quarta-feira, 29 de julho de 2015

... quando a morte bater na porta ao lado da vossa


... e quando ela bater na porta ao lado da vossa
nao digam a quem ficou
que é preciso ter força 
nao digam para ter coragem
nao digam que foi o melhor
nao digam que a vida continua
nao digam que chegou a hora de apoiar quem fica
nao digam nada
ou digam, mas sem abrir a boca,
abram antes os braços
abram um sorriso
abram o ceu negro
e sejam luz e calor,
nao digam pêsames
digam que estão triste pela perda
nao digam os meus sentimentos,
digam que estão ali por amor
ou nao digam nada, 
porque quem fica deixa de ter coragem
deixa de ter força
deixa de querer vencer
deixa de acreditar
deixa de estar
deixa de perceber
deixa de existir no todo que foi até então
e tem direito a não comer naquele dia
a não falar
a não atender
a não esperar
a não sorrir
a não estar
a não aceitar
a não querer,
porque quem fica, fica sem parte
e parte para lugar nenhum,
fica com vazio
e esvazia-se de tudo,
quando a morte bater na porta ao lado da vossa
encham-se somente de força para um abraço
de coragem para um silêncio pacificador
e de amor para continuar a estar...
  

domingo, 26 de julho de 2015

(de/para quem conhece a sensação de estar longe dos nossos filhos e do seu regresso...)


Chegar basta. Um chegar que faz com a vida comece a surfar na onda. Tudo o que existe de exterior a mim, e que seja negativo, desaparece. E fico com ele, num espaço e num tempo, que mais ninguém conhece. Num espaço ausente e num tempo parado.

Chegar basta. Um chegar que às vezes vem meio apressado e despenteado mas que, quando acontece, tem a força de parar o tempo e de pentear pacientemente o final do dia. E fico com ele, chamado-o aos meus olhos, e fazendo-os parar um segundo infinito.

Chegar basta. Um chegar às vezes mais cansado e refilão do que o habitual. E fico com ele, a acolher as queixas ao mundo, as injustiças da vida, a má sorte que tem, e elas vão-se dissipando no meu colo.

Chegar basta. Um chegar marcado há um dia que é recebido com normalidade. E fico com ele, com essa normalidade, que é um lugar de paz.

Chegar basta. Um chegar de há uma semana que é recebido com todas as forças físicas que temos. E ali ficamos nós em abraço apertado, em inalações profundas às bochechas e aos cabelos, em sorrisos, em encosto de cabeça no ombro, em olhar nos olhos no fim deste chegar e no início da nossa partida. 


(de/para quem conhece a sensação de estar longe dos nossos filhos e do seu regresso...)


(o chegar de hoje, foi recebido com tanta força física que conseguimos magoar-nos três vezes)


  

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Congresso MEM, Lisboa 2015... eram só Mariazinhas!



No tempo "Crático" que temos vindo a atravessar onde as escolas, os professores e as famílias são colocadas na bitola da economia e não da educação, há um conjunto de pessoas Educadoras que se mantém firme e que continua a acreditar. 

Refiro-me à Associação do Movimento da Escola Moderna "uma associação que se assume como um movimento de cidadania democrática de professores, os quais decidiram fazer da sua profissão uma actividade de intervenção nas escolas" (Sérgio Niza). E é bem verdade. O MEM português este ano faz 50 anos e, por estes dias, realiza no Instituto de Educação o seu 37º Congresso. 

Ontem fui assistir ao teatro/momento lúdico preparado pelos responsáveis das regionais. E lá estava a Madeira, os Açores, Vila Real, Algarve, Évora, Setúbal, Lisboa, Porto, Tomar, Seixal/Almada... umas dezenas de pessoas que, após um ano duro de trabalho, ainda tem a coragem e a força de, não só preparar um congresso desta envergadura, como também de montar exposições, fazer comunicações e preparar com os colegas da sua regional um momento puramente lúdico para apresentar aos seus pares. 

Costumo dizer que, ser professor é uma tarefa difícil, mas ser professor do MEM é sobrepor o triplo a essa dificuldade. Uma dificuldade que, a meu ver, se centra no facto de termos vinte e muitos alunos, e onde todos são considerados mediadores de aprendizagens. Ser professor de manual é fácil, basta saber ler. Ser professor admitindo que temos à nossa frente vinte e muitos seres que são igualmente formadores é complexo. O exercício da atenção plena é uma das ferramentas mais utilizadas no processo educativo por parte de alguém que se identifica com este Movimento. 

Não são raras as vezes que oiço ataques completamente infundados ao MEM. "os miúdos é que mandam na sala de aula..."; "os miúdos trabalham no chão..."; "aquilo é uma anarquia...". E eu pergunto sempre se estão a falar do Movimento da Escola Moderna ou de algum outro movimento copy paste. Quem o diz, das duas uma, ou não viu um professor a trabalhar com o MEM, ou não sabe ainda o que é o MEM. 

