sábado, 21 de novembro de 2015

Enfermeiro Fernando, UCI Neurocirurgia, HSJ

... da visita médica de hoje...


O Milagre não aconteceu, pelo menos para a minha prima, mas para mim bateu à porta uma espécie de Ser Extra esta Terra. Para alguns seria uma anjo, para outros uma benção, para mim um Ser de outro mundo que não o nosso.

Ao iniciar a visita diária, nos Cuidados Intensivos da Neurocirurgia do Hospital de São José, fomos barradas à entrada por estarem em procedimentos clínicos com ela. Aguardámos uma hora. Entrei e o enfermeiro ainda terminava os procedimentos. Quando terminou, lavou as mãos e dirigiu-se à porta, antes de ele sair aproveitar para saber a quem me dirigir para saber informações clínicas do estado de saúde da 5. O enfermeiro disponibilizou-se na medida do que sabia. Um homem da minha altura, cerca de cinquenta anos, bem constituído fisicamente. Nunca o tinha visto. Já passámos por vários mas aquele nunca tinha visto.

Aproximou-se de mim e junto à cama 5 estivemos a falar acerca da evolução do estado de saúde. Regra geral, todas as pessoas que temos vindo a conhecer neste serviço, são enfermeiros ou médicos que se disponibilizam para responder a perguntas, e para dizer a Verdade. Esta última parte é feita com muita cautela, pela parte do pessoal e também uma dose grande de sangue frio. Todos eles seres excepcionais, sem duvida.  

Eu ia cansada, triste, desanimada, esmagada, hiper-sensível e pouco cuidada. Nestas alturas é fácil isto acontecer. A energia sai de nós em velocidade flecha e não retorna renovada. Eu não ia pronta para o que aconteceu...

Certo é que, quando o enfermeiro Fernando se aproximou de mim, fê-lo de uma forma descontraída (novidade naquele local, para mim). Abeirámos-nos da cama, eu ia acarinhando com festas a minha prima, e ele colocou um cotovelo em cima da grade da cama. Começou a "contar a história" desde o início. Todos os detalhes, sequências, possibilidades, cenários. Com toda a Verdade, como caracteriza aquelas equipas daquele serviço. Mas ele tinha uma característica diferente, ele respondeu às minhas perguntas e às minhas ansiedades! E mais que isso: ele escutou as minhas histórias, conversou comigo, questionou-me e sorriu. No final, apertou-me os braços e deu-me dois beijos despedindo-se de mim como se nos conhecêssemos há anos. Desatei em choro, claro está (e ainda choro comovida, enquanto escrevo este texto). Um choro de quem vê sol e sente calor depois de uma tempestade. Um choro de rendição ao cansaço e quem encontrou colo. Um choro comovido e grato à vida por me ter colocado aquele ser à minha frente. 

Passados alguns minutos, enquanto eu aguardava com a minha mãe no exterior, passou por nós, parou e veio falar novamente. Aproximou-se de nós, para lá da distância social, falou e fez-nos sorrir aos três. Despediu-se. 

O que fez o enfermeiro Fernando? Tratou-me de forma especial num dia escuro e tempestuoso; escutou-me; questionou-me; tocou-me; olhou-me enquanto Rita e não enquanto familiar. Nada tenho a apontar a nenhum dos funcionários que até agora conheci, nada mesmo. Pelo contrário, todos eles são seres fora de série. O enfermeiro Fernando fez algo ainda mais Extra-Ordinário, ele humanizou ao máximo aquele espaço e cuidou da Rita. Tratou de mim, enquanto pessoa.

Não sei se o volto a ver. Pelo prognóstico e demora das melhoras, certamente voltaremos a cruzar-nos. Espero mesmo que não tenha sido só um sonho no meio deste pesadelo. 

Há pessoas que têm um dom. O enfermeiro Fernando certamente tem uma bolha gigante de amor à sua volta, e a capacidade de, dentro dela, acolher quem precisa, o maior Dom. Uma capacidade rara. Um exercício de humanização gigante, tão comovente... que o enfermeiro tão naturalmente faz.


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A Morte Madrinha



Desde o dia cinco de novembro que anseio conhecer Aquele médico... O médico que engane a morte daquela paciente, a minha prima. 
No dia cinco de novembro soube da notícia, dois aneurismas rebentaram. Nesse dia esta história voltou ao meu corpo. Quis reconstruí-la mas várias histórias me apareciam pelo meio. Falei com quem a sabia e me indicou o caminho até ela. Na minha de Literatura para Crianças e Jovens quis contá-la, mas a mente e o corpo estavam tão desnorteados que apenas consegui lê-la às minhas alunas. Assumi que a iria ler e não contar, como devia acontecer, porque precisava que rapidamente ela saísse de mim. Assim fiz. Li às minhas alunas o conto tradicional da Morte Madrinha, uma recolha dos irmãos Grimm. E passaram mais duas aulas e ela voltou a ser a minha oferta para o momento da "Leitura gratuita". Ela estava, e continua a estar, tão presente em mim que não valia a pena "tocar" em mais nenhuma.
As histórias só podem acontecer desta forma, com verdade.  E tal como as crianças, o meu corpo e a minha mente foram pedindo esta história várias vezes ao dia, várias vezes por semana. As histórias que contamos constroem-nos, dão-nos segurança. 
Esta continua, todos os dias comigo. Continuo a precisar desta personagem, de saber que existem pessoas que conseguem enganar a morte. Continuo a querer conhecer Aquele médico que a há-de enganar. Que de tão sábio que é, há-de conseguir colocar O milagre e a morte, juntos, à cabeceira da minha prima... por muito, muito tempo.

Deixo-vos a história em audio...   A MORTE MADRINHA (GRIMM)