sábado, 10 de março de 2018

...fechou-se a cortina



Após 44 anos em cena, hoje, fechou-se a cortina. O pano agora tapa o seu corpo, a sua vida. Não voltaremos a ouvir a sua voz. Não voltaremos a sentir o seu toque. Não conseguiremos voltar a rir juntos. Não seremos capazes de construir mais nada. Nas suas mãos leva o terço, sinal da nossa esperança. 

Ficaremos do lado de cá, à espera de mais um vinda ao palco, até ao dia em que a nossa memória nos comece a atraiçoar. 

Quando o pano se fecha, ficamos imóveis a viver uma realidade que não é a nossa, é a do seu ator e autor. Em menos de um mês perdeu a vida que lhe corria nas veias para um assombroso e oportunista linfoma. Um merdas que se apoderou e se tornou maior que ela.

Deixaste de estar no palco. 

A cortina fechou-se. Os que assistiram à tua peça durante 44 anos estão a sair agora. Não sabem para onde ir. Perderam o Norte. Apenas olham para o céu e elevam as palmas e as flores em tua honra. Apenas o silêncio, a dor, a vontade de acordar...

quarta-feira, 7 de março de 2018

Voltar onde já fomos felizes


Ensinam-nos a não voltar a um lugar onde fomos felizes. Assim fazemos, assim nos protegemos.

Voltar a um lugar que nos acolheu a felicidade só deve acontecer se a mesma permanecer em nós. Devia ser isso que nos queriam ensinar, em vez de somente não voltarmos onde fomos felizes.

Voltar a um qualquer espaço onde fomos felizes é uma viagem plena de consciência. 

Voltar a um lugar de vida, de escrita, de brincadeira, de férias, de trabalho, de sentimentos... é sempre uma viagem como bilhete de ida e volta. Uma vaigem sem escalas e de permanência curta, nada permanente.

Já foi muito feliz neste espaço de escrita, o Beijo Sabura. Depois, invasões após invasões, ataques após ataques, fui-lhe fechando a porta. Foi deixando de estar acessível as escritas que aqui eram tornadas públicas. A porta fechou-se para que ninguém pudesse "invadi-lo".

Passou o tempo, e apesar de não ter cuidado deste espaço, o meu jardim, as ervas daninhas foram crescendo de forma a proteger o interior do mesmo. Ontem voltei a olhar para ele, o meu jardim. Continua intacto, a crescer e com ele a sua história para contar.

Aqui me reli e foi assustador, encantador, revoltoso, angustiante, feliz. Todos os dias escrevemos a nossa história e há dias que desconfiamos que, de tão bem ou mal escrita que ficou, seria impossível sermos nós a viver e escrevermo-nos.

Voltamos sempre aos lugares que construímos em verdade. Esses nunca deixam de nos dar colo, nem desaparecem. São o porto de abrigo da jornada. A escrita é-me um porto de abrigo, tal como o mar, a família, o amor, a amizade, o sol... e no meio de tanta tempestade sabe voltar onde já fui feliz. 


 (Adriana Calcanhoto, Esquadros)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

A idade da tua morte atinge hoje a sua maioridade, dezoito anos.


A idade da tua morte atinge hoje a sua maioridade, dezoito anos.

A idade da morte tem o mesmo tempo que a idade da saudade. Faz hoje anos que são Maiores. Cresceram ambas juntas. Ambas com um nascimento difícil, muito difícil. Tão difícil que quase deram cabo da vida por completo. Não morremos com a tua morte, foram morrendo bocados de nós, da nossa memória, do nosso friso, do nosso tempo. 

Houve um Tempo que também morreu com a tua morte. Houve um Tempo que foi morto pelo peso de tantas dores e que, a cada 26 de setembro, volta a renascer quando me lembro das dores e das marcas deixadas por esse peso.

A idade da tua morte e da saudade são hoje Maiores, a cada ano que passa tornam-se maiores e vão-se alicerçando numa certeza...

o tempo da tua morte cresceu e o tempo de nos encontrarmos diminui.

Até já, Miguel


domingo, 10 de setembro de 2017

Construir memória


Conta as histórias e revela os teus segredos aos teus para que elas nunca se percam.  

Olha a luz das estrelas e faz que a mesma faça brilhar ainda mais o teu rosto. 


Sente o vento e deixa que ele acaricie a memória que a tua pele guarda.


Sonha, escuta, sente e constrói memórias.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Dona Menisca Interna


A história é a seguinte: "Dona Menisca Interna" referiu dor ás "Interlinhas internas" aquando da rotação com o pé porque, para espanto de todos, seu marido "Dom Menisco" foi comprimido, entre o mar e a terra, ou seja, entre o fémur e a tíbia. Um acto irrepreensível que levou à paragem do reino para um período de reflexão sobre futuros cenários, planos e estratégias a adoptar. 
Como auxílio, "Dona Menisca Interna" contratou para o seu gabinete uma guarda-costas, a "Sra. Pata de Ganso". As duas passeavam-se sem dar conta uma da outra, como é da função de alguém que guarda as costas ao outro... até "Sra. Pata de Ganso" meter a pata na poça e "Dona Menisca Interna" amarrá-la a correntes. Ora, a "Sra. Pata do Ganso" não gostou daquela atitude e a partir de então não fez outra coisa se não grasnar. Dia e noite não fecha o bico. "Dom Menisco" prontamente correu em salvação da "Sra.Pata do Ganso" e gerou-se a confusão. A ordem veio de rompante, "Dom Menisco" ficaria igualmente preso. Para sua proteção, "Dona Menisca Interna" solicitou exames McMurray e Apley a todo o seu reino e a resposta foi positiva. Temos indicadores de que há estragos no reino, embora reduzidos. Não será necessário activar uma operação cirúrgica mas será necessária uma reforma estrutural. Contrariando outras governações, esta reforma terá de ser longa no tempo e muito cuidadosa, evitando futuros desacatos com "Dom Menisco". 
Não contente com a situação, e porque a poça da Pata ainda por lá continuava, "Dona Menisca Interna" fez um Manguito Rotador aos que de mais assistiam àquele episódio e desapareceu com a sua aia "Sra. Tendinite Subescapular". Os dias passaram, os meses também e, fartos daquela confusão, "Dona Menisca Interna" e "Dom Menisco", conversam entre si e renovam os votos da sua união, em concordância com um estilo de vida mais sereno. A eles juntaram-se a "Sra. Tendinite Subescapular" que aguarda a saída em liberdade condicional de "Sra. Pata de Ganso" para celebrarem a sua união de facto.

