domingo, 22 de maio de 2016

sexta-feira, 20 de maio de 2016

No dia em que ambos se davam à Luz #beijosabura

De tempos a tempos ela aparecia. 

E esse era o dia em que, finalmente, ele e ela se juntavam.

Depois disso ela desaparecia e ele, todos os dias, espreitava, escondia-se, mostrava-se radiante, surpreendia o mundo inteiro só para poder voltar a vê-la. 

Não chegavam a passar trinta dias para que ele a voltasse a ver. À sua frente ela se erguia. Grande, brilhante e poderosa. Os olhares trocados faziam silenciar o mundo. Faziam parar o Tempo. 

E, deslizando um sobre o outro, transformavam o dia em noite, o sol em lua.  No dia em que ambos se davam à Luz.








sexta-feira, 13 de maio de 2016

É a minha Casa. A porta está aberta #beijosabura


Era impossível avisar o dia e a hora em que a porta estaria aberta. 
Por norma ela nunca estava fechada, pelo menos a sete chaves. Regra geral ela estava encostada e, esporadicamente, fechada no trinco.
Ou seja, quem quisesse podia arriscar e passar por lá. Bater à porta e esperar, espreitar pela nesga ou simplesmente entrar.
Ele arriscou e um dia aproximou-se. Espreitou pela nesga da porta, e anunciou a sua entrada, alto e cheio de segurança.

Ela deu-lhe as boas vindas e perguntou-lhe se tinha a certeza daquela acção. Afinal de contas, não é todos os dias que libertamos o espaço para uma visita, nem é todos os dias que alguém está disposto a visitar.

Entrou. Acompanhava-o lado a lado. "Estás preparado?"

Aqui é a cozinha, ainda tem o cheiro do pudim de atum que ele gostava de preparar e da sopa de beterraba. Também ficou o aroma das especiarias trazidas das suas viagens e do jasmim que trouxemos de um passeio e plantámos naquele vaso. Não há uma toalha que não tenha nódoas das noites longas de vinho. No frigorífico ainda resta um pedaço de queijo e umas laranjas que costumava trazer das árvores que encontrava nas suas viagens. Na porta do contador um folha de excel onde escrevíamos as contagens da electricidade. As gavetas estão arrumadas como as de casa dos meus pais. E aqui ficaram os tachos da minha amiga Tri, que ficou cá uns meses. Estás preparado para conviver com estas nódoas, com estes cheiros, com esta arrumação?

No corredor ainda estão, escritos na parede, os recados que deixávamos ao dia, ao mundo ou ao outro. E permanecem ainda algumas molduras com fotografias muito bonitas.Está também o mapa mundo, onde assinalo todos os lugares por onde viajei, na vida real, com amigos, nos amores, na maionese. Onde vires uma bandeira podes ir buscar a lupa e espreitares o que nela está escrito. Em todos os lugares fui feliz, e de lá trouxe uma mensagem.
Estás preparado para atravessar este corredor, olhar estas paredes, apanhar as bandeiras que caem ao chão e construir novas bandeiras?

Na sala algumas coisas foram mudadas. Mas a luz continua a mesma. Os sofás são novos e os almofadões no chão também. O espaço para a lareira permanece o mesmo. As molduras vão aumentando, de ano para ano. A televisão passou a um lençol e o projetor que ali vês, era do pai do meu primeiro namorado,ainda hoje nos falamos e, de vez em quando, ele vem até cá a casa cuidar do aparelho. 
Estás preparado para estares nesta sala, uma sala que quer que estejamos e sejamos?

No quarto, o que resta é invisível aos teus olhos. É visível ao meu coração e aos meus olhos. Naquela caixa de madeira está um anel que ele me ofereceu. Na outra estão as pulseiras que as amigas e eu temos em comum, e ali, naquela taça, o fio que ele me trouxe do Vietnam. Uma peça linda, delicada, harmoniosa. Continuo a usá-lo. 
Estás preparado para te deitares neste quarto comigo, fechares os olhos e ficarmos visíveis um para o outro?

Na casa de banho guardo frascos de perfume, uns quase cheios outros quase vazios. Perfumes que também ele me ofereceu ou que eu comprei num lugar especial. Sou forte na memória olfactiva e cada frasco aberto leva-me a uma cidade, um país. Viajo nestes frascos. 
Estás pronto a ficar e a ver-me viajar?

No jardim estão árvores e, naturalmente, muitas raízes na terra. Não se podem arrancar. Seria matar alguma coisa boa, viva. 
Estás pronto para cuidar delas? 

É a minha Casa. A porta está aberta. Ficarei feliz se nela quiseres habitar e honrarei o momento em que quiseres partir. Nela eu Sou e tu poderás  Ser. Quando deixares de me sentir em Casa chama-me ou bate as palmas, às vezes ando lá por fora pelo jardim e  distraio-me. 

É a minha Casa. Tem terreno fértil, todos estão convidados a cultivar. Só têm de trazer as sementes. Construí um lugar seguro para o Amor. 



quinta-feira, 12 de maio de 2016

eu vou ao fundo do poço #beijosabura


vai-se ao fundo do poço, 
vai-se e fica-se lá.
avisam-se os amigos que estamos lá, 
não se disfarça a cara a ninguém,
avisa-se alguém da localização do poço,
do perímetro, profundidade, se está seco ou se tem água.
avisa,
se te apetecer conversar com alguém podes chamar quem avisaste
e assim nunca vais estar sozinho.

não ter vergonha de ter descido ao fundo
não ter vergonha dos nossos olhos transformados em poços,
escuros.
ter coragem para nos deixarmos ficar sentados e quietos
com olhos de poços cheios
ter coragem para verter essas águas para os nossos pés, pernas, mãos, corpo
gritar, escavar, cair, bater 
deixar cair
deixar de querer subir

não ter vergonha  de ter descido tão fundo
ter coragem para gritar, escavar, cair
deixar de querer subir

olhar o caminho da descida, passo a passo
olhar o fundo
olhar o céu
contemplar a descida, acolher as dores dela
ter coragem para as gritar
deixar estar, ali

só estar... estar só...

chamar quem avisaste, 
ter coragem,
gritar,
silenciar e acolher as dores que restam da descida
cuidar delas, cuidar de ti
cuidar

chamar quem avisaste, quem nunca saiu da beira do poço
quem cuidou
sorrir-lhe
gritar-lhe amor
aproveitar a força para erguer
para olhar o caminho de descida e vê-lo como o caminho certo para subir

chegar ao topo, 
agradecer a descida,
sem ela nunca teríamos tido a hipótese de subir
de cuidarmos de nós,
de nos resgatarmos 
de amarmos,
sem ela nunca teríamos tido a hipótese de chegar à superfície
e respirar novamente.