segunda-feira, 28 de julho de 2014

Habitar aquela casa era uma encruzilhada...

O seu pai viveu sempre rodeado por um Diabo que o pontapeava, via mulas sem cabeça nas encruzilhadas e homens com cornos e cascos de cavalo. Ele ouviu aquelas histórias toda a vida, e ao mesmo tempo também as viveu.A sua casa era de facto um inferno, onde o pior Diabo de todos era a miséria e a fome. 
Habitar aquela casa era uma encruzilhada. Não havia um caminho longo e tranquilo para a ela chegar, nem para nela permanecer. Todo o caminho era feito de incertezas de sobrevivência à vida. Todo caminho era um sinuoso labirinto. O seu pai sempre habitou aquele lugar. Era-lhe fiel. Mais fiel que ao lugar e à casa, só à bebida. A sua família nasceu e habitou sempre aquela casa. Casa que acolheu muitos tombos, gritos, faltas de amor e excesso de fome. Aquela casa acolheu demasiadas faltas de respeito pelo Ser humano. Às vezes chego mesmo a culpada. Devia ter-se desmoronado. Podia ter-se desmoronado para que aquela família se reconstruísse noutro lugar, que não um beco sem saída. Devia ter-se desmoronado para que aquela família aprendesse a viver num caminho aberto, com um horizonte à vista, onde a estrada atravessasse os quintais de todos os vizinhos e todos se tivessem de cumprimentar e agradecer. Devia ter-se desmoronado para que aquela família aprendesse a agradecer aos outros o cuidado na manutenção do caminho, e para aprender a cuidar do seu caminho. Aquela casa tinha unicamente uma porta e uma janela, e devia ter-se desmoronado para que aquela família pudesse ter crescido numa casa cheia de portas e janelas abertas. Numa casa que lhe abrisse o coração e que, a corrente de ar fosse de tal modo forte que por lá não parasse inveja ou egoísmo. Devia ter-se desmoronado porque não tinha tachos, panelas, livros, móveis, amor, devoção, admiração ou gratidão que lhe escorassem as paredes.
Mas a casa nunca se desmoronou. Ao longo das décadas manteve-se sempre erguida com paredes tristes, cheias de mágoas e rancores, sem alegria de vida, com a janela fechada e a porta suficientemente aberta para lá caber um olho e espreitar quem chegava àquele beco. Ele casou e saiu daquela casa, fisicamente. E diz-se que, não faz muito tempo, foi visto a erguer casas cheias de janelas e portas largas, em caminhos largos e luminosos, mas com o coração a habitar a miséria, lugar de onde nunca saiu.

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