Resta-me agora encontrar quem ponha ordem no reino e lhe faça a devida reforma.

E bendito e louvado, o resultado da Ressonância Magnética está dado. 

(o ilustrador da história mostrou-me esta manhã as ilustrações finais, em reunião no Hospital Garcia de Orta. Deixo-as convosco...)





terça-feira, 18 de julho de 2017

É a guerra que sustenta a paz


Mandela 

É difícil perceber, mais difícil ainda a actualidade do tema. O Homem, um suposto Ser que há muito diz viver na paz mas permanente com a certeza da vitória na guerra. Afinal é a guerra que sustenta a paz. A garantia de uma, permite a criação da outra. Antigamente pela conquista de terra, hoje pelos povos que fogem dela. Antigamente pela cor de pele, hoje em dia, igual. A Natureza transforma-se, o Homem quieto ali fica, dando voltas e parando no mesmo lugar.

Madiba

Ubuntu i am because we are







segunda-feira, 17 de julho de 2017

Inshallah, Sting



Quantos Inshallah serão necessários? Tantos quantos o tamanho da nossa esperança. O tamanho da vontade e do acreditar que é proporcional ao da esperança. 
Move-nos? É suficiente? 

Tantos Inshallah temos... refugiados, paz, amor, compaixão, aceitação, vida, saúde, força, sonho. Não será suficiente gritar Inshallah até porque esse grito muitas vezes se perde entre vozes mais altas, desesperadas. Há dias em que gritas, gritas, gritas com esperança que te oiçam, que te acompanhem, te aconcheguem. Gritas, muito, até perceberes que só tu podes fazer por acontecer. Só tu sabes a medida da tua vontade, do teu acreditar, da tua esperança.




Sleeping child, on my shoulder
Those around us, curse the sea
Anxious mother turning fearful
Who can blame her, blaming me?
Inshallah, Inshallah
If it be your will, it shall come to pass
Inshallah, Inshallah
If it be your will
As the wind blows, growing colder
Against the sad boats, as we flee
Anxious eyes, search in darkness
With the rising of the sea
Inshallah, Inshallah
If it be your will, it shall come to pass
Inshallah, Inshallah
If it be your will
Sea of worries, sea of fears
In our country, only tears
In our future there's no past
If it be your will, it shall come to pass
Inshallah, Inshallah
If it be your will, it shall come to pass
Inshallah, Inshallah
If it be your will

(Gordon Sumner)

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Quando o Senhor Veneno se instalou em Casa


Após o início do quarto ciclo vieram as primeiras Boas notícias. Senhor Veneno está a dar cabo de Senhor Bicho. O Proprietário da Casa ficou feliz apesar de saber que o seu amigo Senhor Veneno está a dar cabo de muito mais coisas na sua Casa. 

Há dias em que ele não consegue andar, há dias inchados, há dias cambaleantes, há dias zonzos, dias revoltados, dias de caroços no pescoço. Os melhores dias foram exactamente os que antecederam a ida ao médico em que nada se sabia e se vivia feliz, sem restrição alguma. 

Senhor Bicho é rastejante e silencioso, mestre na arte do disfarce. Terá tido treinos nas forças militares especiais para se manter camuflado tanto tempo, sem pedir água, pão ou analgésicos.

Proprietário pronto para desistir, soube dos resultados e decidiu continuar a cuidar da sua Casa.

Os melhores dias, por estranho que pareça, são aqueles em que o Senhor Veneno entra pela porta principal da casa e vai direto aos corredores sanguíneos. É de tal forma poderoso que qualquer descuido na recepção dele, por parte do Proprietário da Casa pode levar a um incêndio pelos corredores por onde passa. Vale o carinho e atenção de quem transporta e trata ambos: Senhor Veneno e Proprietário da Casa. 

terça-feira, 11 de julho de 2017

Na cicatriz que te fica na pele e na memória dela


Na cicatriz que te fica na pele e na memória dela


A cicatriz que fica que te lembra daquilo e daquel'outro

A cicatriz que nos leva de volta àquilo e àquel'outro

pudéssemos virá-la do avesso e ver o que verdadeiramente a provocou

e a mantém ali... parada e estática

A cicatriz que nos leva a viver sempre naquele tempo

sentindo o que provocou o corte

foi aventura? Foi inconsciência ou consciência? Foi descuido? Foi alegre? 

Ficas com uma bela mansão naquele desenho

há dias em que voltas a cair naquele recorte

há outros dias em que nela te refugias e levantas os pés do chão só de a contemplar.

Na cicatriz que te desenha a pele, fica a esperança de não a esticares demasiado, a memória




segunda-feira, 10 de julho de 2017

Carlão... eu vou Viver para Sempre


interrogações, interrogações 
exclamações
e intenções pouco explicitas 

sinais de pontuação são interrogação à tradução