quinta-feira, 28 de maio de 2015

Agradeço a estes senhores governantes...

Pensando bem no que se anda a passar nesta praia lusitana acabo por perceber que afinal tudo está certo! E agradeço a estes Senhores governantes...

Senhores governantes, o meu carro já deixou de ter, frequentemente, o depósito atestado. Agora atestamos na viagem das férias de verão, e de resto abastecemos à semana vinte e cinco euros. Agradeço-vos a consciência da pegada ecológica que nos obrigaram a ter.

Senhores governantes, cá em casa, as viagens de férias de verão deixaram de "viagens" para passarem a ser "viagem". Agradeço-vos a capacidade de foco que nos obrigam a ter.

Senhores governantes, a arca frigorifica cá de casa agora passou a ser tratada como o depósito do carro, há muito que não é atestada. Agradeço-vos nunca mais ter tido  comida fora de prazo, no frigorifico.  

Senhores governantes, as lâmpadas lá de casa foram todas mudadas para as mais económicas, não por questões ambientais do mundo, mas por questões de um possível arejamento à carteira. No entanto, ao final do mês, a carteira continua tóxica em vez de arejada e saudável. Agradeço-vos os serões à luz de velas.

Senhores governantes, as saídas ao fim de semana, cá em casa, também deixaram de acontecer com a finalidade de conhecer o mundo-lá-de-fora. Agora, para pouparmos o depósito, ficamos a conhecer o mundo-cá-de-dentro. Agradeço-vos o não circular por estradas evitando assim a exposição a acidentes.

Senhores governantes, os meus dentes nunca vos conheceram, ou seja, nunca eu consegui abrir a boca a um dentista do estado. Agora, em vez disso, fico de boca fechada à espera que os meus bolsos se enchem para conseguir abrir a boca a um privado. Agradeço-vos a oportunidade de não sorrir, evitando assim as rugas de expressões. 

Senhores governantes, o pão cá de casa bem tenta não ter farinha trigo, mas aqueles mais escurinho e saudáveis estão sempre numa prateleira mais cara. Agradeço-vos a redução de consumo de pão.

Senhores governantes, os iogurtes qualquer que sejam eles não fazem falta nenhuma, pois não? Grata por esta dica.

Senhores governantes, do meu shampoo também já não há rasto cá em casa. Agora compramos daqueles bem baratinhos no supermercado com cheiro a frutas, que em tudo me lembram a querida Fabiana, artista da casa Viking (Lisboa, Cais do Sodré). O creme de rosto e de corpo juntaram-se num só. Agradeço-vos ter passado a uma pele de "todos os tipos".

Senhores governantes, fico-vos grata por darem tanto destaque à moda dos anos 70 e 80, agora já nem precisamos compra roupa a cada nova estação (pena ter perdido a roupa da minha infância, se não já o meu filho andava sempre na moda). 

Por fim senhores governantes, agradeço-vos também o cuidado que colocam na vida do meu filho. Avaliando-o, hoje, nos seus sete anos, o seu longo percurso escolar. Fico tão mais descansada por saber que sois vós, senhores sérios e de um rigor e transparência inigualável, que querem avaliar o meu filho. Vocês que o conhecem, no seu dia a dia, na sua vida. Fico tão mais descansada por saber que aquele currículo que os senhores, nos vossos gabinetes construíram, cheio de referência holísticas da criança, foi pensado numa escola para Todos. Todos os que recebem um bom pequeno almoço e os que não o conhecem.  Todos os que assistem a porrada na televisão, e os que diariamente a sentem na pele. Todos os que usam, diariamente, shampoo da farmácia, de fruta, de sabão azul e branco e os que o sentem de semana a semana no couro. Todos os que têm uma chave para abrir a porta de casa e os que basta empurrar a chapa. Todos os que já viram o mar e também todos os que morando a quatro quilómetros nunca o cheiraram. Todos os que não sentem o alcatrão nos pés e os que não conhecem dois pés fechados numa sola. Todos os que crêem que o conhecimento é um património imaterial e os que crêem que conhecer é sobreviver à desgraça.      

