sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Para 2017


 
2016 quebrou muito... quebrou laços de amor, laços de amizade, laços de confiança e ilusão. Que 2017 seja o ano de reconstrução, aproveitando todos os cacos e regenerando o Jardim de cada um.

Quando quebramos ou partimos nunca mais voltamos a ser como antes. A partir dali transportaremos para sempre uma cicatriz. Não há nada a fazer a não ser acolher essa cicatriz e tratar dela. Colocar o melhor creme hidratante e em abundância fará com que ela deixe de ser um problema ainda maior.

É o que acontece quando nos machucam ou partem, quer por dentro quer por fora. Quando morre algum amor, alguma confiança, algum laço. Não voltamos ao mesmo e para sempre fica uma cicatriz, um risquinho na pele, uma marca na memória da pele.

Todas as teorias dizem que as cicatrizes nos deixam mais forte, que depois retomamos à vida com mais força, mais verticalidade.

Experiência aqui e ali dizem que sim. Abre ferida, faz hemorragia, estanca-se a ferida, inicia o processo de cicatrização e depois, o risquinho da cicatriz. Há ali um pedaço de pele que nunca mais volta ao mesmo. Mas à sua volta tudo fica mais fortalecido.

Num ano especialmente espinhoso as feridas são impossíveis de evitar. Imediatamente sabemos que as cicatrizes serão companheiras para o próximo ano e para o outro e os outros que nos faltam. Ficam para nunca mais nos esquecermos daquela história. Ficam a fazer parte da História. Não há uma cicatriz igual. Não há um amor, uma relação, um laço igual. Não voltamos a fazer a mesma ferida, não voltamos ao mesmo que eramos, não voltamos a ter a mesma memória colada à pele... mas a História que somos agora é muito mais forte e bela do que era antes.

Cada linha, risquinho, cicatriz faz parte da nossa memória da nossa pele, da nossa História. Cuidem dela.

Fechem bem a porta do 2016 e abram uma grande janela a 2017...

SISU.

Beijos Sabura

domingo, 20 de novembro de 2016

Recomeça...



"Recomeça… Se puderes, Sem angústia e sem pressa. E os passos que deres, Nesse caminho duro Do futuro, Dá-os em liberdade. Enquanto não alcances Não descanses. De nenhum fruto queiras só metade. E, nunca saciado, Vai colhendo Ilusões sucessivas no pomar E vendo Acordado, O logro da aventura. És homem, não te esqueças! Só é tua a loucura Onde, com lucidez, te reconheças." Miguel Torga, Diário XIII


terça-feira, 15 de novembro de 2016

Há palavras que tocam numa boca e se transformam em armas nucleares.



Há palavras que tocam numa boca e se transformam em armas nucleares. Palavras que seguem disparadas e quando tocam a pele do outro desarmam-no. Palavras que nos deixam perdidos do centro. 

Queria dizer-te todas as palavras que guardo mas que, na realidade, são tuas. Queria dar-tas mas de cada vez que lhes pego, perco-me. Perco-me até na minha caligrafia, ao ponto dela mudar, de se estar a fechar e a arredondar.

Há palavras que nos moem a cabeça "quero falar contigo". Há palavras que nos pisam a memória "porquê?". Há palavras que nos alucinam o pensamento "amor". Há palavras que nos rasgam o peito "in-di-fe-ren-ça". Há palavras que param o tempo "escuta". Há palavras que fazem levitar "a-cre-dit-to". Há palavras que inundam mais que tsunami "nós". 

palavras que não nos saem da boca e ficam a calar todos os minutos passados, pensados. Minutos prensados entre palavras. Palavras amassadas pelo Tempo, e esticadas pela saudade "qquueerrrroooofffiiiiiccccaaaarrrrrcccoooonnnnnttttiiiiiigggggggggoooooo"

Há palavras que nos prensam os pensamentos de cada dia. Há pensamentos que nos prensam as palavras. 

