quarta-feira, 13 de maio de 2015

Fui com a certeza que não me apetecia sorrir... (o dia depois de ontem)



E no dia seguinte como chegas até ao sítio de onde ontem saíste violentada, embora que só emocionalmente? (como se a palavra "só" não fosse aqui suficientemente grande)

Passar o dia pensar no que fazer hoje com eles... O quê?! Preparar uma atividade de uma hora, no dia seguinte aos meus alunos terem sido expostos a um acto violento, sem saber o que se passou hoje, durante o seu dia. Será que houve punições a alguém? Será que foi falado com os alunos? Não sabia. Sabia que o caminho até chegar à escola ía ser diferente, a entrada também e aquela hora idem. 

O que levar? Por norma, a minha hora é utilizada a contar histórias e a trabalhar nelas. Por norma... porque uma grande parte das vezes, a minha hora, é utilizada para tentar salvar vidas. Aliás, a minha hora e todas as restantes horas dos meus colegas, ali, naquela escola. Uns com mais jeito, outros com menos. Mas é o clima que se sente. Somos professores-salvadores. O Alexandre O'Neill dizia "Há mar e mar, há ir e voltar" e nós sabemos, todos os dias, que "Há vidas e vidas, há ir e voltar". E todos os dias vamos às vidas e depois queremos regressar. O peso da vida do outro já é demasiado para qualquer um, mas quando este peso se multiplica por vinte e dois ou seis, não há coluna vertebral que aguente. Temos esperança que a seja a espinha emocional a aguentá-la. 

E hoje também fomos... Eu fui sem saber o que fazer. Fui com uma certeza, receio. Nunca me tinha acontecido fazer aquele caminho com tanta incerteza e receio. Receio de uma "espera", de ser achincalhada, de voltar a acontecer. Não era suposto ir trabalhar assim, não. Fui ainda com outra certeza, não me apetecia sorrir. Não era suposto ir trabalhar assim, não. Não me apetecia ser simpática. Não me apetecia esforçar-me para trabalhar. Não é suposto trabalhar assim, não. Muitas vezes vou em esforço, muitas. Este ano sobretudo, e nesta escola em especial. Só mesmo a espinha me aguenta em pé. E muitas vezes penso... "E eu só estou, fisicamente, uma hora por dia, não imagino quem está sete." 

Cheguei. Entrei. Todos os alunos perguntavam pela outra professora e a conversa entre adultos era sobre o passado dia. Os boatos no bairro são maiores que a lista de devedores do fisco. As respostas e tomadas de decisão são equivalentes ao meu subsídio de férias na conta, zero. As indicações para o procedimento com os alunos são em singular, uma. 

Essa uma que era exactamente oposta ao que eu senti que devia fazer com eles, naquela hora. Era-me impossível ser indiferente, era-me impossível não falar acerca do que aconteceu. E foi isso que fizemos. Eles ainda em estado de choque com o que tinha acontecido, e eu também. O aluno em causa não estava presente. E começámos a falar, mas com uma regra: ninguém fala sobre o que aconteceu ontem, só podemos falar sobre o que não aconteceu e devia ter acontecido. Com os olhos literalmente esbugalhados tomaram o lugar dos adultos e do colega. As soluções passam por situações de "devemos conversar, respeitar, se fizermos com calma conseguimos...".

Surge a pergunta "Posso fazer tudo o que me apetecer?" , as respostas inevitavelmente vão para o "não". 
"E porquê?" porque temos de obedecer aos mais velhos, à mãe, ao pai, aos professores... 
"E porquê?" para não levar porrada, castigo. Até que surge, do mais tímido  "não posso fazer tudo o que me apetecer porque tenho regras, e elas põe o mundo na ordem" e os outros seguem o seu pensamento. 
E surge outra pergunta "Se há pouco tempo comemoramos a liberdade como uma coisa boa, como é que ela agora se tornou numa coisa má?" e as respostas caem em tirar a graça à liberdade e baptizá-la de má. 
"Mas era boa! Como é que ficou má?" e surgem as respostas "porque as pessoas têm liberdade mas estragam-na com falta de respeito"... e daqui surgiu o desenho no quadro da regra do jogo de futebol. Da linha do nosso campo, de tudo o que podemos fazer dentro dele e de tudo que não podemos fazer fora dele. Da nossa linha e da linha dos outros. 

Ao longo da conversa, de cada vez que se tocava no assunto de ontem, levantava-se uma voz a chamar à realidade "não é para falar do que aconteceu, só do que não aconteceu!" Passados 40 minutos terminámos a conversa. Depois disso, ficámos 20 minutos a construir os Quantos-Queres com os nomes e adjectivos. Eu e eles estávamos satisfeitos e, sobretudo, leves, com vontade de sorrir e de nos ajudarmos uns aos outros... 

Pode ser que na sexta-feira volte a fazer aquele caminho com outras certezas...  






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