segunda-feira, 1 de maio de 2017

Palavra Estranha



Não sou capaz de escrever aqui pensando que há alguém desse lado que me crítica, que me julga de forma gratuita, sem a minha moeda troca. 

Não sou capaz de escrever aqui enquanto pensar que há quem eu queira que leia e não o faz.

Não sou capaz de escrever aqui quando penso que quem aqui me lê, acha que sabe que me lê.

Não sou capaz de escrever aqui enquanto sentir que este era o meu espaço de escrita e agora é um espaço de voyeurismo.

Aqui expus tantas histórias. Verdadeiras, ficcionadas, reduzidas, metaforizadas, aumentadas, adjectivadas. Fui alvo da crítica de leitores que não conseguiam ler-me através deste Beijo Sabura. Fui acarinhada por outros que se leram neste espaço Beijo Sabura. 

Se escreves metáfora e não entende, algo estranho se passa.

Se não escreves acerca de um momento, algo estranho se passa.

Se falas, algo de estranho se passa.

Se não falas, algo de estranho se passa.

Se não tens companheiro(a), algo de estranho se passa.

Se tens companheiro(a), algo de estranhou se passa.

Se tiras selfies, algo de estranho se passa.

Se não apareces na selfie, algo de estranho se passa.

Se estás feliz, algo de estranho se passa.

Se estás melancólico ou triste, algo de estranho se passa. 

Algo de estranho se passa para quem me lê por aqui, e na realidade não me sabe ler. Ler alguém é um processo que exige tanto esforço, tanto som e silêncio. Ler não é só olhar de frente, é olhar em espelho, de costas, por detrás, por dentro, de baixo da capa, no antes e no agora, na sombra, para lá do visível...isso sim , é saber alguma coisa, ler alguém.

Quem não sabe ler, exige a palavra. Quem lê, olha o silêncio. É difícil aprender a ler as pessoas sem palavras excessivas. Há muitas palavras excessivas, outras que se assim se tornam, até as mais bonitas. Aprendemos a ler-nos quando as palavras são poucas mas as significativas e sábias. Do som do silêncio ecoam as palavras que se falam com o corpo. 
Não sou ninguém para distribuir palavras que aconselhem, sou infinito em construção. Se me abriste na página certa e quiseres contribuir para me acrescentar és bem vindo. se assim não for, por favor, ou vira a página ou deixa o dicionário num lugar público para ser levado por quem se queira dedicar. 

Muitas palavras aqui escritas destruíram a minha vontade de ser lida, algo de estranho se passou... se eu conseguir apagar algumas conseguirei voltar. Muitas destas e outras palavras foram recentemente rasgadas no papel e deitadas no lixo. As mais significativas, para o presente, foram guardadas. Ter palavras guardadas em papel ou fotos arquivando momentos que apenas queremos que prevaleçam na memória - porque nela confiamos, e temos a certeza que irão acabar por desaparecer - era algo de estranho que se passava mas deixou de acontecer.