quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Ou sim, ou sopas...

Há muitos anos atrás a minha catequista, a grande Maria João Sabbo, contou-me um episódio que ainda hoje me visita. Dizia ela que, um dia, na faculdade, depois de uma discussão acesa com um professor, este lhe disse: "Mª João ou é sim, ou é sopas", ela levantou-se e disse: "Sopas, senhor Professor" e saiu porta fora. Uma criança ouvir a sua  meritíssima catequista, contar uma história de rebeldia perante um professor foi O fascínio. Não me lembro dos seus ensinamentos e conselhos cristãos, apenas me lembro deste episódio em que ela não deu a outra face.
Estes dias tenho andado em reuniões constantes com o Tico e o Teco, a fim de decidir se "sim" ou se "sopas"... e não é fácil. Tudo tem o seu tempo de amadurecimento e até chegar à colheita vão alguns dias e algumas noites. Chegar à decisão é arriscar, é escolha, é dor, é cansaço, são prós e contras equacionados. Por vezes chegam-nos pequenos telegramas que nos ajudam na decisão, ou na tomada de consciência da decisão. Depois de escolher o caminho é muito mais fácil... Entramos nele e só temos de seguir em frente, o entroncamento ficou para trás e a meta em frente. Vivo com algumas dores de estômago a parte da decisão, chego até ao ponto extremo da angustia e da indecisão (aqui os aplausos vão para o meu lado Balança). Depois da decisão tomada não olho para trás, não fico no saudosismo, vou começando a caminhar, vou subindo o peito e endireitando as costas. E que bom que é passar a primeira barreira e caminhar para a meta. Eu, por estes dias, disse "sim", estava farta de "sopas". Decidi e agora tomo conta do caminho. Ainda me sinto de ressaca mas, qualquer dia a vida fica sem olheiras e volta a ser fresca e luminosa. As minhas dificuldades de decisões e medos são culpa do meu lado Balança, assim me convenço. Depois inspiro, salto para a onda mais bonita (que é o meu lado Peixe) e por ali vou sendo feliz.
Hoje, depois de sentir o estômago ser torcido num longo programa de centrifugação, recebi uma chuva de telegramas, que me encheram a caixa de correio por algum tempo... hoje o Z., que andava a olhar-me de lado há já algum tempo, quando me viu, abraçou-se às minhas pernas e disse-me que eu estava bonita... hoje a C., que tinha sido retirada à família, voltou e disse que estava com saudades minhas... hoje a B., abraçou-se a mim e ali ficou encostada, com a sua cabeça na minha barriga a sentir-se no meu colo... hoje o D., voltou a dizer-me que o seu desejo era ser irmão gémeo do meu filho... 
Elas sabem, elas são os tais pontos de luz que nos fazem descer à terra para os recebermos, e depois subirmos com eles aos céus. Não é só ter o olhar de uma criança, é preciso ter espaço na alma para confiar no seu olhar, para confiar que podemos seguir tranquilamente no caminho que ela olha. 


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Música Sabura: Dani Santoz Feat. Mirri Lobo - Triste è Sabe

Música Sabura a poucos dias da Gala "Cabo Verde Music Awards 2013"... Vai ser linda a festa! 

Ocupar em vez de Pré-ocupar

A propósito do meu momento Sabura de ontem, onde se partilhavam experiências, vontades e se falava das mudanças que a Escola tinha sofrido... 

A Maria do Céu era uma mulher possante. Dava-nos aulas, das 9h às 15.30h, na sala 3 da escola nº 25 de Lisboa. Éramos mais de vinte. Uma das minhas maiores recordações do período da escola primária (actual 1º ciclo) era o espírito de grupo que existia e que a Maria do Céu conseguia incutir. Lembro-me de memórias de afectos e não de métodos. O "Página a página" era o nosso manual de língua portuguesa e lá estava (tal como hoje) a ordem pela qual devíamos aprender as letras. A ordem pela qual devíamos começar a perceber o mundo. Nunca fomos senhores de escolher ou descobrir a nossa ordem ou nossos interesses, mas a Mª do Céu fez tudo de forma tão amorosa que o prazer presente naquela sala enchia balões de ar quente. Lembro-me também de sermos um orgulho para ela, excepto o Bruno que levava reguadas todo o santo dia (nós achavamos normal porque ele era sem dúvida muito mal comportado e desobediente...). Todos líamos muito bem, contávamos na sequência certa, pintávamos como artistas e no recreio éramos a organização em bloco - os meninos saíam a correr para apanhar o lugar no baloiço que depois, gentilmente, cediam às meninas... eles a seguir levavam tareia e nós fazíamos as devidas queixas aos auxiliares... tudo funcionava bem e em equilíbrio! E tenho a certeza de que assim acontecia porque a Maria do Céu era uma mulher que nos amava e que tinha descoberto em nós uma fonte de inspiração. Devia/deve ser uma mulher encantada com alma de poeta. Encerou-nos o caminho com amor e isso foi a melhor forma de irmos andando nos corredores do aprender escolástico. Depois de cada escorregadela sabíamos que a Maria do Céu estava ali para nos levantar e levar a nossa mão ao corrimão. Ela ensinou-me a ler com o "pa, pe, pi, po, pu" mas com muito amor. Ou seja, sem muita descoberta, sentido crítico mas a olhar-nos com muito respeito e carinho. Não sou apologista do "pa, pe, pi, po, pu" existem tantas outras coisas a fazer com a leitura e a escrita, e que nos lançarão para o prazer, para a descoberta, para um olhar crítico, para a construção de sentidos... mas sei que o fundamental, é o respeito e o amor que temos uns pelos outros. Como dizia o Sebastião da Gama:

“Não sou, junto de vós, mais que um camarada um bocadinho mais velho. Sei coisas que vocês não sabem, do mesmo modo que vocês sabem coisas que eu não sei ou já esqueci. Estou aqui para ensinar umas e aprender outras. Ensinar, não. Falar delas. Aqui e no pátio e na rua e no vapor e no combóio e no jardim e onde quer que nos encontremos."


   
e ainda acrescentava este professor "O que eu quero é que vivam felizes" . O seu "Diário" é uma bíblia para todos os educadores, que deve ser lida várias vezes à vida! Uma espécie de Siddhartha ou de Principezinho! Um Sebastião ou uma Mª do Céu que nos leve a ocupar o nosso tempo com muito amor. 

Pré-ocupamo-nos com tanta coisa que deixamos de nos Ocupar... “Pré-ocupamo-nos” demasiado com os resultados esperados, e deixamos de nos “Ocupar” com a construção do caminho ao longo da vida. “Pré-ocupamo-nos” com a regra e deixamos de nos “Ocupar” com a excepção. “Pré-ocupamo-nos” com um decreto, e deixamos de nos “Ocupar” com as pessoas que estão à nossa frente, e para quem somos um farol. “Pré-ocupamo-nos” com o quanto, e deixamos de nos “Ocupar” com o como. “Pré-ocupamo-nos” com o Todo, e deixamos de nos “Ocupar” com o pormenor. “Pré-ocupamo-nos” com o material, e deixamos de nos “Ocupar” com o Ser. E de tal forma nos esquecemos de Ser, que hoje em dia é urgente Humanizar a escola, dar-lhe vida, dar-lhe o verdadeiro sentido de Ser.

Venham mais momentos sabura e em nostalgia, S.


Histórias sem fim...



Marina Abramovic e Ulay (Moma 2010)

História deste encontro entre Marina Abramovic e Ulay, vinte e três anos depois de se terem separado... "Nos anos 70, Marina Abramovic viveu uma intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão, realizando todo tipo de art performances. Quando sentiram que a relação já não valia aos dois, decidiram percorrer a Grande Muralha da China; cada um começou a caminhar de um lado, para se encontrarem no meio, dar um último grande abraço, e nunca mais se verem. Vinte e três anos depois, em 2010, quando Marina já era uma artista consagrada, o MoMa de Nova Iorque dedicou uma retrospectiva à sua obra. Nessa retrospectiva, Marina compartilhava um minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ulay chegou sem que ela soubesse... 




Os olhos são o nosso espelho. O olhar é nosso ponto de partida e de chegada... Há histórias que não têm fim. Em boa verdade “foram felizes para sempre” é isso mesmo.