terça-feira, 18 de junho de 2013

Resgatar o riso

Nos últimos tempos acredito que o maior resgate não é o dos bancos, de Portugal, Grécia, Turquia ou Itália... é o do riso de cada um. Em tantos rostos ele vai desaparecendo, e em tantos outros já sumiu por completo. O seu sequestro foi feito. O lugar onde lhe escondem a liberdade é secreto, e somente cada um de nós sabe a pista certa para lá chegar. Não me escondam o vosso sorriso, nem sequestrem o meu. Sacudamos a poeira que os lábios carregam, e deixemos que os cantos da boca se voltem novamente para o caminho do céu!

"O teu riso
Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria."

Pablo Neruda

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