Há palavras que tocam numa boca e se transformam em armas nucleares, e em cada silêncio ganho, uma bomba de estilhaços


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Roubei-te um beijo...


As memórias constroem-se, constroem-nos
As saudades constroem-se, desconstroem-nos 

Limpam-se com o tempo.
Demoram tempo.

Vagueiam por entre ventos quentes, 
por cima de nuvens, 
raspam-se entre as rochas, 
colam-se ao rótulo de uma garrafa, 
a infinitos grãos de areia fina

Escondem-se num frasco de perfume, 
estendem-se na folha de um caderno
embrulham-se num cachecol
esgueiram-se por entre frascos de especiarias
enchem o peito num por de sol
enrolam-se num abraço grande e apertado

e não abalam 

teimam em ficar
a aparecer quando menos se espera. 

Deixam de ser convidadas mas mesmo assim conseguem ser ouvidas. 

Passam a ser um "número não identificado" que ignoramos mas que, mais cedo ou mais tarde, acabamos sempre por atender...





segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Hoje é dia de encontro e desencontro



Hoje é dia de encontro e desencontro


Faz hoje 44 anos que nasceu o meu irmão. Faz hoje um ano que tive um início de desencontro. Datas coincidente que se marcam no calendário. Umas vividas, outras desaparecidas, outras que dão jeito, outras que queremos apagar.


O dia de hoje é mais feliz do que infeliz. Tive a sorte de ter tido um irmão e de estar com ele vinte e quatro anos da minha vida. 

Faremos uma festa com 44 velas. 

Parabéns ao meu irmão que viveu vinte e sete anos. Parabéns aos meus pais. Parabéns à minha memória que eu não me atraiçoou totalmente na minha história de irmã.  

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Os ponteiros do relógio



Os ponteiros marcavam o presente mas os meus olhos apontavam para o passado. O tempo apontava-me para o passado. 

Um dia sentei-me no presente, baixei os braços e tirei-o do pulso. 

O passado ficaria para trás, o presente ganharia uma companheira. Deixaria de haver horas, minutos, segundos e dias de calendário do passado.

Senti-me aliviada. Deixaria de viajar ao passado de cada vez que tentara situar-me no presente. 

Deixei o relógio de ponteiros num saco que armazena alguns objectos antigos, coisas do passado. Ali juntar-se-ia a um lugar, num tempo, onde não se volta. 

Segui caminho. Era tempo de atar o passado e de me soltar no presente.

Passaram exactamente quinze minutos (neste lugar) quando me apareceu (neste tempo) um relógio sem ponteiros. Um relógio que não me deu horas de passado, nem presente. Estava em branco. Fiquei feliz. Nada é por acaso. Um relógio sem tempo, sem ponteiros. Levei-o ao relojoeiro para que o analisasse. Voltaria a marcar algum tempo para além do que marcou há vinte anos? Ganharia uma companheira presente? Deixar-se-ia olhar e no seu vido ver-se-ia um sorriso? O homem voltou. "Impecável, estes relógios nunca se avariam!". Quase chorei. Um relógio que faz parte de uma memória feliz do passado, voltava a dar-me vida no presente.  Mal sabia o homem que sim, que aquele Tempo nunca se avariou.

Sentei-me no passado, levantei os braços e agarrei-o ao pulso. 

Agora, de cada vez que tentar situar-me no presente, bastará olhar para este visor passado, pois o tempo deixou de me conseguir apontar...

As memórias constroem-se com histórias presentes e limpam-se com o passar do tempo.


terça-feira, 26 de julho de 2016

e de repente sentes que bates de chapa no mundo ...



e de repente sentes que bates de chapa no mundo

que ficas com o peito a arder,

que nada consegue sarar aquela dor.

mas apesar disso mandas-te novamente ao charco

e mais uma vez bates de chapa no mundo

e mais uma 

mais uma e mais uma 

até doer tanto o peito que de seguida vais ao charco mas de braços enrolados, a proteger a tua vida.

no tempo seguinte mergulhas enrolado sobre ti mesmo, 

em bomba, querendo provocar ondas mas protegendo-te de todos os impactos.