Quem se assume como professor do MEM assume o compromisso de diariamente ter uma amante consigo. Aliás, ainda ontem se disse que, o que os homens não querem é ter uma esposa professora do MEM. O exercício constante de formação, de participação em encontros (semanais ou quinzenais), de congresso, de registos escritos, de constante avaliação fazem com que, diariamente, se leve trabalho para casa e que se devolvam respostas no dia seguinte. 

É fácil identificar um professor do MEM a esta altura do ano: anda algo arrastado, mas  com um ar feliz e de alma cheia, por ter estado um ano inteiro a trabalhar (contra a maré Crática) em prol da construção conjunta de saberes, entre alunos e professores. O MEM é uma comunidade de aprendizagem que vai fazendo caminho. Vai juntando gente com duvidas, anseios, e sobretudo com muita vontade de cuidar dos cidadãos que tem à sua frente. 

Ontem emocionei-me ao ver aquele colectivo de gente que continua a acreditar como se fosse a primeira vez.

(hoje (22julho a 4 agosto 2015) sai no JL/educação quatro testemunhos, de professores, de como tem sido a experiência dentro do MEM e uma grande entrevista ao Sérgio Niza. Vale a pena ler.)




Ontem vi muitas Mariazinhas (daquelas que o Fanha escreveu no seu "Diário inventado de um menino já crescido") na plateia. Para saberem quem elas são aqui fica o registo: 



  

Parabéns ao MEM pelo 50º aniversário!   



   

domingo, 19 de julho de 2015

Expo 2015 - Lisbon South Bay


É sempre difícil o exercício de olhar para dentro e de perceber, nas entranhas, o que por lá se passa. 

Sentir a emoção, identificar, olhar, perceber e não julgar. Ter tempo para o fazer é uma tarefa sempre difícil. 

É mais fácil sentir e colocar na prateleira à espera de mais tempo, ou ignorar. E os dias passam a correr e nas prateleiras vão-se amontoando pequenos bibelôs (ou ficam para sempre vazias quando nem sequer conseguimos sentir o que quer que seja)... o bibelô dos "fornicoques" que nos causa a reacção daquele colega; o bibelô da ansiedade provocada pela não-resposta; o bibelô do medo provocado pela rejeição; o bibelô da neura-cerebral provocado pela falta de educação dos outros e por aí adiante. Entretanto já enchemos umas quantas prateleiras que ficarão a ganhar pó e, por onde, de vez em quando, passaremos os olhos, suspiremos e pensemos "um dia volto aqui com tempo e limpo tudo isto, agora tenho pressa".

E ali ficam elas a carregar com o pó dos dias. Às vezes é uma ventania que os derruba, outras vezes ficam tão colados à prateleira que desistimos deles. 

Ser consciente deles e dar-lhes atenção é o que quero. Nunca gostei de bibelôs e nunca os tive na minha casa exterior. Vou-me apercebendo agora que, afinal sempre os tive na casa interior, mas, como me disseram hoje "a minha tranquilidade balsâmica" permite que eu os aceite naquelas prateleiras e consiga conviver com alguns deles.

Não são eles que me constroem alguma "tranquilidade balsâmica", mas sim as inúmeras exposições de bibelôs que já visitei na vida. Foram elas que me ensinaram a aceitar a exposição de emoções que agora está patente em mim, e fechada para o público em geral.

Quero fechar esta exposição, renovar o espaço e acolher outros bibelôs, de preferência mais pequenos...   



  

sábado, 18 de julho de 2015

Tempo passado, presente, futuro



... e há dias em que se sente o peso do mundo entre o topo da cabeça e a cintura escapular. dias em que não se consegue endireitar as espinhas, aproximar as omoplatas, ou abrir a caixa torácica. daqueles dias em que se soma tudo o que é menos bom, a conta bancária, o local de trabalho, a casa, as distâncias, os projectos, o futuro, o presente e, o melhor somatório é conseguido quando se acrescentam algumas parcelas do passado.

dias em que, olhar para alguns momentos do passado, permite descansar do presente e abolir o futuro.

não sendo do género saudosista gosto de desenrolar a memória nas imagens do passado, quase como voltar aos álbuns em formato de papel, mas de momento que nunca foram fotografados. não se trata de uma "viagem na maionese", essa faz-se sempre no caminho para um futuro, mas sim, uma viagem com origem no agora e destino no antes. 

um antes que mesmo agora permanece desconhecido. Olhar o passado a partir do presente é ser espectador em plateia VIP, onde temos o melhor ângulo de visão e podemos tratar por tu o actor principal. E tratar por tu é poder ter confiança com ele para lhe dizer como sentimos o seu espectáculo, com tudo o que teve de bom e de mau, e, se formos especialista na matéria, podermos ajudar a melhorá-lo. 

é isso que se faz quando, nestes dias, se olha para o passado. Olhamo-o, revemo-lo a partir do meu olhar ângulo, e com a distância do presente, ajudamo-lo a tornar-se mais conhecido e mais consciente. dias em que olhar para alguns momentos do passado, permite descansar do presente e abolir o futuro. 


   (na mouche estes 10 minutos de viagem "Vladimir Martynov Come In")

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Há uma geração de gente que não foi amada, foi criada

Há uma geração de gente mal amada e mal amanhada. 

Há uma geração de gente mal cozida no colo dos seus pais, e mal cosida com as linhas que unem e tecem o amor. 

Há uma geração de gente que não foi amada, foi criada. Há uma geração que não sabe amar, sabe criar. 

Há uma geração de gente que sofreu muito por conseguir e que faz sofrer para conseguirem.

Há uma geração de gente que não recebeu colo, e por isso não o sabe dar.

Há uma geração de gente que não ouviu, e por isso não sabe dizer.

Há uma geração de gente que não falou, e por isso não sabe falar.

Há uma geração de gente que tem sede de poder, e por isso só bebe dessas fontes.

Há uma geração de gente que não gosta de si mesma, e por isso não consegue gostar de mais ninguém.

Há uma geração de gente que sempre precisou de alguém, e por isso pensa que todos precisam dela.

Há uma geração de gente que nunca olhou para si mesma, e por isso é incapaz de olhar para os outros.

Há uma geração de gente que foi tão mal amada, que nunca chegou a viver na vida. Apenas sobreviveu. 

Há uma geração que não foi amada, foi criada e sobreviveu. Sobreviveu à fome, à emigração, à falta de habilitações, à falta de cuidados de saúde, à revolução, à explosão do mercado e às crises financeiras. Sobreviveu à partida para a guerra, sobreviveu à incerteza do regresso. Sobreviveu ao abandono da terra, e à incerteza da cidade.

Há uma geração de gente que sempre sobreviveu e que espera que os mais novos sobrevivam também, porque para eles, viver é um luxo que não está ao alcance de todos. 

Há outra geração de gente que anda à procura deste colo que não existiu, das palavras que não ouviu, dos abraços que não recebeu. Há uma geração de gente que é valente e encontra, perdido no meio do tempo da sua vida, como é amar-se, amar e ser amado...







sexta-feira, 10 de julho de 2015

Há gente que diz que não devemos voltar ao sítio onde fomos felizes. Não concordo.

Do inesperado da vida

Diz-se que não devemos voltar ao sítio onde fomos felizes. Não concordo.

Não concordo, desde que consigamos levar uma bagagem diferente daquela que anteriormente levámos. Não adianta voltar ao mesmo sítio, seja ele qual for, tenha ele o tamanho que tiver, esteja ele onde estiver, carregando as memórias passadas e as expectativas futuras porque ele já não existe. Tudo estará diferente. O mundo já girou mais umas voltas, o sol e a lua já se beijaram umas quantas vezes mais.
Adianta voltar ao lugar onde fomos felizes, se pensarmos que será um novo lugar. 

Já me desiludi (somente porque me iludi) algumas vezes, quando tinha menos Outonos no corpo, querendo voltar ao mesmo lugar. Hoje, não. Sei que não é possível voltar ao mesmo lugar, onde já fui feliz. Eu estarei diferente, ele também. Por isso, volto ao sítio onde já fui feliz.  




sexta-feira, 3 de julho de 2015

Há dias ao contrário



Há dias ao contrário

quando acordas de manhã, levas o teu filho ao teu surf, apetece-te por tudo ficar mas não podes... devia ser ao contrário

quando visitas uma amiga, na cama de um hospital e vês o que não queres... devia ser ao contrário

quando percebes, finalmente, a razão pela qual a carta nunca chegou, porque alguém trocou o lugar do destinatário pelo do remetente... devia ser ao contrário

quando recebes uma carta, escrita com tinta de esferográfica e muito amor, e o envelope foi escrito de pernas para o ar... devia ser ao contrário

quando fazes contas caseiras orçamentais e, em vez de sobrar, falta...  devia ser ao contrário

quando uma ceramista te dedica um poema, e tu nunca conseguirás dedicar-lhe uma peça em cerâmica... devia ser ao contrário 

... 

finalmente, e contrariamente ao que estava previsto,

quando o fim de semana é alterado, fica ao contrário, e tu passas a poder entregar-te a dois braços... o contrário deu certo e o dia acaba no sítio onde começou... alinhado em amor.