quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

24 de Dezembro ... o que era, o que é


24 de Dezembro, 2014

Naquele tempo eram 2 avós, 6 filhos, 6 genros e nora, 9 netos. Vinte e três pessoas certas à mesa e mais umas quantas flutuantes, consoante a maré dos namoros. A chegada à casa era feita a conta-gotas. Primeiro chegavam os que vinham de longe e depois começavam a aproximar-se os que moravam ali perto.
Uma casa branca, no meio de um pinhal. Uma chaminé a fumegar de manhã à noite. Uma mesa corrida cheia de tachos e panelas. Bancos corridos feitos com tábuas quando as cadeiras faltavam. Alguidares tapados onde levedavam as massas. Enfeites do pinheiro, e da casa, a cargo dos netos. Prendas, devidamente identificadas, colocadas na sua base. Mulheres na cozinha, homens na adega. À ceia, tal como na Noite de Natal da Sophia, os copos de cristal também saíam do armário. Um louceiro azul claro com puxadores de metal. Os pratos eram de motivos diversos, uns com pássaros desenhados (e os netos preferiam sempre estes) e outros com o Papa João Paulo II. Todos os anos a ementa era a mesma mas era sempre como se a provássemos pela primeira vez. Caras de bacalhau, batatas cozidas, couves e muitas sobremesas. Finda a refeição enquanto umas mulheres lavavam a loiça com a água aquecida na lareira, outras juntavam-se ao lume para fritar as massas já levadadas. Entretanto, o café de cevada era aquecido nas brasas em grandes cafeteiras. O cheiro da casa andava entre o fumo, o café e os fritos, colando-se à roupa escolhida a dedo para a cerimónia. As crianças, após a ceia, saíam de casa para que os nervos não dessem cabo das prendas, nem da tranquilidade dos adultos. Saíam de casa e quase sempre íam jogar às escondidas, numa noite escura mas estrelada. Tudo era esconderijo, as couves da fazenda do vizinho, os pinheiros e sobreiros do pinhal, os carros estacionados. Havia quem se aventurasse a ir mais longe e saía com as “pasteleiras” dos avós para uma volta maior. Findos os trabalhos de casa, era dada autorização a duas crianças para distribuírem os presentes. Para mim, como só aquela festa fazia sentido, transportava os presentes que tinha recebido em minha casa, para casa dos avós. A festa era aquela. Onde a cerimónia era levada a sério, onde toda a família se juntava em casa dos mais velhos. Quando soavam as doze badaladas o mais velho, Mário, lançava os seus foguetes. Naquele momento nascíamos todos de novo. A festa era sempre a mesma, mas era sempre a primeira vez.
Neste tempo de agora são 10 avós, 8 filhos, 1 genro e 15 netos. A mesa já não é corrida. Foi dividida em várias partes e levada por cada um para sua casa. A cerimónia ficou na memória e na saudade. 
Agora, na nossa parte, somos dois avós, uma filha e um neto. Os rituais mantém-se, excepto as escondidas no pinhal e o lançamento dos foguetes. Hoje deixamos velas acesas durante a noite. Somos felizes assim e sabemos o quanto somos sortudos por permaceremos juntos, mas falta cá gente, cheiros e barulhos. Talvez o que nos falte cá em baixo, seja aquela Luz  da Memória que nos ilumina cada vez com mais intensidade. 

3 comentários:

  1. Lindo e emocionante, como sempre! Volta sempre também por aqui!!!

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    1. Que bom saber-te também por aqui !!! Até já! Obrigada, amiga!

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  2. Vi tudo, amiga, e mais além... a cara do vizinho depois das escondidas... imaginei o sorriso triunfante da Rita a chegar com as suas prendas... Vi, cheirei, senti o calor.

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