a dor no peito demora a passar, o vermelhão também, 

às vezes não passa e deixas mesmo de mergulhar de braços abertos.

importa que vás conseguindo chegar-te perto do charco, que te consigas ver reflectido e que te permitas entrar nele...


quinta-feira, 7 de julho de 2016

Quero desacelerar o tempo




De cada vez que olhas para a lua ela já aconteceu há um segundo

De cada vez que olhas para o sol ele já aconteceu há oito minutos

De cada vez que olhas para o céu ele já aconteceu há anos,

anos de luz

De cada vez que olhamos o céu olhamos o Passado

De cada vez que contamos as estrelas já deixámos de existir



Quero deixar de existir dentro do teu abraço 

olhando Sírius, Vénus ou a Lua

Quero desacelerar o tempo 

e tornar cada momento presente num ano luz, 

que dure tanto tempo quanto a eternidade

Quero desacelerar o tempo 

e juntar o nascer ao pôr do sol

Quero desacelerar o tempo

e sempre que olhar para ti

ainda faltem anos de luz 

para a Terra rodar e girar

o tempo que estive sem ti



segunda-feira, 20 de junho de 2016

Cuidados a ter com a exposição lunar




Atenção a quem está... neste mundo.

Hoje o índice de raios ultra-lunares estará no seu nível máximo,

por essa razão aconselha-se à população que se proteja devidamente.

Cuidados a ter com exposição lunar:

Não deverão esquecer o protector de infelicidade,

hidratar o organismo com amor refrescado

e evitar a exposição à Lua entre as 7h da manhã e as 20h.

Poderão olhar diretamente para Ela mas protegidos pelos olhos de quem amam.

Atenção, a exposição à Lua pode causar uma pele mais jovem por mais tempo.

Um escaldão de Lua é sinónimo de Amor.









terça-feira, 14 de junho de 2016

Vivemos encerrados dentro de um corpo #Santa Casa da Misericórdia de Tomar



Vivemos encerrados dentro de um corpo. Um espaço com o qual habitamos, e do qual amamos umas partes e odiamos outras tantas. A anca bem torneada, o nariz mal acabado. O calcanhar pontiagudo, o ombro bem desenhado. Habitamos nele. E como em todas as nossas casas temos de lhe fazer "manutenções" periódicas. Começamos a ir ao ginásio, passamos a comer de forma mais saudável, deixamos de fumar, fazemos caminhadas. Fazemos tudo e alcançamos o objectivo principal: ter a nossa casa como sempre desejámos. 
No entanto nunca nos preparamos para, um dia, desabitar esta casa, nunca nos preparamos para ser vizinhos do andar ao lado. Temos certo, desde o dia em que a começámos a habitar, que aquele será sempre o nosso ninho. Nunca pensamos desabitá-lo.

Ela habitou o seu corpo durante quarenta e um anos. Nunca cuidou dele de forma exemplar, é um facto. Mas cuidou, ao seu jeito e à sua maneira. Umas vezes pintava o cabelo, outras vezes as unhas. Uma altura colocou uma banda gástrica para combater a obesidade. Habitou o seu corpo durante quarenta e um anos. E de um momento para o outro, viu-se  com ordem de despejo daquela casa. Dois bombistas suicidas arrombaram-lhe a porta de entrada, invadiram a sua casa e fizeram-se explodir. Desde então vive fora de sua casa, a olha-la todos os dias e a lembrar-se como era a sua vida antes do rebentamento das duas bombas.  

Há três semanas conseguiu que uma equipa se ocupasse da limpeza da sua casa. Finalmente alguém voltou a cuidar do seu corpo. Sozinha ainda não o consegue fazer, no entanto aceita que lho façam. Tocam-lhe, escutam-na, falam-lhe, acariciam-na, tratam da sua casa com cuidado. E isto é uma boa parte da cura, da limpeza.

