domingo, 24 de março de 2013

Histórias minúsculas

O propósito deste blogue passa por um exercício de olhar, reflexão e escrita. Todos os dias olhar, reflectir e escrever sobre alguma coisa especial. E porquê? Simplesmente porque muitas vezes quando eu e o dia nos encontrávamos já era tarde. Já tudo tinha passado e eu, muitas vezes, não me tinha parado no tempo. E achava/acho que é impossível passarem-se vinte e quatro horas e nada de bom acontecer. Nada de extraordinário, bonito, alegre, prazeroso, que deixe cicatriz... E em boa verdade, existem sempre minúsculas histórias que são perfeitas... precisamos primeiro aprender a escutar e olhá-las. Por norma não tenho dificuldade em iniciá-las, mas tenho alguma dificuldade nos seus fechos. Olhando à luz de uma psicologia muito barata, se calhar não gosto que as histórias, as minhas histórias, tenham fim. Não gosto de deixar de ter por perto as minhas personagens. Quero mantê-las sempre comigo e desejo que elas nunca tenham fim. Mas isto tudo à luz da psicologia low-cost que não é a minha zona de conforto. Hoje, os momentos sabura escasseavam e eu, que me esforço por olhar, começava a ficar desesperada por não ter conseguido um que fosse digno. Dia tempestuoso, entre paredes, dia cinzento e longo até encontrar duas minúsculas e perfeitas histórias...
A primeira foi quando, em arrumações de papeis e cadernos dos anos de 1981/82, voltei ao tempo de infância à velocidade da luz. Pedi permissão ao corpo para acalmar a mente e entrar naquele espaço contemplativo, de festa e carinho. Ao visitar as páginas dos meus cadernos de escola consegui fazer para o tempo e deixar-me levar somente pela minha caligrafia. Lembro-me perfeitamente de ter escrito algumas das linhas que ainda sobrevivem, marcadas no papel. Lembrei-me o quanto eu ficava feliz porque a professora colocava um carimbo numa folha do caderno, e nós, com todos os cuidados, o podíamos ilustrar. Lembrei-me com clareza, e algum nervoso miudinho, da caneta vermelha da professora a riscar o que tínhamos lido ou escrito. Era o risco da avaliação, da fluência, dos erros. Lembrei-me que eram muitas horas felizes durante uma grande parte dos dias... que era uma coisa que hoje me fazia falta.
A segunda história foi quando "baixei os braços" às tarefas que andava a fazer e me derreti no meio da família-pequenada. Sentei-me no chão e olhei-os. O meu Guerreiro de voz branca, nesse momento, piscou-me o olho e deu a si próprio um abraço. Maravilha! Era o melhor convite! Descruzei as pernas de chinês e fui ter com ele. Os melhores segundos deste dia. Foi uma minúscula história que durou trinta segundos no espaço GTM, mas que a mim me pareceu uma eternidade.

Há uns anos atrás consegui escutar várias histórias do Sebastião da Gama e hoje lembrei-me tanto destas palavras dele...

"O poeta beija tudo, graças a Deus… E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade…
E diz assim: “É preciso saber olhar…”
E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo como os homens feitos…
E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás…
E perde tempo (ganha tempo…) a namorar uma ovelha…
E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de sol depois de um dia chuvoso…
E acha que tudo é importante…
E pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim…
E reparou que os homens estavam tristes…
E escreveu uns versos que começam desta maneira: “O segredo é amar…”
(Sebastião da Gama)

Há dias em que as dores são tantas que quase nos abafam os cheiros, o paladar, o tacto. Hoje quase abafaram a audição e a visão. Mas foi só quase. E também por isto, o Beijo Sabura já é uma espécie de melhor amigo, forçando-me a acreditar e a saber olhar.   

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