Senhores governantes, não querendo incomodar a vossa consciência, deixo apenas um pequeno desabafo... infelizmente, o quarto de depósito do meu carro anda a provocar-me azia, palpitações cardíacas e tremores nas pernas. O cheiro do meu shampoo que quase me provoca indigestões e calor no estômago. A minha arca vazia esvazia-me ainda mais estômago e apodrece-me ainda mais os dentes. Pergunto: O que me sugerem? Deixarmos de andar de carro e passarmos a deslocações de setenta quilómetros a pé? Que mezinha para lavar os cabelos? Posso utilizar os terrenos à volta de minha casa para cultivar alguns alimentos?

Atentamente,

Rita Alves 





quarta-feira, 27 de maio de 2015

Meditação e crianças



O meu Guerreiro já me fez este pedido várias vezes, antes de adormecer...

"Ensina-me a meditar porque assim eu adormeço melhor."

Eu não medito formalmente, nem nunca fiz nenhuma formação nessa área. Estou rodeada de gente que o faz, mas eu nunca o fiz. Ontem, ao perceber a intenção da sua pergunta, dei-lhe a minha melhor resposta...

"Mas o que é para ti meditar?"

"É deixar de pensar"

"Com quem falaste sobre isso?!"

"Não sei, acho que com ninguém!"

"Então eu dou-te um truque que pode ajudar: ficas deitado na cama e durante um minuto a única coisa que vais pensar é na tua respiração. Vais ouvi-la e vais pensar nela."

E lá começou o exercício. No início fê-lo correctamente, sentia-o a forçar a respiração, a não deixar que ela fluísse naturalmente, depois foi acalmando.

Após um minuto pedi-lhe que parasse...

"Achas que conseguiste? Ajudou-te?"

"Sim, consegui pensar só na minha respiração. E só me apareceram pensamentos três vezes!"


Não sei de onde veio esta ideia, mas gosto da forma como ele se apropriou dela e a utiliza!

domingo, 24 de maio de 2015

Mar de Memórias...



Mar, 
praia da Memória

É no mar que a solto
É no mar que a recolho
É na linha que a teço
É na linha que a desenlaço

O Mar, a praia da Memória
a Dança, a Sua linha de horizonte

terça-feira, 19 de maio de 2015

Um dia vou vestir o casaco certo ao meu coração...




Um dia vou vestir o casaco certo ao meu coração.

Um casaco com corte marcado a giz branco,

com a medida certa, nem muito justo, nem muito folgado,

que quase não se nota à luz do olhar

de tão bem que me assenta,

que só um olhar experiente 

consegue desunir-me dele,

um casaco com tantas linhas para a direita

como para a esquerda,

que me fica bem em qualquer parte do corpo

ora somente em cima de um ombro, ora tapando as pernas,

ora com as mangas vestidas, ora atado à minha cintura,

um casaco sempre perfumado,

com aromas simples e claros,

um casaco com um bolso largo

que convida a conhecer e partilhar segredos,

um casaco feito de um tecido tão delicado

quanto forte,

Um casaco onde a diferença está escondida

nos pormenores,

nos detalhes das linhas...


e por entre linhas eu irei passear-te

e encaixar-nos naquelas paisagens

que vão bem com a nossa pele,

naqueles lugares que só aos dois pertence

...

e depois, 

durante e até antes, tu poderás aconchegar-me

a alma

e eu, 

aconchegar-te o coração.

E eu sou feliz por estar rodeada de gente com piadas parvas


E quando um clima menos bom é levado por terra com uma piada parva, isso é? ... inteligência! 
E eu sou feliz por estar rodeada de gente com piadas parvas, que são tão inteligentes! Que me fazem ter vontade de gargalhar por apenas uma parvoíce. Que deitam por terra todo o trabalho de resmunguice e rezinguice do outro. 

E há ainda aquelas relações que têm um canal secreto de parvoíce entre as pessoas! Canal  que é activado por uma reacção de curtíssima duração, que por vezes nem chega a demorar um milésimo de segundo.

Hoje tive esta sorte. Por entre muitos pensamentos, muitas questões, muito crescimento, muito olhar para todos os lados e muita seriedade leve desmontaram-me o figurino com uma piada daquelas "simples e eficazes". Daquelas que não há como não nos cairmos no chão, de tanto rir. E o que que eu admiro isto?! Tanto! Seja em que relação for, seja ela amorosa, "amizadosa" ou ecológica. 

Das melhores memórias que guardo são destes momentos. E guardo-as tão bem que o meu cérebro quando precisa de alguma agitação saudável ou um empurrão, vai lá buscar todinhas! As quedas que durante uns meses via, todos os dias, na escadaria principal do Centro Comercial das Amoreiras; a "marrada" que eu mandei na cadeira da frente, numa aula de um senhor Seríssimo, francês, quando estudei no Ispa; o rir de nada, que me aconteceu tantas vezes com a minha amiga Rita X.; o rir da piada mais seca, que só eu e a minha amiga Marta é que entendíamos (não era seca, era descontextualizada para o resto do mundo); o rir só porque o meu filho está a pedir que o faça rir "à grande" e eu mando-o crescer, e rir sempre dessa mesma piada; o rir porque não aguentas mais de riso e choras de tanto rir e ficam a doer-te os maxilares...

Hoje tive essa sorte, e o meu cérebro é tão bem mandado que guarda essa memória e ri-se vezes sem conta dessa mesma piada... economia de sucesso! 

(e acabo este texto com um acesso de parvoíce daqueles! Jasus! Senhores!  Nestas alturas revejo-me na figura da Dori com uma "bebedeira do azoto")... 

Obrigada* a esta inteligência tão saudável!  (p.s eu não estava resmungona, estava questionadora, curiosa)


* ("Obrigada" porque esta coisa de agora irem ver o significado da palavra "Obrigada" e deixarem de a dizer, para passarem a dizer "Grata" dá-me nerves e fique com o sangue aos pules... também não posso dizer BemHaja por questões automóveis cá de casa. Pertantes... obrigades!) 






  

sábado, 16 de maio de 2015

Hoje também é dia 25 de Abril!

Hoje completaremos a caminhada do dia 25 de Abril. 

A chuva não deixou que, no próprio dia, gritássemos até ao fim por todas as revoluções! 

Do Rato, ao Carmo, à Praça do Comércio... de 1910 a 1927 e depois até 1974... 

Vamos em grupo, em descoberta e em Amor! Como se querem as revoluções!






sexta-feira, 15 de maio de 2015

DIA INTERNACIONAL DA FAMÍLIA e uma TESE EM LITERACIA FAMILIAR...


Dia Internacional da Família... e uma tese em Literacia Familiar


E porque hoje é mais um dia a comemorar, deixo aqui o registo daquilo que nós podemos fazer em família, para salvar os nossos filhos, enteados, sobrinhos do insucesso escolar :-)

Ontem defendi (palavra estranha esta, parece que o objectivo deste momento é um "defender" porque há alguma coisa a acusar... princípio errado) a minha tese de mestrado. Demorou o tempo certo a ser construída. Doze anos. Por norma, o tempo projectado para elas é de dois anos. Mas demorei todo este tempo porque um trabalho com esta envergadura, a meu ver, não pode ser feito só da leitura de artigos científicos e livros. Demorei doze anos e fez todo o sentido. O objecto de fazer um trabalho destes começou em 2003 quando me inscreve num mestrado de psicologia educacional (ISPA). Maravilhoso mestrado. Num ano aprendi mais do que em quatro de licenciatura, é uma verdade. Tão bom que fiz a parte curricular no tempo certo, com uma boa média, e posteriormente, larguei a tese a meio. Porquê? Porque não estava a acreditar no que estava a fazer. Passados muitos anos volto a inscrever-me numa formação destas. Desta vez vou para a área de Didáctica de Língua Portuguesa. Porquê? Porque desde o final da minha licenciatura (educação física) que tem sido a minha área de trabalho e interesse. 
Ontem apresentei a um júri o trabalho final. Passados quatro anos. Não larguei a tese a meio, sabia que desta vez tinha de acabar (por muitas razões internas e externas). E o tema dela é o da Literacia Familiar. E é aqui que se encontra a justificação para a tão longa duração de um terminar de tese.
Tudo o que fiz, escrevi, li, investiguei e apliquei não me era estranho. As leituras andavam a ser mastigadas há muitos anos, a parte prática também. No final, este trabalho tornou-se num agregar de leituras, experiências e Vida. E por isso foi feito no tempo certo. Em 2009, 08 ou 07 não teria conseguido terminar porque ainda me faltava muita coisa para viver. 

E por hoje ser Dia Internacional da Família deixo aqui as grandes conclusões do meu trabalho, que junta os termos "Literacia Familiar" e "Aprendizagem da Leitura e da Escrita". Não é uma novidade para nós, é só mais uma confirmação académica para o que pensamos

- A FAMÍLIA É O PRINCIPAL PILAR PARA  O DESENVOLVIMENTO DA LITERACIA!

- QUANTO MAIOR A QUANTIDADE E A QUALIDADE DE INTERACÇÕES ESTABELECIDAS ENTRE FAMÍLIAS E CRIANÇAS, MELHOR O DESENVOLVIMENTO DA LITERACIA!

- UM MELHOR DESEMPENHO DOS FILHOS, ESTÁ ASSOCIADO AO COMPORTAMENTO DA FAMÍLIA!

- QUANTO MAIOR E MELHOR A APOSTA NOS PRÉ REQUISITOS DA LITERACIA, DURANTE O PRÉ ESCOLAR, MAIOR O SUCESSO DA APRENDIZAGEM DA LEITURA E DA ESCRITA (durante a aprendizagem formal, ou seja, a entrada para o 1º ciclo)

- AS BOAS PRÁTICAS DE LITERACIA (casa e escola) CONTRIBUEM PARA O BOM DESEMPENHO ESCOLAR DOS ALUNOS


Nenhuma novidade para vocês, imagino. Já todos sabemos, é certo. Mas passar do que sabemos, ao que fazemos, às vezes, é um passo gigante.

Num futuro qualquer gostava de conseguir sensibilizar professores e famílias para estas questões. A importância de um pré-escolar brilhante, em todos os aspectos. A importância do papel da Família na aprendizagem dos seus filhos, em todos os aspectos. 

Faz sentido para mim ver juntas as palavras: Educação - Família - Literacia - Consciência . Vamos ver onde me leva este sentir...


quarta-feira, 13 de maio de 2015

Fui com a certeza que não me apetecia sorrir... (o dia depois de ontem)



E no dia seguinte como chegas até ao sítio de onde ontem saíste violentada, embora que só emocionalmente? (como se a palavra "só" não fosse aqui suficientemente grande)

Passar o dia pensar no que fazer hoje com eles... O quê?! Preparar uma atividade de uma hora, no dia seguinte aos meus alunos terem sido expostos a um acto violento, sem saber o que se passou hoje, durante o seu dia. Será que houve punições a alguém? Será que foi falado com os alunos? Não sabia. Sabia que o caminho até chegar à escola ía ser diferente, a entrada também e aquela hora idem. 

O que levar? Por norma, a minha hora é utilizada a contar histórias e a trabalhar nelas. Por norma... porque uma grande parte das vezes, a minha hora, é utilizada para tentar salvar vidas. Aliás, a minha hora e todas as restantes horas dos meus colegas, ali, naquela escola. Uns com mais jeito, outros com menos. Mas é o clima que se sente. Somos professores-salvadores. O Alexandre O'Neill dizia "Há mar e mar, há ir e voltar" e nós sabemos, todos os dias, que "Há vidas e vidas, há ir e voltar". E todos os dias vamos às vidas e depois queremos regressar. O peso da vida do outro já é demasiado para qualquer um, mas quando este peso se multiplica por vinte e dois ou seis, não há coluna vertebral que aguente. Temos esperança que a seja a espinha emocional a aguentá-la. 

E hoje também fomos... Eu fui sem saber o que fazer. Fui com uma certeza, receio. Nunca me tinha acontecido fazer aquele caminho com tanta incerteza e receio. Receio de uma "espera", de ser achincalhada, de voltar a acontecer. Não era suposto ir trabalhar assim, não. Fui ainda com outra certeza, não me apetecia sorrir. Não era suposto ir trabalhar assim, não. Não me apetecia ser simpática. Não me apetecia esforçar-me para trabalhar. Não é suposto trabalhar assim, não. Muitas vezes vou em esforço, muitas. Este ano sobretudo, e nesta escola em especial. Só mesmo a espinha me aguenta em pé. E muitas vezes penso... "E eu só estou, fisicamente, uma hora por dia, não imagino quem está sete." 

Cheguei. Entrei. Todos os alunos perguntavam pela outra professora e a conversa entre adultos era sobre o passado dia. Os boatos no bairro são maiores que a lista de devedores do fisco. As respostas e tomadas de decisão são equivalentes ao meu subsídio de férias na conta, zero. As indicações para o procedimento com os alunos são em singular, uma. 

Essa uma que era exactamente oposta ao que eu senti que devia fazer com eles, naquela hora. Era-me impossível ser indiferente, era-me impossível não falar acerca do que aconteceu. E foi isso que fizemos. Eles ainda em estado de choque com o que tinha acontecido, e eu também. O aluno em causa não estava presente. E começámos a falar, mas com uma regra: ninguém fala sobre o que aconteceu ontem, só podemos falar sobre o que não aconteceu e devia ter acontecido. Com os olhos literalmente esbugalhados tomaram o lugar dos adultos e do colega. As soluções passam por situações de "devemos conversar, respeitar, se fizermos com calma conseguimos...".

Surge a pergunta "Posso fazer tudo o que me apetecer?" , as respostas inevitavelmente vão para o "não". 
"E porquê?" porque temos de obedecer aos mais velhos, à mãe, ao pai, aos professores... 
"E porquê?" para não levar porrada, castigo. Até que surge, do mais tímido  "não posso fazer tudo o que me apetecer porque tenho regras, e elas põe o mundo na ordem" e os outros seguem o seu pensamento. 
E surge outra pergunta "Se há pouco tempo comemoramos a liberdade como uma coisa boa, como é que ela agora se tornou numa coisa má?" e as respostas caem em tirar a graça à liberdade e baptizá-la de má. 
"Mas era boa! Como é que ficou má?" e surgem as respostas "porque as pessoas têm liberdade mas estragam-na com falta de respeito"... e daqui surgiu o desenho no quadro da regra do jogo de futebol. Da linha do nosso campo, de tudo o que podemos fazer dentro dele e de tudo que não podemos fazer fora dele. Da nossa linha e da linha dos outros. 

Ao longo da conversa, de cada vez que se tocava no assunto de ontem, levantava-se uma voz a chamar à realidade "não é para falar do que aconteceu, só do que não aconteceu!" Passados 40 minutos terminámos a conversa. Depois disso, ficámos 20 minutos a construir os Quantos-Queres com os nomes e adjectivos. Eu e eles estávamos satisfeitos e, sobretudo, leves, com vontade de sorrir e de nos ajudarmos uns aos outros... 

Pode ser que na sexta-feira volte a fazer aquele caminho com outras certezas...  






terça-feira, 12 de maio de 2015

Quero encarar de frente a violência, com todo o meu amor e deixar de correr, em círculos, à volta da mesa...



(não devias estar a ler isto porque na realidade eu não devia estar a escrever)


A exposição à violência sempre fugiu do meu curso de vida. Nunca foi exposta à violência física. Verbal e emocional tive alguns exemplos por perto, mas a física nunca. A única palmada que quase tive gravada na pele não chegou a acontecer. A figura de quem tinha medo era a do meu pai. Pessoa que tinha, e tem, uma forma especial de mostrar o seu amor, em muito diferente da minha, é certo. Tinha-lhe medo, e um dia fugi dos dois a correr à volta de uma mesa circular. Tinha feito asneira e aquela palmada aproximava-se com grande convicção do meu corpo. Não fui apanhada por nenhum dos dois. Depois desse episódio nunca mais corri. Não corri porque preferi fingir que nem existia na minha vida. Quanto menos contacto melhor, quanto menos confiança melhor, e em pouco se devia à palmada. Era a vida a crescer assim. Eu com medo, e portanto sem confiança, sem respeito, sem admiração. Lembro-me de estar apaixonada por ele até por volta dos meus doze anos. Lembro-me de me desapaixonar e de me sentir sozinha. Também me lembro que aí se fechou mais uma porta entre nós. Desapaixonei-me e nunca mais voltei. Mas ainda hoje o que me mais me impressiona é a violência física. E o que as pessoas se transformam quando estão em posse dela. Lembro-me disso no meu pai. Assustava-me só o facto de pensar que ele se podia chatear. Hoje, continua a impressionar-me as pessoas que agem de forma violenta quando estão zangadas. Os olhos cerram, o peito levanta, os joelhos enrijecem. E o meu corpo desapaixona-se delas num ápice e foge para sempre. 

Por circunstâncias protegidas nunca fui exposta a violência física ou verbal durante a minha vida. As discussões na escola eram tranquilas, nunca andei à tareia (as meninas da minha turma, na escola primária, tinham a sorte de ter um bando de rapazes a protegerem-nas), nunca estive rodeada de gente "com mão na anca e a gritar pregões" aos vizinhos, nunca tive um chefe que gritasse comigo... 
Nunca fui exposta, logo nunca conheci, e obviamente que, por estas razões, não sei lidar com ela. 

E hoje durante o dia voltei a pensar nisto. Não sei lidar com pessoas que, à minha frente, sejam violentas, quer para mim quer para os outros. E é tempo de tratar deste assunto. É tempo de deixar de ignorar esta dificuldade. 

Hoje, numa das escolas em que trabalho, uma colega minha foi agredida. Estávamos a dar aulas no mesmo horário. Ela é uma mulher que é surpreendentemente calma. Tão calma que ninguém sabe como se consegue manter tranquila naquele contexto escolar. Hoje foi vítima de uma agressão por parte de vários familiares que entraram de rompante na sua sala de aula. Onze. Adultos. O motivo: uma queixa maldosa/inflacionada por parte do aluno à mãe. Origem: falta de educação da criança/família, falta de valores da criança/família. Desobediência por parte do aluno à professora. Um agarrar de braço para este se sentar na sua cadeira após o pedido ter sido feito oralmente, várias vezes. Saída da escola do aluno para chamar a família. Tudo foi possível. 

Resultado: agressão física por parte de vários familiares à professora. Polícia, hospital, relatórios, queixas, tribunal, vida marcada por aquela agressão física, receio de ser "agarrada" novamente pela família.

Durante o acto não reagiu, só teve tempo de dizer que não bateu em ninguém, apenas agarrou o braço do aluno porque este não obedeceu ao pedido feito, oralmente, várias vezes. Não reagiu e teve consciência de que não o podia fazer, por isso ali se manteve às ordens da praça armada pela família. 

Não vi, estava a dar aulas. Sei que amanhã não voltaremos iguais à escola. Ela marcada física e psicologicamente e os restantes marcados pelo medo.

Nenhum professor, de bom senso, toca num aluno de forma violenta. Nenhuma mãe ou pai, de bom senso, bate de forma violenta no seu filho. Ambos são pessoas e pessoas de bom senso. Sabe sair da sala de aula ou de jantar, respirar fundo, gritar ou largar-se num pranto de lágrimas e, depois, voltar ao local do filme. Mas todos estamos sujeitos aos que se transformam e fazem questão de amedrontar os outros, com a sua violência física. Na maior cobardia da vida. 

Não sei mexer-me neste assunto. Faz falta a raiva e o amor. Movem-nos. A indiferença não nos faz avançar, e eu começo a pensar que está na altura de deixar de ser indiferente à violência. Não quero ser violenta. Quero encarar de frente a violência, com todo o meu amor e deixar de correr, em círculos, à volta da mesa...







quinta-feira, 7 de maio de 2015

A mãe Perfeita, ou perfeitamente cilindrada



Mãe: "Mas só podia... eu sou tua mãe, logo sou A Perfeita, certo?! Não admito hesitações! (em tom de brincadeira)"

Filho: "Não... porque para tu seres perfeita tinhas de estar comigo todos os dias!"



A partir daqui podemos pensar tanta coisa de acordo com a cor do nosso dia...

Opção A, em dias cinzentos: "Toma lá e vai buscar!"

Opção B, em dias brancos: "Para ele, para tudo ser perfeito, só faltas eu, todos os dias"

Opção C, em dias bege: "Tu não és perfeita, já sabes disso. Ninguém é perfeito, já sabemos disso... então porque é que brincas com as palavras que são coisa séria?!"

São as opções que tomamos com a vida...


terça-feira, 5 de maio de 2015

Ainda acerca dos TPC...



De volta ao tema mundial: TPC


A tempestade acalmou e agora estamos em "Mar-chão". Calmo, a correr o seu curso, sem tempestades ou gigantes a amedrontar o caminho. 

As boas notícias, e a certeza que a opção é a certa, é quando a professora vem ter connosco e ouvimos:

"... estivemos a rever o que precisava de ser ainda consolidado para a prova de Língua Portuguesa. O que vai para casa são revisões dessas matérias. Treino." Estando o A. adoentado, ainda acrescentou "ele que faça o que conseguir, façam vocês a gestão com ele"

É isto! É nisto que acredito e que me faz sentido. 

Cada um tem as suas dificuldades, cada um as suas facilidades. Se eu em casa puder acalmar a ansiedade provocada pelas dificuldades agradeço e entregar-me-ei com toda a minha espinha emocional. É a única parte que posso fazer enquanto mãe. E é por esta razão que os TPC (Tortura Para Crianças, Trabalho Para Casa), voltam a ter a designação de Tempo Para Colo.



segunda-feira, 4 de maio de 2015

Queria enganar o meu espelho, queria esconder-me dele e nele continuar a ver-me, aliás, espreitar-me.


Não quero ser somente mais um visitante deste tempo. Nunca pensei que estaria mais de oitenta, e sempre pensei que não desaparecia nova. E neste tempo já fui transparente, opaca, brilhante, baça, viva, morta. É assim que se vive com o nosso reflexo. Cheia de tonalidades. Sempre em espelho. 

Muitas vezes achava que o que estava à minha frente era muito maior, mais brilhante, mais transparente. E o meu reflexo, no espelho, ia ficando cada vez mais pequeno à medida que achava isto. Às vezes achava que o meu reflexo era tão alto, inteligente, amoroso quanto o que eu via à minha frente. E eu e o meu reflexo ficávamos a olhar-nos horas a fio, sem perder um pestanejo. Ficávamos no "achismo". Eu achava uma coisa, ele achava outra.

Não menos raras eram as vezes em que eu tentava enganar o meu reflexo. Tinha sempre esperança que me acontecesse o que a Suzy Lee tão bem descreveu no seu livro "Mirror". 

Queria enganar o meu espelho, queria esconder-me dele e nele continuar a ver-me, aliás, espreitar-me. Achava que conseguia enganá-lo porque ele era um "Ele" , e sempre ouvi dizer que Elas eram mais inteligentes que Eles. Nunca deu certo. Nem para Ele, nem para Ela, eu.

Foi então que decidi calibrar as minhas lentes e apenas observar partes Dele. Olhava apenas alguns detalhes do meu reflexo, mirava, apreciava e desaparecia. Passado algum tempo voltava a outro detalhe. Olhei tantos até perfazerem a realidade do Tudo. 

