segunda-feira, 4 de maio de 2015

Queria enganar o meu espelho, queria esconder-me dele e nele continuar a ver-me, aliás, espreitar-me.


Não quero ser somente mais um visitante deste tempo. Nunca pensei que estaria mais de oitenta, e sempre pensei que não desaparecia nova. E neste tempo já fui transparente, opaca, brilhante, baça, viva, morta. É assim que se vive com o nosso reflexo. Cheia de tonalidades. Sempre em espelho. 

Muitas vezes achava que o que estava à minha frente era muito maior, mais brilhante, mais transparente. E o meu reflexo, no espelho, ia ficando cada vez mais pequeno à medida que achava isto. Às vezes achava que o meu reflexo era tão alto, inteligente, amoroso quanto o que eu via à minha frente. E eu e o meu reflexo ficávamos a olhar-nos horas a fio, sem perder um pestanejo. Ficávamos no "achismo". Eu achava uma coisa, ele achava outra.

Não menos raras eram as vezes em que eu tentava enganar o meu reflexo. Tinha sempre esperança que me acontecesse o que a Suzy Lee tão bem descreveu no seu livro "Mirror". 

Queria enganar o meu espelho, queria esconder-me dele e nele continuar a ver-me, aliás, espreitar-me. Achava que conseguia enganá-lo porque ele era um "Ele" , e sempre ouvi dizer que Elas eram mais inteligentes que Eles. Nunca deu certo. Nem para Ele, nem para Ela, eu.

Foi então que decidi calibrar as minhas lentes e apenas observar partes Dele. Olhava apenas alguns detalhes do meu reflexo, mirava, apreciava e desaparecia. Passado algum tempo voltava a outro detalhe. Olhei tantos até perfazerem a realidade do Tudo. 

Agora vejo o reflexo no seu todo e a maior parte das vezes gosto Dele. Ainda faltam aprimorar muitos e muitos detalhes. Mas são isso mesmo, detalhes, que fazem parte de um Todo. E com este nosso novo namoro havemos de chegar a um bom lugar. Um lugar tranquilo, onde todos os dias crescemos os mesmos "Tempímetros".



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