não acontece, não estão numa Escola.

Conscientes de que trabalham num lugar por vezes frio, com paredes forradas de desencanto e corredores que guardam gritos mas que à sua passagem se enchem de Luz.

Conscientes de que trabalham num lugar onde muita da agressividade e da violência provém de uma falha na raiz dos seus participantes: amor. Conscientes de que são um bom suporte para o crescimento saudável dos seus alunos. 

Conscientes de que a alegria, a verdade e a empatia devem ser palavras-chave em todos os relatórios, ordens de trabalho e atas. 

Conscientes de que qualquer dificuldade só o deixa de ser quando olhamos para ela e lhe damos uma solução.

Conscientes de as pessoas com as quais passamos a maior parte do tempo das nossas vidas, os nossos alunos, não são menos ou mais do que qualquer outra pessoa. 

Conscientes de que as pessoas, todas elas, e de todas as idades, preferem um bom problema a uma não-solução.

Conscientes de que todos os seus colegas de profissão, alunos e famílias têm uma impressão digital diferente. Conscientes de que todos eles também têm uma casa diferente da sua. 

Conscientes de que são modelos na formação de uma pessoa e que essa pessoa os olha com esperança. Conscientes de que "Não sou, junto de vós, mais do que um camarada um bocadinho mais velho. Sei coisas que vocês não sabem, do mesmo modo que vocês sabem coisas que eu não sei ou já esqueci. Estou aqui para ensinar umas e aprender outras. Ensinar, não: falar delas. Aqui e no pátio e na rua e no vapor e no comboio e no jardim e onde quer que nos encontremos." como foi Sebastião da Gama.

Conscientes de que são poetas em eterna construção, uma construção de Caminho e não de Muros... 


segunda-feira, 12 de junho de 2017

De nada nos servem as palavras


De nada nos servem as palavras se elas não deixarem o Outro em silêncio


Em palavras colocas o Outro em si  

Nas palavras feitas em si o Outro leva-te no silêncio


Mas em palavras colocas-te em mim

Nas palavras feitas em ti levas-me ao mais profundo silêncio em mim...

Em palavras colocas-me longe de ti

Nas palavras feitas em nós nunca ouvi sequer uma palavra tua ...

Entre aquele tempo e o agora

deixei de ouvir as batidas do meu coração...

passei a escutar gritos que te chamavam

De nada servem as palavras se elas não deixarem o Outro em si

Sirvo-me agora dos teus silêncios para me imaginar contigo

para calar os gritos que existem em mim...












segunda-feira, 1 de maio de 2017

Palavra Estranha



Não sou capaz de escrever aqui pensando que há alguém desse lado que me crítica, que me julga de forma gratuita, sem a minha moeda troca. 

Não sou capaz de escrever aqui enquanto pensar que há quem eu queira que leia e não o faz.

Não sou capaz de escrever aqui quando penso que quem aqui me lê, acha que sabe que me lê.

Não sou capaz de escrever aqui enquanto sentir que este era o meu espaço de escrita e agora é um espaço de voyeurismo.

Aqui expus tantas histórias. Verdadeiras, ficcionadas, reduzidas, metaforizadas, aumentadas, adjectivadas. Fui alvo da crítica de leitores que não conseguiam ler-me através deste Beijo Sabura. Fui acarinhada por outros que se leram neste espaço Beijo Sabura. 

Se escreves metáfora e não entende, algo estranho se passa.

Se não escreves acerca de um momento, algo estranho se passa.

Se falas, algo de estranho se passa.

Se não falas, algo de estranho se passa.

Se não tens companheiro(a), algo de estranho se passa.

Se tens companheiro(a), algo de estranhou se passa.

Se tiras selfies, algo de estranho se passa.

Se não apareces na selfie, algo de estranho se passa.

Se estás feliz, algo de estranho se passa.

Se estás melancólico ou triste, algo de estranho se passa. 

Algo de estranho se passa para quem me lê por aqui, e na realidade não me sabe ler. Ler alguém é um processo que exige tanto esforço, tanto som e silêncio. Ler não é só olhar de frente, é olhar em espelho, de costas, por detrás, por dentro, de baixo da capa, no antes e no agora, na sombra, para lá do visível...isso sim , é saber alguma coisa, ler alguém.

Quem não sabe ler, exige a palavra. Quem lê, olha o silêncio. É difícil aprender a ler as pessoas sem palavras excessivas. Há muitas palavras excessivas, outras que se assim se tornam, até as mais bonitas. Aprendemos a ler-nos quando as palavras são poucas mas as significativas e sábias. Do som do silêncio ecoam as palavras que se falam com o corpo. 
Não sou ninguém para distribuir palavras que aconselhem, sou infinito em construção. Se me abriste na página certa e quiseres contribuir para me acrescentar és bem vindo. se assim não for, por favor, ou vira a página ou deixa o dicionário num lugar público para ser levado por quem se queira dedicar. 

Muitas palavras aqui escritas destruíram a minha vontade de ser lida, algo de estranho se passou... se eu conseguir apagar algumas conseguirei voltar. Muitas destas e outras palavras foram recentemente rasgadas no papel e deitadas no lixo. As mais significativas, para o presente, foram guardadas. Ter palavras guardadas em papel ou fotos arquivando momentos que apenas queremos que prevaleçam na memória - porque nela confiamos, e temos a certeza que irão acabar por desaparecer - era algo de estranho que se passava mas deixou de acontecer.   





quarta-feira, 26 de abril de 2017

O amor, quando se revela


É daqueles textos que já sentimos na pele, que nos moldaram, que nos embriagam, que nos afirmam e que até podíamos ter sido nós a escrever... mas não, foi Ele...


O amor, quando se revela,

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
1928
Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa