terça-feira, 29 de dezembro de 2015

2016, que seja um bom Par de todos vós

2015, ano Ímpar
na morte de uma amiga, na doença de outra, na perca de colegas de trabalho, no avc da Verónica, no Tempo, 


2015, ano Ímpar
na entrega da tese, e no seu resultado em número par, na viagem, no amor, no afinar das verdadeiras ligações da minha espinha emocional,


2016, que seja Par de todos vós. Um bom par.

Que o que saiu foi mau, e isso deverá tornar-nos melhor.

Que o que saiu foi duro, e isso deverá tornar-nos mais fortes.

Que o que saiu foi triste, e isso deverá tornar-nos mais felizes com o Presente

Que o que saiu foi amargo, e isso deverá tornar-nos mais doces uns com os outros

Que o que saiu fez ferida, e isso deverá ensinar-nos a escolher melhor

Que o que saiu foi ímpar, e isso faz com que agora venha um Par, e que ele encaixe perfeitamente com a dança da Vida

Que o que saiu foi ímpar, e o que vem é par e bissexto, e isso faz com que a soma e a divisão de todos os seus bondinhos ímpares dm um resultado Par

Que o que saiu não foi um bom ímpar, e isso faz que não venha a ser um bom Par na Memória

Que o que saiu já é Pretérito, e foi-no muito Imperfeito, e isso deverá lembrar-nos que cada ano é um Presente, que pode durar um Infinito e ser um Par Perfeito. 

Que o que saiu foi ímpar com tanto mas que este seja Par com a alegria da Vida... 






Desejos de Natal: Bolhas de alegria e não de sangue

Dia 5 de Novembro, cerca das quatro da manhã, Tomar. A Verónica acorda com uma violenta dor de cabeça na zona da nuca. Pede ajuda desesperadamente à mãe, não consegue falar com tanta dor, tenta dirigir-se à rua para apanhar ar mas não consegue. Apenas consegue agarrar-se à nuca, esbracejar e fechar os olhos. Os bombeiros são chamados ao local. Enganam-se na morada, mas chegam. Os sinais vitais estão bem, nomeadamente tensão arterial. Diagnóstico possível, um acidente vascular cerebral. Entrada no Hospital de Tomar (hospital que não tem especialidade de neurocirurgia ou cardiologia), a Verónica fica inconsciente. De ambulância é transferida para o Hospital de Abrantes (hospital que não tem especialidade de neurocirurgia ou cardiologia), é examinada por uma equipa médica e lá sofre o segundo avc. Em Abrantes dizem-nos que a Verónica sofreu o rebentamento de um segundo aneurisma. Rebentamento de dois aneurismas. Dizem-nos que vai ser transferida para o Hospital de São José, de helicóptero e que terá uma equipa médica à sua espera. Há nevoeiro, afinal irá de ambulância, cerca de duas horas de caminho.  
Entra nas urgências do Hospital de São José no dia 5 de Novembro, às 12h. Urgências. Exames. É internada na Unidade de Cuidados Intensivos do Serviço de Neurocirurgia. Conseguimos falar com a médica de serviço que nos diz que o caso é grave, que a Verónica vai ser intervencionada pelo melhor especialista daquela unidade, Doutor Victor Gonçalves. A Verónia é operada dia 6 de Novembro (sexta-feira), às 10h. Diagnóstico: muito reservado, uma hemorragia muito grande, coma induzido. Seria tempo de esperar que ela estabilizasse, saísse do coma e ver o resultado. Esperámos. Sondas, tractotomia, infecção urinária, pneumonia. Todos os dias esperámos, todas as horas. 
Próximo passo: a Verónica sair de perigo de vida.
A Verónica é trazida do coma para a vida mas parte dela ficou perdida no caminho. O nível de consciência é quase zero. A reacção visível é abrir os olhos, mexer o globo ocular e com isso dar sinais de que ouve. 

Implorámos a São José para que não fizessem a transferência para o Hospital de Abrantes, porque a família tem conhecimento do mau funcionamento do hospital. Nada a fazer, segue para lá. Início de Dezembro. Dia 1.

Entrada nas Urgências do Hospital de Abrantes. A Verónica aguarda mais de cinco horas para ser levada para a enfermaria. Internada em Medicina Interna. A única noticia é dizer que a doente se mantém como veio de São José. Black out. A partir daí acabaram as informações clínicas verdadeiras e rigorosas que fomos recebendo em São José, acabou o investimento na Verónica e na sua família. 

A Veronica está em estado vegetativo. Demorou 31 horas a ser operada. Nada a fazer, o pior aconteceu. Tudo resto são detalhes para a Vida da Verónica.

A mãe da Verónica não perdeu uma filha, eu não perdi uma irmã, o filho não perdeu uma mãe, ninguém perdeu a Verónica. Perdemos todos uma parte de nós.

Perdemos todos quando nos fazem perceber da fragilidade que é a nossa vida, materializada no nosso corpo. 

Este Natal seremos ainda menos e com menos alegria. Felizes pelos que restam. Felizes pela pureza das crianças. Pai Natal, traz-nos apenas Paz e uma "gotinha de água" para podermos continuar.

sábado, 21 de novembro de 2015

Enfermeiro Fernando, UCI Neurocirurgia, HSJ

... da visita médica de hoje...


O Milagre não aconteceu, pelo menos para a minha prima, mas para mim bateu à porta uma espécie de Ser Extra esta Terra. Para alguns seria uma anjo, para outros uma benção, para mim um Ser de outro mundo que não o nosso.

Ao iniciar a visita diária, nos Cuidados Intensivos da Neurocirurgia do Hospital de São José, fomos barradas à entrada por estarem em procedimentos clínicos com ela. Aguardámos uma hora. Entrei e o enfermeiro ainda terminava os procedimentos. Quando terminou, lavou as mãos e dirigiu-se à porta, antes de ele sair aproveitar para saber a quem me dirigir para saber informações clínicas do estado de saúde da 5. O enfermeiro disponibilizou-se na medida do que sabia. Um homem da minha altura, cerca de cinquenta anos, bem constituído fisicamente. Nunca o tinha visto. Já passámos por vários mas aquele nunca tinha visto.

Aproximou-se de mim e junto à cama 5 estivemos a falar acerca da evolução do estado de saúde. Regra geral, todas as pessoas que temos vindo a conhecer neste serviço, são enfermeiros ou médicos que se disponibilizam para responder a perguntas, e para dizer a Verdade. Esta última parte é feita com muita cautela, pela parte do pessoal e também uma dose grande de sangue frio. Todos eles seres excepcionais, sem duvida.  

Eu ia cansada, triste, desanimada, esmagada, hiper-sensível e pouco cuidada. Nestas alturas é fácil isto acontecer. A energia sai de nós em velocidade flecha e não retorna renovada. Eu não ia pronta para o que aconteceu...

Certo é que, quando o enfermeiro Fernando se aproximou de mim, fê-lo de uma forma descontraída (novidade naquele local, para mim). Abeirámos-nos da cama, eu ia acarinhando com festas a minha prima, e ele colocou um cotovelo em cima da grade da cama. Começou a "contar a história" desde o início. Todos os detalhes, sequências, possibilidades, cenários. Com toda a Verdade, como caracteriza aquelas equipas daquele serviço. Mas ele tinha uma característica diferente, ele respondeu às minhas perguntas e às minhas ansiedades! E mais que isso: ele escutou as minhas histórias, conversou comigo, questionou-me e sorriu. No final, apertou-me os braços e deu-me dois beijos despedindo-se de mim como se nos conhecêssemos há anos. Desatei em choro, claro está (e ainda choro comovida, enquanto escrevo este texto). Um choro de quem vê sol e sente calor depois de uma tempestade. Um choro de rendição ao cansaço e quem encontrou colo. Um choro comovido e grato à vida por me ter colocado aquele ser à minha frente. 

Passados alguns minutos, enquanto eu aguardava com a minha mãe no exterior, passou por nós, parou e veio falar novamente. Aproximou-se de nós, para lá da distância social, falou e fez-nos sorrir aos três. Despediu-se. 

O que fez o enfermeiro Fernando? Tratou-me de forma especial num dia escuro e tempestuoso; escutou-me; questionou-me; tocou-me; olhou-me enquanto Rita e não enquanto familiar. Nada tenho a apontar a nenhum dos funcionários que até agora conheci, nada mesmo. Pelo contrário, todos eles são seres fora de série. O enfermeiro Fernando fez algo ainda mais Extra-Ordinário, ele humanizou ao máximo aquele espaço e cuidou da Rita. Tratou de mim, enquanto pessoa.

Não sei se o volto a ver. Pelo prognóstico e demora das melhoras, certamente voltaremos a cruzar-nos. Espero mesmo que não tenha sido só um sonho no meio deste pesadelo. 

Há pessoas que têm um dom. O enfermeiro Fernando certamente tem uma bolha gigante de amor à sua volta, e a capacidade de, dentro dela, acolher quem precisa, o maior Dom. Uma capacidade rara. Um exercício de humanização gigante, tão comovente... que o enfermeiro tão naturalmente faz.


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A Morte Madrinha



Desde o dia cinco de novembro que anseio conhecer Aquele médico... O médico que engane a morte daquela paciente, a minha prima. 
No dia cinco de novembro soube da notícia, dois aneurismas rebentaram. Nesse dia esta história voltou ao meu corpo. Quis reconstruí-la mas várias histórias me apareciam pelo meio. Falei com quem a sabia e me indicou o caminho até ela. Na minha de Literatura para Crianças e Jovens quis contá-la, mas a mente e o corpo estavam tão desnorteados que apenas consegui lê-la às minhas alunas. Assumi que a iria ler e não contar, como devia acontecer, porque precisava que rapidamente ela saísse de mim. Assim fiz. Li às minhas alunas o conto tradicional da Morte Madrinha, uma recolha dos irmãos Grimm. E passaram mais duas aulas e ela voltou a ser a minha oferta para o momento da "Leitura gratuita". Ela estava, e continua a estar, tão presente em mim que não valia a pena "tocar" em mais nenhuma.
As histórias só podem acontecer desta forma, com verdade.  E tal como as crianças, o meu corpo e a minha mente foram pedindo esta história várias vezes ao dia, várias vezes por semana. As histórias que contamos constroem-nos, dão-nos segurança. 
Esta continua, todos os dias comigo. Continuo a precisar desta personagem, de saber que existem pessoas que conseguem enganar a morte. Continuo a querer conhecer Aquele médico que a há-de enganar. Que de tão sábio que é, há-de conseguir colocar O milagre e a morte, juntos, à cabeceira da minha prima... por muito, muito tempo.

Deixo-vos a história em audio...   A MORTE MADRINHA (GRIMM) 

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A morte vive grávida de Tempo




Sinto-a a pairar e a querer ficar.

Imagino-a a aguardar pacientemente,

sentada num banco, de costas curvadas, pé assente na trave do banco, mãos a segurar o queixo

Imagino-a de rosto sofrido

e pele enrugada pelo excesso de vida que tem, 

olhar sereno.

Por vezes de passo indeciso, outras tão decidido quanto o seu ser.

Imagino-a em longas conversas

tentando seduzir quem lhe resiste...

quem caminhou todo o Tempo sem nunca dela se lembrar

quem fez da vida o seu maior Presente.

A morte vive grávida de Tempo 

todos os dias gera novos filhos.

Nenhum deles o deseja ser

mas todos somos filhos dela também

Vivemos em caminho, nunca esperando.

A morte nunca caminhou na passadeira vermelha,

ao contrário de nós que pudemos avistar tanta paisagem

fazer tanta paragem e viver cada minuto... 

como se ele 

fosse esse último.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Como explicarias ao teu filho se fosses tu o refugiado?



Daquelas horríveis imagens do nosso século

já pensaram que

não fizeram mal a ninguém e têm de deixar tudo o que conquistaram em toda a vida e, fugir ... pensem em tudo o que têm neste exacto momento e imaginem-se sem ele

não fizeram mal a ninguém e têm de fugir de tudo ... pensem em como se sentem quando são vítimas de alguma injustiça que naturalmente vos revolta, agora imaginem-se com esta injustiça às costas 

não fizeram mal a ninguém e arriscam-se a morrer na fuga. Arriscam a sua vida e a dos que amam ... pensem no que fariam, no pânico que vos assolaria, na forma como o fariam, na forma como protegeriam os vossos filhos, na ausência de um colete salva vidas, ou da escolha entre uma vida ou outra... 

Em pleno século XXI não há grandes vantagens, para a humanidade, em aqui ter chegado, sobretudo no que toca ao humanismo com que nos relacionamos.

Daquelas horríveis imagens do nosso século, penso 

E se fosse eu a ter de fugir? E se eu tivesse de tomar a decisão de colocar a vida do meu filho em risco para fugir?

Em desespero, acredito que preferia colocar as nossas vidas em risco para fugir, do que morrer sem ter feito nada. E se conseguisse cá chegar? O que faria? Eu, que no meu país era aceite, estava integrada e tinha a minha identidade segura, agora chegava a um lugar onde era vista como uma pobre coitada, com um filho ao lado e com mais nada na mão. Onde ficara a identidade que construí? Quem olharia para mim e me veria como uma mulher, igual a tantas outras? E para o meu filho? Como teria de eu, mãe, desdobrar-me para conseguir fazer tudo o que sempre sonhei, para o bem estar do meu filho? O sonho morria? Renascia? Renovar-se-ía? Como se explica, aos nossos filhos, que temos de fugir do nosso país porque há guerra? Como se explica, aos nossos filhos, os maus tratos que somos sujeitos só por termos fugido?  Como se explica, aos nossos filhos, que não temos culpa de nada mas que mesmo assim há pessoas que se vão colocar à nossa frente com bastões e armas? Como se explica, aos nossos filhos, que vai passar fome, que vai ouvir grito e tiros apenas porque está a fugir de um país em guerra? O que se explica sobre Amor aos nossos filhos? Provavelmente nada. Provavelmente não há palavras nestes momentos. Provavelmente os nossos filhos perceberiam o Amor pela coragem da fuga, pelo colo na fuga, pela força dos braços dos pais, pelas lágrimas e sorrisos que ainda possam existir na fuga, pela brincadeira com as pedras encontradas no caminho...

Nascemos num só mundo e sempre me fizeram confusão todas as fronteiras que barram a humanidade. Não somos mais, nem menos que ninguém, somos gente. Igual na espinha. Diferente na escama. E essa diferença não nos dá nenhum direito superior, pelo contrário, deveria dar-nos a igualdade.

Explicarias ao teu filho que o mais importante é o Amor. 

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Regressar de férias é-me tão mau quanto o tempo da sua espera...



Regressar de férias é-me tão mau quanto o tempo da sua espera...

Antes de sair ando cansada, exausta, com dores de corpo, a contar dias e horas para partir. Quero abandonar tudo o que não é verdadeiramente meu. Saio e depois ali fico, durante dias a fazer unicamente e verdadeiramente o que é meu. A cuidar dos meus quereres, das minhas necessidades, das minhas relações pessoais. Ali fico para o que me é Amor. E este é o tempo onde reuno o melhor da minha vida, não ter obrigação em relação ao que não me é nada, ou que pouco me é. Ali fico com Tempo, 80% para mim e 20% para logística. E sou feliz, muito feliz nessa minha gestão. Haja muito ou pouco dinheiro certo é que nada consegue pagar-me a "não obrigação exterior".

Obrigo-me unicamente a inventar locais de férias para estar e a logística que isso requer. O resto é Tempo útil para mim e para as minhas relações.

E isto faz-me sempre pensar que devo andar trocada nas voltas da vida. Vinte e dois úteis assim, contrariamente às restantes centenas de dias em que tenho "obrigação+obrigação+obrigação" com coisas que me são totalmente externas, ou que verdadeiramente não me enriquecem. Faz-me pensar que ando trocada. E que quero repensar nos dias úteis e nos inúteis. 

Regressar de férias é-me difícil. Deixo de conseguir ver tanta gente ao mesmo tempo porque passei vários dias, com muitos metros quadrados à minha volta completamente vazios de olhares, julgamentos ou críticas. Deixo de conseguir fazer sala porque passei vários dias sem paredes, portas ou janelas com as pessoas que amo. Deixo de conseguir pensar em tanta regra de trânsito porque passei vários dias em estradas a direito, sem trânsito ou pressa. E demoro algum tempo a habituar-me a voltar à rotina obrigatória e a sentar-me no meu lugar. 

Voltar de férias é bom pela festa da saudade. É também o "regresso às aulas" e a febre dos manuais, o equinócio de outono e a mudança de horário... e eu abomino-os! E resisto-lhes. E não me apetece escrever acerca do regresso por isso mesmo. Porque não me apetece regressar. Apetece-me ficar lá e não dar a volta a essa vida. 

(fica o registo das paisagens Sabura por onde tive tempo útil este ano...)















    

quarta-feira, 29 de julho de 2015

... quando a morte bater na porta ao lado da vossa


... e quando ela bater na porta ao lado da vossa
nao digam a quem ficou
que é preciso ter força 
nao digam para ter coragem
nao digam que foi o melhor
nao digam que a vida continua
nao digam que chegou a hora de apoiar quem fica
nao digam nada
ou digam, mas sem abrir a boca,
abram antes os braços
abram um sorriso
abram o ceu negro
e sejam luz e calor,
nao digam pêsames
digam que estão triste pela perda
nao digam os meus sentimentos,
digam que estão ali por amor
ou nao digam nada, 
porque quem fica deixa de ter coragem
deixa de ter força
deixa de querer vencer
deixa de acreditar
deixa de estar
deixa de perceber
deixa de existir no todo que foi até então
e tem direito a não comer naquele dia
a não falar
a não atender
a não esperar
a não sorrir
a não estar
a não aceitar
a não querer,
porque quem fica, fica sem parte
e parte para lugar nenhum,
fica com vazio
e esvazia-se de tudo,
quando a morte bater na porta ao lado da vossa
encham-se somente de força para um abraço
de coragem para um silêncio pacificador
e de amor para continuar a estar...
  

domingo, 26 de julho de 2015

(de/para quem conhece a sensação de estar longe dos nossos filhos e do seu regresso...)


Chegar basta. Um chegar que faz com a vida comece a surfar na onda. Tudo o que existe de exterior a mim, e que seja negativo, desaparece. E fico com ele, num espaço e num tempo, que mais ninguém conhece. Num espaço ausente e num tempo parado.

Chegar basta. Um chegar que às vezes vem meio apressado e despenteado mas que, quando acontece, tem a força de parar o tempo e de pentear pacientemente o final do dia. E fico com ele, chamado-o aos meus olhos, e fazendo-os parar um segundo infinito.

Chegar basta. Um chegar às vezes mais cansado e refilão do que o habitual. E fico com ele, a acolher as queixas ao mundo, as injustiças da vida, a má sorte que tem, e elas vão-se dissipando no meu colo.

Chegar basta. Um chegar marcado há um dia que é recebido com normalidade. E fico com ele, com essa normalidade, que é um lugar de paz.

Chegar basta. Um chegar de há uma semana que é recebido com todas as forças físicas que temos. E ali ficamos nós em abraço apertado, em inalações profundas às bochechas e aos cabelos, em sorrisos, em encosto de cabeça no ombro, em olhar nos olhos no fim deste chegar e no início da nossa partida. 


(de/para quem conhece a sensação de estar longe dos nossos filhos e do seu regresso...)


(o chegar de hoje, foi recebido com tanta força física que conseguimos magoar-nos três vezes)


  

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Congresso MEM, Lisboa 2015... eram só Mariazinhas!



No tempo "Crático" que temos vindo a atravessar onde as escolas, os professores e as famílias são colocadas na bitola da economia e não da educação, há um conjunto de pessoas Educadoras que se mantém firme e que continua a acreditar. 

Refiro-me à Associação do Movimento da Escola Moderna "uma associação que se assume como um movimento de cidadania democrática de professores, os quais decidiram fazer da sua profissão uma actividade de intervenção nas escolas" (Sérgio Niza). E é bem verdade. O MEM português este ano faz 50 anos e, por estes dias, realiza no Instituto de Educação o seu 37º Congresso. 

Ontem fui assistir ao teatro/momento lúdico preparado pelos responsáveis das regionais. E lá estava a Madeira, os Açores, Vila Real, Algarve, Évora, Setúbal, Lisboa, Porto, Tomar, Seixal/Almada... umas dezenas de pessoas que, após um ano duro de trabalho, ainda tem a coragem e a força de, não só preparar um congresso desta envergadura, como também de montar exposições, fazer comunicações e preparar com os colegas da sua regional um momento puramente lúdico para apresentar aos seus pares. 

Costumo dizer que, ser professor é uma tarefa difícil, mas ser professor do MEM é sobrepor o triplo a essa dificuldade. Uma dificuldade que, a meu ver, se centra no facto de termos vinte e muitos alunos, e onde todos são considerados mediadores de aprendizagens. Ser professor de manual é fácil, basta saber ler. Ser professor admitindo que temos à nossa frente vinte e muitos seres que são igualmente formadores é complexo. O exercício da atenção plena é uma das ferramentas mais utilizadas no processo educativo por parte de alguém que se identifica com este Movimento. 

Não são raras as vezes que oiço ataques completamente infundados ao MEM. "os miúdos é que mandam na sala de aula..."; "os miúdos trabalham no chão..."; "aquilo é uma anarquia...". E eu pergunto sempre se estão a falar do Movimento da Escola Moderna ou de algum outro movimento copy paste. Quem o diz, das duas uma, ou não viu um professor a trabalhar com o MEM, ou não sabe ainda o que é o MEM. 

Quem se assume como professor do MEM assume o compromisso de diariamente ter uma amante consigo. Aliás, ainda ontem se disse que, o que os homens não querem é ter uma esposa professora do MEM. O exercício constante de formação, de participação em encontros (semanais ou quinzenais), de congresso, de registos escritos, de constante avaliação fazem com que, diariamente, se leve trabalho para casa e que se devolvam respostas no dia seguinte. 

É fácil identificar um professor do MEM a esta altura do ano: anda algo arrastado, mas  com um ar feliz e de alma cheia, por ter estado um ano inteiro a trabalhar (contra a maré Crática) em prol da construção conjunta de saberes, entre alunos e professores. O MEM é uma comunidade de aprendizagem que vai fazendo caminho. Vai juntando gente com duvidas, anseios, e sobretudo com muita vontade de cuidar dos cidadãos que tem à sua frente. 

Ontem emocionei-me ao ver aquele colectivo de gente que continua a acreditar como se fosse a primeira vez.

(hoje (22julho a 4 agosto 2015) sai no JL/educação quatro testemunhos, de professores, de como tem sido a experiência dentro do MEM e uma grande entrevista ao Sérgio Niza. Vale a pena ler.)




Ontem vi muitas Mariazinhas (daquelas que o Fanha escreveu no seu "Diário inventado de um menino já crescido") na plateia. Para saberem quem elas são aqui fica o registo: 



  

Parabéns ao MEM pelo 50º aniversário!   



   

domingo, 19 de julho de 2015

Expo 2015 - Lisbon South Bay


É sempre difícil o exercício de olhar para dentro e de perceber, nas entranhas, o que por lá se passa. 

Sentir a emoção, identificar, olhar, perceber e não julgar. Ter tempo para o fazer é uma tarefa sempre difícil. 

É mais fácil sentir e colocar na prateleira à espera de mais tempo, ou ignorar. E os dias passam a correr e nas prateleiras vão-se amontoando pequenos bibelôs (ou ficam para sempre vazias quando nem sequer conseguimos sentir o que quer que seja)... o bibelô dos "fornicoques" que nos causa a reacção daquele colega; o bibelô da ansiedade provocada pela não-resposta; o bibelô do medo provocado pela rejeição; o bibelô da neura-cerebral provocado pela falta de educação dos outros e por aí adiante. Entretanto já enchemos umas quantas prateleiras que ficarão a ganhar pó e, por onde, de vez em quando, passaremos os olhos, suspiremos e pensemos "um dia volto aqui com tempo e limpo tudo isto, agora tenho pressa".

E ali ficam elas a carregar com o pó dos dias. Às vezes é uma ventania que os derruba, outras vezes ficam tão colados à prateleira que desistimos deles. 

Ser consciente deles e dar-lhes atenção é o que quero. Nunca gostei de bibelôs e nunca os tive na minha casa exterior. Vou-me apercebendo agora que, afinal sempre os tive na casa interior, mas, como me disseram hoje "a minha tranquilidade balsâmica" permite que eu os aceite naquelas prateleiras e consiga conviver com alguns deles.

Não são eles que me constroem alguma "tranquilidade balsâmica", mas sim as inúmeras exposições de bibelôs que já visitei na vida. Foram elas que me ensinaram a aceitar a exposição de emoções que agora está patente em mim, e fechada para o público em geral.

Quero fechar esta exposição, renovar o espaço e acolher outros bibelôs, de preferência mais pequenos...   



  

sábado, 18 de julho de 2015

Tempo passado, presente, futuro



... e há dias em que se sente o peso do mundo entre o topo da cabeça e a cintura escapular. dias em que não se consegue endireitar as espinhas, aproximar as omoplatas, ou abrir a caixa torácica. daqueles dias em que se soma tudo o que é menos bom, a conta bancária, o local de trabalho, a casa, as distâncias, os projectos, o futuro, o presente e, o melhor somatório é conseguido quando se acrescentam algumas parcelas do passado.

dias em que, olhar para alguns momentos do passado, permite descansar do presente e abolir o futuro.

não sendo do género saudosista gosto de desenrolar a memória nas imagens do passado, quase como voltar aos álbuns em formato de papel, mas de momento que nunca foram fotografados. não se trata de uma "viagem na maionese", essa faz-se sempre no caminho para um futuro, mas sim, uma viagem com origem no agora e destino no antes. 

um antes que mesmo agora permanece desconhecido. Olhar o passado a partir do presente é ser espectador em plateia VIP, onde temos o melhor ângulo de visão e podemos tratar por tu o actor principal. E tratar por tu é poder ter confiança com ele para lhe dizer como sentimos o seu espectáculo, com tudo o que teve de bom e de mau, e, se formos especialista na matéria, podermos ajudar a melhorá-lo. 

é isso que se faz quando, nestes dias, se olha para o passado. Olhamo-o, revemo-lo a partir do meu olhar ângulo, e com a distância do presente, ajudamo-lo a tornar-se mais conhecido e mais consciente. dias em que olhar para alguns momentos do passado, permite descansar do presente e abolir o futuro. 


   (na mouche estes 10 minutos de viagem "Vladimir Martynov Come In")

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Há uma geração de gente que não foi amada, foi criada

Há uma geração de gente mal amada e mal amanhada. 

Há uma geração de gente mal cozida no colo dos seus pais, e mal cosida com as linhas que unem e tecem o amor. 

Há uma geração de gente que não foi amada, foi criada. Há uma geração que não sabe amar, sabe criar. 

Há uma geração de gente que sofreu muito por conseguir e que faz sofrer para conseguirem.

Há uma geração de gente que não recebeu colo, e por isso não o sabe dar.

Há uma geração de gente que não ouviu, e por isso não sabe dizer.

Há uma geração de gente que não falou, e por isso não sabe falar.

Há uma geração de gente que tem sede de poder, e por isso só bebe dessas fontes.

Há uma geração de gente que não gosta de si mesma, e por isso não consegue gostar de mais ninguém.

Há uma geração de gente que sempre precisou de alguém, e por isso pensa que todos precisam dela.

Há uma geração de gente que nunca olhou para si mesma, e por isso é incapaz de olhar para os outros.

Há uma geração de gente que foi tão mal amada, que nunca chegou a viver na vida. Apenas sobreviveu. 

Há uma geração que não foi amada, foi criada e sobreviveu. Sobreviveu à fome, à emigração, à falta de habilitações, à falta de cuidados de saúde, à revolução, à explosão do mercado e às crises financeiras. Sobreviveu à partida para a guerra, sobreviveu à incerteza do regresso. Sobreviveu ao abandono da terra, e à incerteza da cidade.

Há uma geração de gente que sempre sobreviveu e que espera que os mais novos sobrevivam também, porque para eles, viver é um luxo que não está ao alcance de todos. 

Há outra geração de gente que anda à procura deste colo que não existiu, das palavras que não ouviu, dos abraços que não recebeu. Há uma geração de gente que é valente e encontra, perdido no meio do tempo da sua vida, como é amar-se, amar e ser amado...







sexta-feira, 10 de julho de 2015

Há gente que diz que não devemos voltar ao sítio onde fomos felizes. Não concordo.

Do inesperado da vida

Diz-se que não devemos voltar ao sítio onde fomos felizes. Não concordo.

Não concordo, desde que consigamos levar uma bagagem diferente daquela que anteriormente levámos. Não adianta voltar ao mesmo sítio, seja ele qual for, tenha ele o tamanho que tiver, esteja ele onde estiver, carregando as memórias passadas e as expectativas futuras porque ele já não existe. Tudo estará diferente. O mundo já girou mais umas voltas, o sol e a lua já se beijaram umas quantas vezes mais.
Adianta voltar ao lugar onde fomos felizes, se pensarmos que será um novo lugar. 

Já me desiludi (somente porque me iludi) algumas vezes, quando tinha menos Outonos no corpo, querendo voltar ao mesmo lugar. Hoje, não. Sei que não é possível voltar ao mesmo lugar, onde já fui feliz. Eu estarei diferente, ele também. Por isso, volto ao sítio onde já fui feliz.  




sexta-feira, 3 de julho de 2015

Há dias ao contrário



Há dias ao contrário

quando acordas de manhã, levas o teu filho ao teu surf, apetece-te por tudo ficar mas não podes... devia ser ao contrário

quando visitas uma amiga, na cama de um hospital e vês o que não queres... devia ser ao contrário

quando percebes, finalmente, a razão pela qual a carta nunca chegou, porque alguém trocou o lugar do destinatário pelo do remetente... devia ser ao contrário

quando recebes uma carta, escrita com tinta de esferográfica e muito amor, e o envelope foi escrito de pernas para o ar... devia ser ao contrário

quando fazes contas caseiras orçamentais e, em vez de sobrar, falta...  devia ser ao contrário

quando uma ceramista te dedica um poema, e tu nunca conseguirás dedicar-lhe uma peça em cerâmica... devia ser ao contrário 

... 

finalmente, e contrariamente ao que estava previsto,

quando o fim de semana é alterado, fica ao contrário, e tu passas a poder entregar-te a dois braços... o contrário deu certo e o dia acaba no sítio onde começou... alinhado em amor.


quarta-feira, 10 de junho de 2015

A Moral da História ... "Era Uma vez um dia normal de Escola"


A expressão "moral da história" sempre me fez comichão nos intestinos...

é daquelas expressões que, ao que me consta na memória da pele, deve ter sido bastante pronunciada perto de mim. Sinto que a mesma me tenha sido dita, por diversas vezes, por gente adulta e com um ar severo. 

Cresci a frequentar a religião católica, faltando-me apenas dois sacramentos no passaporte cristão. Cresci com assiduidade na disciplina de "religião e moral" e, nela, com excelentes professores. Cresci a ouvir um dos melhores mensageiros da igreja, o Padre Janela, que me marcou um dia ao dizer, perante a sua audiência dominical, que não voltaria a desfazer a sua barba enquanto não conseguisse o seu objectivo... cresci eu com ele, e as suas barbas nele. Era um homem de palavra e de acção. Cresci no movimento escutista. Cresci sem grandes desvios na vida. Mas tenho cá para mim que, dentro deste conjunto, o meu crescimento tenha sido marcado pela carga negativa dada à palavra "moral".


Não sendo eu o Padre Janela, sou um bocadinho mensageira das histórias que me vão chegando e ficando. Parte do meu lado profissional contempla a narração de histórias. E se há coisa que me tira do sério é quando alguém, ao final do conto, me pergunta: "e qual é a moral da história?!" Irrita-me as vilosidades intestinais e, por norma, atiro a pergunta para outra pessoa até respirar fundo e devolver a resposta em pergunta "que parte da história se colou ao vosso pensamento?!" E é esta resposta que quero ouvir.

Hoje, ajudando o meu Guerreiro na realização de um trabalho da escola, veio a pergunta "Moral da história?" E, como seria de esperar, senti ainda mais a irritação nas vilosidades. 

- O que é a moral? perguntou
- Que mensagem da história te ficou no pensamento? perguntei

Com a palavra a matutar na cabeça decidi "Wikipedar" a palavra Moral e  


"A palavra Moral deriva do latim mores, "relativo aos costumes". Seria importante referir, ainda, quanto à etimologia da palavra "moral", que esta se originou a partir do intento dos romanos traduzirem a palavra grega êthica.
E assim, a palavra moral não traduz por completo, a palavra grega originária. É que êthica possuía, para os gregos, dois sentidos complementares: o primeiro derivava de êthos e significava, numa palavra, a interioridade do ato humano, ou seja, aquilo que gera uma ação genuinamente humana e que brota a partir de dentro do sujeito moral, ou seja, êthos remete-nos para o âmago do agir, para a intenção. Por outro lado, êthica significava também éthos, remetendo-nos para a questão dos hábitos, costumes, usos e regras, o que se materializa na assimilação social dos valores.1
A tradução latina do termo êthica para mores "esqueceu" o sentido de êthos (a dimensão pessoal do ato humano), privilegiando o sentido comunitário da atitude valorativa. Dessa tradução incompleta resulta a confusão que muitos, hoje, fazem entre os termos ética e moral."


Remetendo para a sua origem e acolhendo as palavras "costume, intenção, hábito, regra" compreende-se o porquê de tanta Moral. Transmissão de regras e valores. Até aqui tudo bem. Mas a necessidade constante da exposição da Moral da história assassina o que de bonito ela tem. O invisível, aquilo que cada um precisa de retirar dela, naquele momento em que escuta. Cada escuta permite uma tatuagem na memória da nossa pele, e se não há uma pele igual à outra, como queremos que as tatuagens sejam iguais?

A Moral, a intenção, a interioridade daquela história está lá, e no caso das histórias, é muito mais rico quando a deixamos coberta com fios de seda. Fios esses que, no tempo certo, serão puxados até à pele e onde, cada um à sua maneira, desenhará uma tatuagem na sua memória. 

Moral desta história para mim: cada vez tenho mais a certeza que não quero desventrar a intenção de uma história. Que nos faz falta oferecer histórias. Que nos falta ouvir histórias sem que nos peçam alguma coisa em troca. Que não consigo gostar/ouvir/ler as Fábulas de La Fontaine.

A mensagem que ficou para o meu Guerreiro, hoje, no dia em que pensou na "moral da história", faz sentido para ele. E no dia de hoje, em que eu já senti saudades de alguns dos meus alunos, o que eu agarrei daquela história foi tão diferente do que ele agarrou e do que eu própria já agarrei dela... 

Ele: "A vida pode mudar a qualquer momento" 

Eu: "Somos todos Seres Extra-Ordinários"

A história: "Era uma vez um dia normal de escola" (AQUI)



terça-feira, 9 de junho de 2015

Os mês meninos d'oiro, ou, do dia do Planeta do Amor



Depois de um ano lectivo, a começar de forma muito dorida e a manter-se com muitas pedras no caminho... o final quase à vista.

Para quem é professor o ano passa a ser o lectivo, e não o civil. Regemo-nos de Setembro a Junho com os nossos alunos. O Julho serve para avaliar, reflectir, repensar, reorganizar... tudo no final das forças.

Hoje, com muito orgulho, uma das minhas turmas apresentou o trabalho de final de ano. A meio do segundo período começámos a construir uma história, e foi essa mesma que apresentámos hoje. Não tenho jeito para encenação ou figurinos, nem tenho jeito para "crianças-marioneta" em palco. As minhas produções são sempre a apresentação de uma história. A deste ano foi especial. Uma turma com 2º e 3º ano, alguns repetentes, e muitos que foram desistindo a meio. 

