segunda-feira, 15 de julho de 2013

As bruxas existem

Que as bruxas existem todos nós sabemos, mas descobri-las poucos conseguem, infelizmente. Só os que mantém o olhar limpo o fazem com facilidade. Com o andar na vida "destreinamos" o olhar de águia, o faro de lobo, o ouvido  de morcego, elementos essenciais à sobrevivência da espécie. Mas há quem o tenha apurado, muito apurado.  Hoje, ao contar histórias a um grupo de meninos de quatro, cinco e seis anos, mais uma vez veio esta conversa das bruxas à baila. E sim, todos nós sabemos - muito melhor as crianças - que elas existem, que se vestem como as pessoas normais, que andam normalmente, comem normalmente, sorriem-nos normalmente, acariciam-nos normalmente, falam-nos normalmente...em suma, parecem pessoas normais. Os adultos têm uns truques para as desmascarar, mas as crianças não precisam deles. Simplesmente se afastam ou fazem má cara à pessoa em questão. A validar esta provocação tive mais uma vez a resposta de um deles : "Eu sei que elas são, e não é nem o meu pai, nem a minha mãe, isso eu sei!". 
Era eu pequena quando me disseram que, a senhora que se sentava em frente ao telefone da Dona Kitas, era uma bruxa. De facto, aquela senhora tinha tudo para o ser. As suas vestimentas eram escuras, olhava para as crianças de lado, não sorria para ninguém e escutava todas as conversas feitas no único telefone da aldeia. Certo é que, com o espírito jovem e os olhos apurados, eu enfrentava-a como se de uma batalha se tratasse. Todas as vezes que me dirigia à cabine telefónica, discava o número de costas para ela, e após o primeiro sinal de chamada virava-me e olhava-a nos olhos. A batalha estava iniciada. Silêncio entre nós, só olhares. Longos olhares, determinados e fixos, sem vacilar... até ao momento de me despedir na linha e pousar o auscultador. Aí, o suspiro revelava uma saudade aniquilada e uma bruxa a caminho do inferno. Venci-lhe todas as batalhas, tenho a certeza...
A poeira que os adultos carregam aos ombros, ensombram muita da verdade que os nossos olhos conseguiam alcançar. Queiram os olhos das crianças continuar a olhar, e nós com elas aprender...

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