Os seus olhos voltaram a brilhar, a sua língua voltou a humedecer os lábios, a mão direita a mexer ligeiramente e a boca já mexe dizendo algumas palavras. Transmite mau estar quando lhe dói o corpo. Nomeia as pessoas e diz que gosto delas. Continua a viver fora do seu corpo, mas encerrada nele. Certo é que já vai fazendo umas visitas periódicas à sua casa, pé ante pé. Devagarinho, mas vai.

Tenho cada vez mais a certeza de que o toque e a palavra, embrulhados em amor, são a melhor forma de cuidarmos.


...

não podia deixar de tornar público que a equipa a que me refiro é a do equipamento de Unidade de Cuidados Continuados, da Santa Casa da Misericórdia de Tomar. A paciente sofreu do rebentamento de dois aneurismas no zona do cérebro. Desde esse dia (Novembro 2015) até ter dado entrada neste equipamento, em Tomar, nunca tínhamos tido  este acompanhamento (excepto com as equipas extraordinárias da Unidade Neurocirurgia do Hospital de São José). O registo de melhorias tem sido incrível e tudo porque existe cuidado e amor. Temos a certeza. 
É uma equipa extraordinária. Todos fazem parte da equipa, desde a entrada até ao sótão. É um exemplo que deve ser público e aclamado. Já agradecemos e continuaremos a agradecer. 








sexta-feira, 3 de junho de 2016

Dá-me forças...



Antes de Ser Humano , Sou Lontra e tenho os meus direitos ... 

Bom final de semana para todos. Beijos Sabura!

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Dia da Criança, o desafio ao adulto



 
 

 



O normal Dia dos Irmãos ... ou talvez não.



Dizem que aos 31 dias do mês de maio é o dia dos irmãos...

Dia daqueles que tantas vezes dizemos que deviam desaparecer de uma vez por todas! Chatos, carrapatos, mal formados, dependentes de nós, parecem sarna e que causam comichões agudas. 

Como é possível que exista alguém, que ouviu a mesma voz de mãe e de pai, e exista no mundo, da maneira como eles existem?

Não há viagem que não seja um martírio, que eles não ocupem a maior parte do lugar ou que não exijam parar três vezes. Nosso Senhor deu-lhes a inteligência do mesmo tamanho que a bexiga...

Não há festa de aniversário, nossa, onde eles não estejam. Pior... que não exijam a presença dos seus amigos para não ficarem tristes... triste fico eu com a vista que tenho, no início de mais um ano de vida.

Não há saída noturna, festiva e feliz, que eles não queiram colar a asa à nossa boleia.

Não há uma conversa em família que eles consigam SÓ escutar e não opinar, estipular, enganar, denegrir, mal dizer, alcovitar...

Não existe nenhum momento em que eles não tentem pesquisar, decifrar, meter-o-nariz nas nossas vidas.

São os nossos estimado-adoráveis-pseudointeligentes irmãos. Para agravar mais o caso, para onde quer que nos viremos ouvimos "Tudo bem, brother?!", "Oi, bro!" . Já chega, não?! Há limites para a conexão e aceitação, certo? Não viemos obrigados a nada nesta vida, muito menos ao martírio de um irmão. Para além de que nem ninguém nos garante que a linha de montagem daquele ser tenha sido a mesma que a minha. Às vezes conseguimos sair da fábrica com algumas semelhanças, mas sabemos que cada peça é única! Valha-nos Santo DNA.

São os nossos "Brother's". É a nossa vida. E como se isso não bastasse ainda alguém da Rádio Comercial ou da Agenda dos Educadores se lembrou do Dia dos Irmãos! Até quando, oh Jasus?!


Até ao dia... em que tudo isto deixou de ser. Até ao dia em que deixou de o ser nos meus 24 anos de vida.

Durante 24 anos da minha vida sempre existiu esta "festa" dedicada à nossa irmandade. Alguma tareia, queixinhas à mãe, sustos, ódio de estimação, irritação com os tiques, manias, crenças, protecção excessiva à irmã. O normal. Até ao dia em que deixou de o ser. 