Hoje eram somente oito no palco. Mas com todo o trabalho feito. Elas, zangadas porque não estavam pintadas, arranjadas, trajadas... eles, (dois) nervosos. A história chama-se "O Planeta do Amor". Começámos com brainstorming, passámos por vários rascunhos, imposições, cedências, mapas, nomes, poderes, mas uma coisa era certa: o título. E é tão bom ver um título destes numa escola de contexto TEIP. E não, não estou a ser poética. Estou a ser tão verdadeira como a carne é para osso. 

Basicamente, Zérbio Verpito* é o herói da nossa história e busca uma fórmula para encontrar a paz no mundo. E encontrou. Passou pelos vários países onde se encontrava a sua família** e a todos perguntava a solução. E todos*** sabiam exactamente o que fazer:

" ... - Sim, eu ajudo na paz! – disse a mãe C.
- Eu também ajudo na paz! – disse a prima D.. E por fim o amigo D. disse:
- Eu ajudo no amor!
Zérbio ficou feliz e disse que assim iam ajudar de certeza. Para isso tinham de ter o poder mágico da amizade. Esse poder estava guardado numa pedra do vulcão da ilha do Fogo. Se cada um tivesse um pedaço desta pedra em casa, todos os habitantes das ilhas ficariam amigos e acabar-se-ia a guerra. Os três habitantes das ilhas começaram a distribuir as pedras vulcânicas por todos os cabo verdianos."

Zérbio a seguir voou até Angola onde encontrou a sua tia I.. Pediu-lhe um conselho para acabar com a guerra e esta disse-lhe:
- Sobrinho, dou-te um conselho. Também já tive guerra onde eu morava e pela minha parte eu dei esse conselho: o Presidente vai mandar uma carta para todas as casas, para toda a gente se reunir num local sagrado. No Embondeiro que está no quintal do senhor Santos, no Zango 4. Depois lá, vão beber uma poção mágica feita do fruto do Embondeiro, que a todos vai dar o Amor e a Paz."

"Zérbio ficou feliz e voou até à Guiné, terra das grandes florestas. Lá encontrou a sua irmã, V..
- V., preciso da tua ajuda para encontrar a paz no Mundo, podes ajudar-me? disse Zérbio. A Vininha respondeu-lhe:
- Sim, eu tenho uma solução. Se eu ensinar os outros a trabalhar, toda a gente vai ter comida e dinheiro, e assim viver em paz."

" Zérbio continuou a viajar. O nosso herói foi ter com o seu pai C. e explicou o que se estava a passar. O pai acalmou-o e disse ter a solução para o seu problema.
- Filho, eu acho que o ideal é nós sermos amigos dos angolanos e dos chineses porque eles agora estão cheios de dinheiro e esquecem-se que o importante na vida é o amor! - disse o pai de Zérbio."

"De seguida, ele foi ter com a sua amiga K.. Ela era professora em Inglaterra e disse a Zérbio:
- Eu sou professora e a melhor maneira de fazer a paz no mundo é ensinar os meus alunos a serem bons. Depois eles ensinam a família e os amigos a serem bons também. E assim todo o país fica em paz.”

"Zérbo ficou contente com as decisões e voou até junto da sua avó C. que estava no Brasil. Quando lá chegou estava toda a família daquele país, reunida num jardim, em Guarulhos. Todos deram a sua ideia:
- Vamos lançar uma música de capoeira para todo o mundo e esperar que esta guerra acabe, estando toda a gente a dançar!"

"Zérbio chamou para junto de si, em Portugal, toda a família. Só faltava falar com a sua tia S.. Esta disse-lhe:
- Para haver paz no mundo Zérbio, é preciso que todos sejam amigos, e que os que fizeram maldades peçam desculpa aos outros.”

"Todos juntos foram até Aveiro ter com os seus amigos N. M. e V.**** . Só com todos eles juntos é que o poder da amizade funcionava. Fizeram uma roda à volta da casa do Noé, deram as mãos e gritaram bem alto:
 “PLANETA DO AMOR, ACABA COM A NOSSA DOR!”
Vitória, vitória acabou a guerra da nossa história!"

E entrou a música e a dança de capoeira ... e eles que se "coreografaram" sozinhos, sem qualquer ajuda minha 

   
O mais curioso foi que a história foi terminada no dia em que os nossos corações deram uma volta de 180º na escola. O mais curioso foi ver o empenho de alguns alunos mais negligentes. Um empenho impressionante. E não, nem sempre, mesmo fazendo o que é do seu interesse, eles se empenham. 

Estou para perceber a que se deveu, será que foi a mensagem? A construção de tudo? À idade em que estão? À nossa relação (eram poucos e por isso quase tratados como tratamos a família, numa espécie de aposta visceral)? Só sei que não foi graças à mega produção cénica, nem de figurinos ou som. 

Sim, muito orgulho, em acabar o final do ano assim... a guardar as pedras na margem do rio para com elas construir o castelo (F.Pessoa). Hoje o nosso planeta ficou certamente mais quente e aconchegado.


* nome inventado com a selecção, ao acaso, de peças do Scrable
** países de origem dos alunos ou família (Cabo Verde, Guiné, Angola, Inglaterra, Portugal, Brasil)
*** alunos e posteriormente personagens
**** alunos que abandonaram a turma durante o ano lectivo