quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

na fila de trânsito somos todos iguais

na fila de trânsito somos todos iguais
somos todos máquinas com as mesmas características
4 rodas, portas, chapa metal, faróis, vidros
deslocamo-nos em caminhos
mas ninguém imagina como está quem vai lá dentro
somos gente que se desloca em caminhos
mas ninguém sabe o que vai lá dentro
vamos mais depressa, mais devagar, de vidros abertos, vidros embaciados
quem vem atrás, ao lado, que ultrapassa, apita, chateia-se, refila
mas ninguém sabe o que vai lá dentro
hoje, na fila de trânsito, passámos por vários carros
e ninguém soube o que ia lá dentro
tenho a certeza que nuns iam pessoas que faziam aquele caminho pela última vez
outros que nem sabiam que estavam a fazer aquele caminho
outros em que as lágrimas caiam pela cara
outros que cantavam com os filhos a música que passava na rádio
outros que vinham com dores
outros que tinham acabado de perder o emprego
outros que ficaram felizes porque receberam a melhor notícia da sua vida
outros que acabaram de saber o resultado do exame médico
outros que iam felizes para férias
outros com o coração apertado por não levarem dinheiro na carteira

na fila de trânsito somos todos iguais
nesta vida, por fora, somos todos iguais
somos todos pessoas com as mesmas características
duas pernas, dois braços, dois olhos, nariz, boca, ouvidos
deslocamo-nos em caminhos
mas ninguém imagina como está quem vive lá dentro...
Quando voltar a estar na fila de trânsito vou respeitar
quem anda mais devagar
quem quer acelerar e ultrapassar, com devido cuidado
quem abre as luzes de emergência
quem apita desmesuradamente
quem refila
quem ouve a música em altos decibéis
porque, tal como na vida, ninguém sabe o que vai cá dentro,
nem eu sei que vai lá dentro


Boa viagem a todos

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