De um segundo para o outro toda a normalidade passou a ser uma anormal hipótese de boa memória. O normal passou a ser a anormalidade de uma morte precoce. O normal passou a ser o silêncio ensurdecedor perante a ausência da chatice, dos gritos, das discussões e opiniões. O normal passou a ser um emaranhado de tons da sua voz a circularem pela minha memória. O normal passou a ser eu querer rever as suas feições, as mais ínfimas e já não ser capaz de o fazer sozinha. 

Até ao dia em que deixou de ser um irmão e passou a ser um esforço estóico de memória. 

Tive e terei sempre um irmão. Fui e serei sempre uma irmã. 

(na realidade já não me lembro como é que se está com um irmão, como é que se fala, o que se conta, o que se partilha, como se cumprimenta, como se abraça, como se planeia em família com o irmão, como se conta com a sua protecção, como se acalma os pais, como se festejam as vitórias e como se acolhem os desgostos  como é ter sobrinhos do meu irmão, como é ter uma cunhada, como é confiar segredos, como é estar com alguém com quem nos zangamos e fazemos as pazes sem perceber, como é estar com alguém que esteve dentro da mesma barriga que nós. A única amiga que a Morte tem é a vida, e a sua inimiga de estimação é a memória)










domingo, 22 de maio de 2016

sexta-feira, 20 de maio de 2016

No dia em que ambos se davam à Luz #beijosabura

De tempos a tempos ela aparecia. 

E esse era o dia em que, finalmente, ele e ela se juntavam.

Depois disso ela desaparecia e ele, todos os dias, espreitava, escondia-se, mostrava-se radiante, surpreendia o mundo inteiro só para poder voltar a vê-la. 

Não chegavam a passar trinta dias para que ele a voltasse a ver. À sua frente ela se erguia. Grande, brilhante e poderosa. Os olhares trocados faziam silenciar o mundo. Faziam parar o Tempo. 

E, deslizando um sobre o outro, transformavam o dia em noite, o sol em lua.  No dia em que ambos se davam à Luz.








sexta-feira, 13 de maio de 2016

É a minha Casa. A porta está aberta #beijosabura


Era impossível avisar o dia e a hora em que a porta estaria aberta. 
Por norma ela nunca estava fechada, pelo menos a sete chaves. Regra geral ela estava encostada e, esporadicamente, fechada no trinco.
Ou seja, quem quisesse podia arriscar e passar por lá. Bater à porta e esperar, espreitar pela nesga ou simplesmente entrar.
Ele arriscou e um dia aproximou-se. Espreitou pela nesga da porta, e anunciou a sua entrada, alto e cheio de segurança.

Ela deu-lhe as boas vindas e perguntou-lhe se tinha a certeza daquela acção. Afinal de contas, não é todos os dias que libertamos o espaço para uma visita, nem é todos os dias que alguém está disposto a visitar.

Entrou. Acompanhava-o lado a lado. "Estás preparado?"

Aqui é a cozinha, ainda tem o cheiro do pudim de atum que ele gostava de preparar e da sopa de beterraba. Também ficou o aroma das especiarias trazidas das suas viagens e do jasmim que trouxemos de um passeio e plantámos naquele vaso. Não há uma toalha que não tenha nódoas das noites longas de vinho. No frigorífico ainda resta um pedaço de queijo e umas laranjas que costumava trazer das árvores que encontrava nas suas viagens. Na porta do contador um folha de excel onde escrevíamos as contagens da electricidade. As gavetas estão arrumadas como as de casa dos meus pais. E aqui ficaram os tachos da minha amiga Tri, que ficou cá uns meses. Estás preparado para conviver com estas nódoas, com estes cheiros, com esta arrumação?

No corredor ainda estão, escritos na parede, os recados que deixávamos ao dia, ao mundo ou ao outro. E permanecem ainda algumas molduras com fotografias muito bonitas.Está também o mapa mundo, onde assinalo todos os lugares por onde viajei, na vida real, com amigos, nos amores, na maionese. Onde vires uma bandeira podes ir buscar a lupa e espreitares o que nela está escrito. Em todos os lugares fui feliz, e de lá trouxe uma mensagem.
Estás preparado para atravessar este corredor, olhar estas paredes, apanhar as bandeiras que caem ao chão e construir novas bandeiras?

Na sala algumas coisas foram mudadas. Mas a luz continua a mesma. Os sofás são novos e os almofadões no chão também. O espaço para a lareira permanece o mesmo. As molduras vão aumentando, de ano para ano. A televisão passou a um lençol e o projetor que ali vês, era do pai do meu primeiro namorado,ainda hoje nos falamos e, de vez em quando, ele vem até cá a casa cuidar do aparelho. 
Estás preparado para estares nesta sala, uma sala que quer que estejamos e sejamos?

No quarto, o que resta é invisível aos teus olhos. É visível ao meu coração e aos meus olhos. Naquela caixa de madeira está um anel que ele me ofereceu. Na outra estão as pulseiras que as amigas e eu temos em comum, e ali, naquela taça, o fio que ele me trouxe do Vietnam. Uma peça linda, delicada, harmoniosa. Continuo a usá-lo. 
Estás preparado para te deitares neste quarto comigo, fechares os olhos e ficarmos visíveis um para o outro?

Na casa de banho guardo frascos de perfume, uns quase cheios outros quase vazios. Perfumes que também ele me ofereceu ou que eu comprei num lugar especial. Sou forte na memória olfactiva e cada frasco aberto leva-me a uma cidade, um país. Viajo nestes frascos. 
Estás pronto a ficar e a ver-me viajar?

No jardim estão árvores e, naturalmente, muitas raízes na terra. Não se podem arrancar. Seria matar alguma coisa boa, viva. 
Estás pronto para cuidar delas? 

É a minha Casa. A porta está aberta. Ficarei feliz se nela quiseres habitar e honrarei o momento em que quiseres partir. Nela eu Sou e tu poderás  Ser. Quando deixares de me sentir em Casa chama-me ou bate as palmas, às vezes ando lá por fora pelo jardim e  distraio-me. 

É a minha Casa. Tem terreno fértil, todos estão convidados a cultivar. Só têm de trazer as sementes. Construí um lugar seguro para o Amor. 



quinta-feira, 12 de maio de 2016

eu vou ao fundo do poço #beijosabura


vai-se ao fundo do poço, 
vai-se e fica-se lá.
avisam-se os amigos que estamos lá, 
não se disfarça a cara a ninguém,
avisa-se alguém da localização do poço,
do perímetro, profundidade, se está seco ou se tem água.
avisa,
se te apetecer conversar com alguém podes chamar quem avisaste
e assim nunca vais estar sozinho.

não ter vergonha de ter descido ao fundo
não ter vergonha dos nossos olhos transformados em poços,
escuros.
ter coragem para nos deixarmos ficar sentados e quietos
com olhos de poços cheios
ter coragem para verter essas águas para os nossos pés, pernas, mãos, corpo
gritar, escavar, cair, bater 
deixar cair
deixar de querer subir

não ter vergonha  de ter descido tão fundo
ter coragem para gritar, escavar, cair
deixar de querer subir

olhar o caminho da descida, passo a passo
olhar o fundo
olhar o céu
contemplar a descida, acolher as dores dela
ter coragem para as gritar
deixar estar, ali

só estar... estar só...

chamar quem avisaste, 
ter coragem,
gritar,
silenciar e acolher as dores que restam da descida
cuidar delas, cuidar de ti
cuidar

chamar quem avisaste, quem nunca saiu da beira do poço
quem cuidou
sorrir-lhe
gritar-lhe amor
aproveitar a força para erguer
para olhar o caminho de descida e vê-lo como o caminho certo para subir

chegar ao topo, 
agradecer a descida,
sem ela nunca teríamos tido a hipótese de subir
de cuidarmos de nós,
de nos resgatarmos 
de amarmos,
sem ela nunca teríamos tido a hipótese de chegar à superfície
e respirar novamente.









sexta-feira, 22 de abril de 2016

Lee Fields & The Expressions: Wish you were here



Muitos meses e muitos mais dias em desnorte. As palavras saem para o caderno, em grafite e em segredo. 

Se alguém for passando por aqui, só posso dizer que tenho muitas saudades deste lugar. Que me foi "cortado" a acesso a este espaço mas estou quase a reaver todas as palavras-passe para poder entrar sem pedir licença a ninguém.

Já voltei a pegar na bússola e a acreditar no Norte magnético. Estou em reajuste. Espero voltar em breve. Era bom sinal.



segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

29 de fevereiro 2016 , ano bissexto

29 de Fevereiro do ano 2016.

Hoje temos mais vinte e quatro horas para viver. 

Hoje temos mais vinte e quatro horas de Tempo. 

Hoje todos nós tivemos mais vinte e quatro horas para dar e receber. 

Eu dei. Eu recebi. E um dos meus Presentes neste dia foi uma provocação, em forma de pergunta:

"E se o Tempo parasse, mas só para alguns, perdidos nas pregas do Tempo?"

Aceitei este presente e dei-lhe a seguinte volta ao laço:

"Nós moramos na barriga do Tempo" Bartolomeu Campos Queirós . Se o Tempo parasse sentava-me num vão de escadas, com o Sol a aquecer-me as linhas que o tempo me marcou no corpo, e desembrulhava o Passado. Escutava-o num programa de rádio, na frequência 29.2, e de seguida embrulhava todas as suas memórias em papel de carta, amarelecido pelo Tempo e com cheiro a lareira. Depois, desembrulhava o Presente, com muito cuidado e com as folhas embrulhava o Futuro para que, para sempre, fossem  um Presente"


Ainda vão a Tempo de parar o Tempo... 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

TUDO AVARIA


Sabem quando tudo na vida começa a avariar? Depois de várias avarias ao longo dos últimos tempos, hoje, depois de mais uma avaria, andei a comparar as avarias "externas" e "internas" da Vida. Não há coincidências, certo? 



TUDO AVARIA

Avaria o radiador que gera o frio

Avaria o termostato que gera o calor da paixão;

Avaria o radiador do ar condicionado que acalma o calor

Avaria o amor e gela o corpo;

Avaria o vidro do carro e permanece aberto

Avaria a porta do amor, empena e fecha;

Avaria o telefone e não há recuperação

Avaria a conexão;

Avaria o depósito da água para os vidros

Avaria a capacidade de ver o horizonte;

Avaria o pneu que faz movimentar

Avaria a marcha do encontro;

Avaria o computador que armazena

Avaria a minha emoção, a minha razão;

Não sou avariada, não. Posso ser a Variada mas Avariada, não.

Que peça falta? 

Que mecânico concerta coração?

Cansada de estar na fila de espera da Oficina.

Depois disso só os meus pés me agarrarão à estrada, não quero mais pneus, radiadores ou máquinas

Depois disso passarei a amar andando, passarei a andar amando, 

e nunca mais entrarei numa oficina, a não ser na minha

sem fila de espera, sem cobrança, sem recibo. Só eu.

(no final desta escrita o computador que armazena, ressuscitou... levou-me isto a pensar que tenho de largar muitas coisas que armazeno cá dentro, arrumá-las num "coração externo" e só lá voltar de vez em quando) 

   

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

faz parte





"faz parte deixar para trás

faz parte planar e picar

faz parte descer e queimar

faz parte deixar de acreditar

faz parte pisar o chão

faz parte deixar de iludir

faz parte não olhar em frente

faz parte não voltar a querer

faz parte querer lutar mais

faz parte deixar ir

faz parte voltar a subir

faz parte voltar a rasgar

faz parte deslumbrar

faz parte voltar a sonhar

faz parte voltar a sorrir

faz parte começar outra vez

faz parte ir atrás

faz parte sonhar"





segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Black and white, really?


Não são black and white...tem tanta, tanta cor no olho de quem vê 

Orgulho no meu fotógrafo "a luz do meu Farol, que me faz brilhar mais que o Sol"



#guerreirodevozbranca #8

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Carnaval e a tradição do ocidente



Ensinaram-te a gostar dos outros e não a gostar de ti. Ensinaram-te a mascarar para os outros e não seres tu. Ensinaram-te a responder aos outros e  não a responderes a ti. E hoje sentes-te preso a tudo, e sem nenhum lastro a lado algum. 

O carnaval serve para isso, para voltarmos a ser o que sempre quisemos mas não nos ensinaram, não validaram ou nem educaram para tal. E para isso vestimos o fato de super herói, louco, certinho, rebelde, diabólico, curador, mulher, homem, e desta forma somos quem queremos ser. Envolto em folia, que só assim o Homem se solta e volta a ser Menino.

Três ou quatro dias de folia, mascarados de quem, no íntimo, desejamos ser. Desejamos ser mais loucos, mais audazes, mais corajosos, mais claros. Desejamos ser mais corajosos, audazes, atentos ou sensíveis como os Meninos mas na pele do Adulto.

Que amanhã se coloquem as máscaras de Menino e se deixe em casa as de Adulto...


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

"não mudes"

Não são minhas estas palavras mas hoje, e para estas bandas, encaixam na perfeição. 

Do Blog momentos...

http://momentos04.blogspot.pt/2015/11/nao-mudes.html


"é quando amamos que revelamos o nosso maior egoísmo: querer que o mundo seja à nossa imagem. erro tão puro, de quase inocência, mas tão grande, de quase cegueira. é que a forma como gostamos, ou entregamos, é apenas isso - a nossa forma, que não é repetível por mais ninguém. por isso não o podemos esperar que aconteça, e muito menos exigi-lo. arrepia-me a alma sempre que alguém diz que quer mudar o companheiro. tanto egoísmo, mas mais que isso, tanta burrice. porque somos o que somos, e só por nós podemos mudar. assim, olhem para quem vos quer como a pessoa que é, com os defeitos e virtudes que tem, com a forma de entregar, de mostrar, de dizer que tem. é essa que podem contar para sempre. o resto é apenas a vossa ilusão do que outro é. 

por isso, o elogio mais bonito que alguém pode dar ao companheiro é pedir para que não mude. nada. que fique exactamente como está, porque é assim que se descobriu a atracção, a ligação, a intimidade. foi assim que se descobriu o amor. claro, que com a vida, todos mudamos um pouco cada dia. mas aí, é algo que vem de dentro e não que é feito por pedido de alguém. quando duas pessoas estão juntas e mudam porque o outro pede, estragam-se. anulam-se. matam-se um pouco em cada mudança. quando duas pessoas estão juntas e naturalmente, cada uma, muda sem quase ter consciência que está a mudar, aí sim, crescem, amadurecem, ficam melhores pessoas. juntas. 

foi assim que fiquei mais homem, mais amante, melhor companheiro, e até, admito-o, mais confiante. não porque mo pediste, mas porque mo despertaste. não porque algum dia disseste: muda isto ou aquilo, mas pelo contrário, por saber que era tanto para ti, que passei a confiar mais no meu instinto. foi assim que ficaste mais mulher, menos fechada no teu mundo, menos gajão, e até, tens de admiti-lo, mais feliz com o amor. não porque te pedi alguma vez que o fizesses, mas porque descobriste, por ti, que havia outra forma de entregar o olhar, o beijo, e até o corpo. 
é bonito vermos no espelho a imagem a mudar e gostarmos do que vemos. mas mais, sabermos que é por ter alguém especial ao nosso lado, que nos potencia o que éramos no ponto de partida. podem haver mil problemas, indecisões, mágoas, dificuldades, mas quando sabemos que crescemos juntos, que somos melhores pessoas juntos, a viagem é sempre única. e esta mudança sim, mais que as palavras, ou o amor, fica para sempre."