segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A morte vive grávida de Tempo




Sinto-a a pairar e a querer ficar.

Imagino-a a aguardar pacientemente,

sentada num banco, de costas curvadas, pé assente na trave do banco, mãos a segurar o queixo

Imagino-a de rosto sofrido

e pele enrugada pelo excesso de vida que tem, 

olhar sereno.

Por vezes de passo indeciso, outras tão decidido quanto o seu ser.

Imagino-a em longas conversas

tentando seduzir quem lhe resiste...

quem caminhou todo o Tempo sem nunca dela se lembrar

quem fez da vida o seu maior Presente.

A morte vive grávida de Tempo 

todos os dias gera novos filhos.

Nenhum deles o deseja ser

mas todos somos filhos dela também

Vivemos em caminho, nunca esperando.

A morte nunca caminhou na passadeira vermelha,

ao contrário de nós que pudemos avistar tanta paisagem

fazer tanta paragem e viver cada minuto... 

como se ele 

fosse esse último.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Como explicarias ao teu filho se fosses tu o refugiado?



Daquelas horríveis imagens do nosso século

já pensaram que

não fizeram mal a ninguém e têm de deixar tudo o que conquistaram em toda a vida e, fugir ... pensem em tudo o que têm neste exacto momento e imaginem-se sem ele

não fizeram mal a ninguém e têm de fugir de tudo ... pensem em como se sentem quando são vítimas de alguma injustiça que naturalmente vos revolta, agora imaginem-se com esta injustiça às costas 

não fizeram mal a ninguém e arriscam-se a morrer na fuga. Arriscam a sua vida e a dos que amam ... pensem no que fariam, no pânico que vos assolaria, na forma como o fariam, na forma como protegeriam os vossos filhos, na ausência de um colete salva vidas, ou da escolha entre uma vida ou outra... 

Em pleno século XXI não há grandes vantagens, para a humanidade, em aqui ter chegado, sobretudo no que toca ao humanismo com que nos relacionamos.

Daquelas horríveis imagens do nosso século, penso 

E se fosse eu a ter de fugir? E se eu tivesse de tomar a decisão de colocar a vida do meu filho em risco para fugir?

Em desespero, acredito que preferia colocar as nossas vidas em risco para fugir, do que morrer sem ter feito nada. E se conseguisse cá chegar? O que faria? Eu, que no meu país era aceite, estava integrada e tinha a minha identidade segura, agora chegava a um lugar onde era vista como uma pobre coitada, com um filho ao lado e com mais nada na mão. Onde ficara a identidade que construí? Quem olharia para mim e me veria como uma mulher, igual a tantas outras? E para o meu filho? Como teria de eu, mãe, desdobrar-me para conseguir fazer tudo o que sempre sonhei, para o bem estar do meu filho? O sonho morria? Renascia? Renovar-se-ía? Como se explica, aos nossos filhos, que temos de fugir do nosso país porque há guerra? Como se explica, aos nossos filhos, os maus tratos que somos sujeitos só por termos fugido?  Como se explica, aos nossos filhos, que não temos culpa de nada mas que mesmo assim há pessoas que se vão colocar à nossa frente com bastões e armas? Como se explica, aos nossos filhos, que vai passar fome, que vai ouvir grito e tiros apenas porque está a fugir de um país em guerra? O que se explica sobre Amor aos nossos filhos? Provavelmente nada. Provavelmente não há palavras nestes momentos. Provavelmente os nossos filhos perceberiam o Amor pela coragem da fuga, pelo colo na fuga, pela força dos braços dos pais, pelas lágrimas e sorrisos que ainda possam existir na fuga, pela brincadeira com as pedras encontradas no caminho...

Nascemos num só mundo e sempre me fizeram confusão todas as fronteiras que barram a humanidade. Não somos mais, nem menos que ninguém, somos gente. Igual na espinha. Diferente na escama. E essa diferença não nos dá nenhum direito superior, pelo contrário, deveria dar-nos a igualdade.

Explicarias ao teu filho que o mais importante é o Amor.