terça-feira, 12 de maio de 2015

Quero encarar de frente a violência, com todo o meu amor e deixar de correr, em círculos, à volta da mesa...



(não devias estar a ler isto porque na realidade eu não devia estar a escrever)


A exposição à violência sempre fugiu do meu curso de vida. Nunca foi exposta à violência física. Verbal e emocional tive alguns exemplos por perto, mas a física nunca. A única palmada que quase tive gravada na pele não chegou a acontecer. A figura de quem tinha medo era a do meu pai. Pessoa que tinha, e tem, uma forma especial de mostrar o seu amor, em muito diferente da minha, é certo. Tinha-lhe medo, e um dia fugi dos dois a correr à volta de uma mesa circular. Tinha feito asneira e aquela palmada aproximava-se com grande convicção do meu corpo. Não fui apanhada por nenhum dos dois. Depois desse episódio nunca mais corri. Não corri porque preferi fingir que nem existia na minha vida. Quanto menos contacto melhor, quanto menos confiança melhor, e em pouco se devia à palmada. Era a vida a crescer assim. Eu com medo, e portanto sem confiança, sem respeito, sem admiração. Lembro-me de estar apaixonada por ele até por volta dos meus doze anos. Lembro-me de me desapaixonar e de me sentir sozinha. Também me lembro que aí se fechou mais uma porta entre nós. Desapaixonei-me e nunca mais voltei. Mas ainda hoje o que me mais me impressiona é a violência física. E o que as pessoas se transformam quando estão em posse dela. Lembro-me disso no meu pai. Assustava-me só o facto de pensar que ele se podia chatear. Hoje, continua a impressionar-me as pessoas que agem de forma violenta quando estão zangadas. Os olhos cerram, o peito levanta, os joelhos enrijecem. E o meu corpo desapaixona-se delas num ápice e foge para sempre. 

Por circunstâncias protegidas nunca fui exposta a violência física ou verbal durante a minha vida. As discussões na escola eram tranquilas, nunca andei à tareia (as meninas da minha turma, na escola primária, tinham a sorte de ter um bando de rapazes a protegerem-nas), nunca estive rodeada de gente "com mão na anca e a gritar pregões" aos vizinhos, nunca tive um chefe que gritasse comigo... 
Nunca fui exposta, logo nunca conheci, e obviamente que, por estas razões, não sei lidar com ela. 

E hoje durante o dia voltei a pensar nisto. Não sei lidar com pessoas que, à minha frente, sejam violentas, quer para mim quer para os outros. E é tempo de tratar deste assunto. É tempo de deixar de ignorar esta dificuldade. 

Hoje, numa das escolas em que trabalho, uma colega minha foi agredida. Estávamos a dar aulas no mesmo horário. Ela é uma mulher que é surpreendentemente calma. Tão calma que ninguém sabe como se consegue manter tranquila naquele contexto escolar. Hoje foi vítima de uma agressão por parte de vários familiares que entraram de rompante na sua sala de aula. Onze. Adultos. O motivo: uma queixa maldosa/inflacionada por parte do aluno à mãe. Origem: falta de educação da criança/família, falta de valores da criança/família. Desobediência por parte do aluno à professora. Um agarrar de braço para este se sentar na sua cadeira após o pedido ter sido feito oralmente, várias vezes. Saída da escola do aluno para chamar a família. Tudo foi possível. 

Resultado: agressão física por parte de vários familiares à professora. Polícia, hospital, relatórios, queixas, tribunal, vida marcada por aquela agressão física, receio de ser "agarrada" novamente pela família.

Durante o acto não reagiu, só teve tempo de dizer que não bateu em ninguém, apenas agarrou o braço do aluno porque este não obedeceu ao pedido feito, oralmente, várias vezes. Não reagiu e teve consciência de que não o podia fazer, por isso ali se manteve às ordens da praça armada pela família. 

Não vi, estava a dar aulas. Sei que amanhã não voltaremos iguais à escola. Ela marcada física e psicologicamente e os restantes marcados pelo medo.

Nenhum professor, de bom senso, toca num aluno de forma violenta. Nenhuma mãe ou pai, de bom senso, bate de forma violenta no seu filho. Ambos são pessoas e pessoas de bom senso. Sabe sair da sala de aula ou de jantar, respirar fundo, gritar ou largar-se num pranto de lágrimas e, depois, voltar ao local do filme. Mas todos estamos sujeitos aos que se transformam e fazem questão de amedrontar os outros, com a sua violência física. Na maior cobardia da vida. 

Não sei mexer-me neste assunto. Faz falta a raiva e o amor. Movem-nos. A indiferença não nos faz avançar, e eu começo a pensar que está na altura de deixar de ser indiferente à violência. Não quero ser violenta. Quero encarar de frente a violência, com todo o meu amor e deixar de correr, em círculos, à volta da mesa...







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