quinta-feira, 28 de maio de 2015

Agradeço a estes senhores governantes...

Pensando bem no que se anda a passar nesta praia lusitana acabo por perceber que afinal tudo está certo! E agradeço a estes Senhores governantes...

Senhores governantes, o meu carro já deixou de ter, frequentemente, o depósito atestado. Agora atestamos na viagem das férias de verão, e de resto abastecemos à semana vinte e cinco euros. Agradeço-vos a consciência da pegada ecológica que nos obrigaram a ter.

Senhores governantes, cá em casa, as viagens de férias de verão deixaram de "viagens" para passarem a ser "viagem". Agradeço-vos a capacidade de foco que nos obrigam a ter.

Senhores governantes, a arca frigorifica cá de casa agora passou a ser tratada como o depósito do carro, há muito que não é atestada. Agradeço-vos nunca mais ter tido  comida fora de prazo, no frigorifico.  

Senhores governantes, as lâmpadas lá de casa foram todas mudadas para as mais económicas, não por questões ambientais do mundo, mas por questões de um possível arejamento à carteira. No entanto, ao final do mês, a carteira continua tóxica em vez de arejada e saudável. Agradeço-vos os serões à luz de velas.

Senhores governantes, as saídas ao fim de semana, cá em casa, também deixaram de acontecer com a finalidade de conhecer o mundo-lá-de-fora. Agora, para pouparmos o depósito, ficamos a conhecer o mundo-cá-de-dentro. Agradeço-vos o não circular por estradas evitando assim a exposição a acidentes.

Senhores governantes, os meus dentes nunca vos conheceram, ou seja, nunca eu consegui abrir a boca a um dentista do estado. Agora, em vez disso, fico de boca fechada à espera que os meus bolsos se enchem para conseguir abrir a boca a um privado. Agradeço-vos a oportunidade de não sorrir, evitando assim as rugas de expressões. 

Senhores governantes, o pão cá de casa bem tenta não ter farinha trigo, mas aqueles mais escurinho e saudáveis estão sempre numa prateleira mais cara. Agradeço-vos a redução de consumo de pão.

Senhores governantes, os iogurtes qualquer que sejam eles não fazem falta nenhuma, pois não? Grata por esta dica.

Senhores governantes, do meu shampoo também já não há rasto cá em casa. Agora compramos daqueles bem baratinhos no supermercado com cheiro a frutas, que em tudo me lembram a querida Fabiana, artista da casa Viking (Lisboa, Cais do Sodré). O creme de rosto e de corpo juntaram-se num só. Agradeço-vos ter passado a uma pele de "todos os tipos".

Senhores governantes, fico-vos grata por darem tanto destaque à moda dos anos 70 e 80, agora já nem precisamos compra roupa a cada nova estação (pena ter perdido a roupa da minha infância, se não já o meu filho andava sempre na moda). 

Por fim senhores governantes, agradeço-vos também o cuidado que colocam na vida do meu filho. Avaliando-o, hoje, nos seus sete anos, o seu longo percurso escolar. Fico tão mais descansada por saber que sois vós, senhores sérios e de um rigor e transparência inigualável, que querem avaliar o meu filho. Vocês que o conhecem, no seu dia a dia, na sua vida. Fico tão mais descansada por saber que aquele currículo que os senhores, nos vossos gabinetes construíram, cheio de referência holísticas da criança, foi pensado numa escola para Todos. Todos os que recebem um bom pequeno almoço e os que não o conhecem.  Todos os que assistem a porrada na televisão, e os que diariamente a sentem na pele. Todos os que usam, diariamente, shampoo da farmácia, de fruta, de sabão azul e branco e os que o sentem de semana a semana no couro. Todos os que têm uma chave para abrir a porta de casa e os que basta empurrar a chapa. Todos os que já viram o mar e também todos os que morando a quatro quilómetros nunca o cheiraram. Todos os que não sentem o alcatrão nos pés e os que não conhecem dois pés fechados numa sola. Todos os que crêem que o conhecimento é um património imaterial e os que crêem que conhecer é sobreviver à desgraça.      

Senhores governantes, não querendo incomodar a vossa consciência, deixo apenas um pequeno desabafo... infelizmente, o quarto de depósito do meu carro anda a provocar-me azia, palpitações cardíacas e tremores nas pernas. O cheiro do meu shampoo que quase me provoca indigestões e calor no estômago. A minha arca vazia esvazia-me ainda mais estômago e apodrece-me ainda mais os dentes. Pergunto: O que me sugerem? Deixarmos de andar de carro e passarmos a deslocações de setenta quilómetros a pé? Que mezinha para lavar os cabelos? Posso utilizar os terrenos à volta de minha casa para cultivar alguns alimentos?

Atentamente,

Rita Alves 





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