Agora vejo o reflexo no seu todo e a maior parte das vezes gosto Dele. Ainda faltam aprimorar muitos e muitos detalhes. Mas são isso mesmo, detalhes, que fazem parte de um Todo. E com este nosso novo namoro havemos de chegar a um bom lugar. Um lugar tranquilo, onde todos os dias crescemos os mesmos "Tempímetros".



E a história? Presa, cheia de medo de se mostrar. Parecia que ía ao dentista.


Hoje foi dia nervos à flor da pele... acordo com despertador, enfrentar ventania e chuva, começar a Encontar histórias bem cedo. 

O corpo não queria obedecer à história, queria virar-se mais para os cabelos enleados e molhados. 
O saco queria obedecer à chuva e rasgar-se como um rio, tal como o trânsito... um ribeiro imenso e nós dentro da Nau.
E a história? Presa, cheia de medo de se mostrar. Parecia que ía ao dentista. Preferia tudo, a estar ali. 

Mas teve de estar. Foi literalmente empurrada para a frente e obrigada a passear na boca de cena, durante uns bons trinta minutos. De vez em quando olhava para trás, assustada, e pedia-me conselhos para continuar. De outras vezes conseguia abrir um leve sorriso. Outras porém, ficava estática, só a olhar quem a olhava e escutava os seus passos.

As nossas histórias, são nossas. Não é possível dar-lhes a volta. Não há modificações, alterações ou edições. São assim, com aquelas palavras escolhidas pela Vida. E, do meu lado, elas não gostam de se mostrar publicamente. Acho que ninguém gosta de mostrar as suas histórias publicamente, só as dos outros. Se calhar por isso corre tanto boato por essas estradas fora.

Quando uma história pessoal passa a "história pública" (público geral) se calhar é porque não é mesmo a nossa história. 

A quem contas as tuas histórias? De quem ouves? Quem pode contar histórias perto do teu corpo? A quem conta histórias o teu corpo?

Hoje, pela primeira vez em muitos anos, o meu corpo amarfanhou-se como o cabelo, quando ía contar uma história. Por norma, só conto ou leio aquelas histórias que me escolhem como transmissor. Mas hoje, esta história, escolheu-me como transmissor e escrivã... e não foi nada boa a sensação de a dar aos outros... Se calhar tudo isto, só porque ainda não nasceu. 



domingo, 3 de maio de 2015

Ser mãe é...




Desde há sete anos para cá que o dia da Mãe é celebrado no misto entre Filha e Mãe.

Há trinta e nove anos que sou filha. Há sete que sou mãe.

Em nenhum dos papeis me deram manual, mas o certo é que, para mim, o papel de Mãe sempre assumiu maior responsabilidade do que o de filha. Lembro-me, em cada desavença com os meus pais, de lhes dizer (a maior das vezes, de pensar, para não levar uma achega no pêlo) que eu não tinha pedido para nascer. E se calhar por isso, o peso da responsabilidade enquanto filha sempre foi nulo. Eu sempre estive cá de borla! Nunca exige estar, por isso, aguentem-se! Não tenho de fazer feliz quem escolheu por mim (achava eu que eram eles que escolhiam)... 

Já o papel de Mãe foi opção minha e, por essa razão, a responsabilidade é aceite na totalidade. 

Mas haverá mesmo tão grande distância entre um e outro? 

Seremos mesmo tão diferentes filhos e pais? Acredito que em algumas coisas sim. Sou alguém que, contrariamente aos meus progenitores, tem tempo de vida para si. Tenho, contrariamente a eles, vários mundos ao meu alcance, viajo, descubro, e sobretudo, e onde reside a principal diferença, vou tentando conhecer-me. 

Por esta razão digo que, inconscientemente sou filha há trinta e anos, e, conscientemente sou mãe há sete. Agora sou eu a rede. 

Tem sido a maior experiência de vida. Aquela onde eu vivo em sobressalto com uma única questão... onde está a linha que separa o que eu dou e o que ele é? Não fui eu que o escolhi, foi ele que me escolheu. A razão, já sei qual foi. Agora resta esperar até ao fim dos nossos dias!

SER MÃE É SER VERBO NA 3ª PESSOA DO PLURAL...